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A Namorada do Van Grogue

por Fernando Zocca, em 09.12.09

 

           Na manhã chuvosa de segunda-feira, Van Grogue caminhava, evitando fazer ruídos, pela calçada que o conduzia ao bar do Bafão. Antes de sair de casa ele parara defronte ao portão semiaberto e, depois de olhar para um lado e o outro da rua, achou que estava seguro.
            Durante o trajeto ele acendeu um daqueles seus cigarros e, aspirando a fumaça com avidez, pos velocidade nos pés calçados com chinelos de couro. Ao passar em frente a casa do vizinho ele deixou cair o celofane do maço de cigarros que estreara há pouco.
            O jogar papéis na residência daquela pessoa tornara-se um hábito já arraigado. Ou eram embalagens de biscoitos, de paçocas, folhas de jornais velhos, ou celofanes dos maços de cigarros. Não importava qual objeto devesse ser deixado, mas sempre alguma coisinha seria ali lançada como se fosse um sinal, ou um recado.
            Van Grogue não sabia porque fazia aquilo, mas o fazia igual a um carteiro que trazia a correspondência ao seu destinatário.
            Quando Grogue entrou no bar viu Adam Oly, Virgulão e Edbar Bante que conversavam. Os homens cessaram a prosa, que versava sobre o Flamengo, e Edbar disse imitando um narrador ou apresentador de palco:
            - Van Grogue, o pingueiro que mais parece papel higiênico chega neste momento ao recinto.
             Van aproximou-se dos companheiros e tomado pela curiosidade foi logo pedindo esclarecimentos:
            - Por que papel higiênico?
            Edbar Bante, sem titubear respondeu certeiro:
            - Porque você está sempre ou enrolado ou na merda.
            Sem perder a linha Grogue sinalizou ao Bafão que o servisse logo com as coisas de costume. Bafão abasteceu com pinga, até a metade, um copo americano e abriu uma garrafa de cerveja bem gelada. Então Van Grogue disse:
            - Acabei de ler no Diário de Tupinambicas das Linhas que Jarbas, o caquético testudo teve uma audiência com o juiz da comarca. – Ante a expectativa que se instalou nos parceiros, Van prosseguiu:
            - Era um processo que moveram contra ele por causa daqueles escândalos nas licitações. A reportagem diz que foram ouvidas três testemunhas; e que o juiz perguntou a cada uma delas se tinham visto o prefeito colocando o dinheiro nas meias, na pasta, nos bolsos do paletó ou na cueca. Nenhuma das testemunhas viu o acusado fazer isso. Então o juiz sentenciou ali mesmo, naquela audiência, absolvendo o réu das acusações.
            Tossindo assim como quem deseja chamar a atenção para dizer alguma coisa, Virgulão interrompeu a narrativa do Grogue, perguntando em seguida:
            - Mas aquele juiz acabou com o processo contra o prefeito? Não acredito! – Então Van de Oliveira Grogue prosseguiu:
            - Acabou sim. Disse que não havia provas suficientes para condenar o prefeito das acusações de ter roubado tantos e tantos milhões de reais dos cofres da prefeitura. Mas o interessante não é isso. Um dos serventuários que participou da audiência contou depois, no final, que quando o juiz falou que absolvia o Jarbas, ele – o prefeito -  teria perguntado ao Tendes Trame que o acompanhava: “Absolvido? Como assim? Então terei que devolver o dinheiro?”
             O pessoal caiu na gargalhada e Bafão prosseguindo com as instigações indagou ao Grogue:
            - Ê Van Grogue, hein? É verdade que você arrumou uma namorada carioca? – todos se calaram e olharam pro mais famoso pingueiro de Tupinambicas das Linhas.
            - O que é isso? Podem parar com tudo! Seria muita água pra minha piscina, muita areia pro meu veículozinho e também muita chuva pro meu talvegue. Não ia prestar.
            Adam Oly que se mantivera calado até aquele momento, perguntou sem receio:
            - Mas Van, não seria mesmo mais saudável degustar uma goiabada a dois do que  titica sozinho?
            - Até que poderia ser, mas já é passada a hora. Antes Jarbas na cadeia do que este que vos fala sob os cuidados do doutor Silly Kone.
 
(texto revisado em 9/12/09)
           
            Fernando Zocca.

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publicado às 10:42


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