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O bar

por Fernando Zocca, em 19.10.09

 

- E aí pantera, tudo bem?
 
Ele entrara duma forma tão silenciosa que quando o vi estava já ao meu lado quase fungando no meu cangote. Assustada, achei que poderia ser mais um aproveitador. Não respondi. Continuei lavando meus copos. Era um moreno jambo, alto pra caramba, cara de safado, cabelos divididos à esquerda, igual ao John F. Kennedy, e tinha um bafo de cigarro dos infernos.
 
Ele pediu uma cerveja. Sentou-se à mesa do meio. Foi o primeiro cliente do inicio da noite daquela quinta-feira triste. Com um movimento rápido, feito felino, capturou com a mão direita, o jornal que dormia sobre o balcão. Ao sentar-se buscou o maço dos cigarros, no bolso esquerdo da camisa de mangas curtas.
 
Ajeitei meus cabelos encaracolados, curtos e louros. Eu achava que deveria tingi-los de cobre, já que o amarelo-palha dava um destaque muito bem feio pros meus olhos azuis. E depois tinha mais: aquela minha pele alva era terrível. Não podia tomar um minutinho só de sol que tudo ficava ardendo feito um não sei quê.
 
Eu via unicamente momentos de tristeza. Meus pais acabavam de separar-se. Ouvia eu, às escondidas, as conversas, e disfarçava, assim como quem não entendia nada. Mas pude perceber que minha mãe traíra meu pai. Ele fora motorista de caminhão e enquanto estava fora ela aproveitava, enfeitando a fronte dele com os galhos ostensivos e exuberantes.
 
Imaginava que mamãe fizera aquilo como vingança eis que ele a enchia de sopapos e pancadas, todos os dias, quando chegava da rua, torto com tanta cana.
 
O silêncio incomodava-me. Liguei o rádio. Estava quase na hora do resultado do bicho. Minha tia, lá no andar de cima, daquele sobrado antigo, junto com outro tio, seu irmão, tramava algo que eu cismava ser a captação de apostas. O telefone funcionava incessante e o radio a pilhas informava o necessário pro deslinde da banca.
 
Um outro meu tio, xarope nato, a verdadeira ovelha negra da família, deveria substituir-me, já naquela altura do campeonato. Eu estava exausta. Fizera, na máquina primeva, os sorvetes de massa que seriam vendidos, no dia seguinte, aos escolares da escola velha e chata, plantada defronte ao bar. Mas o louco, que lembrava Adolf Hitler, estava fechado no banheiro, quem sabe fumando mais um baseado enorme feito com a erva maldita.
 
Não poderia dizer, o que aquele matuto tinha em comum com a besta apocalíptica. Talvez fosse o parentesco em satã, evidenciado nas estripulias que aprontava pelas madrugadas, movido à maconha e mamãe-de-luanda, quando a cidade ainda ronronava.
 
Aquele tio, como já disse, era análogo ao demônio. Um dia, chamou-me ao banheiro, onde simulava fazer xixi, e mostrou-me aquela coisa cabeçuda, vermelha e que parecia crescer quando cheguei perto. Senti meu rosto afoguear-se. Meu coração pulava. Ele mandou-me segurar na pontinha. Virei o rosto enojada, e corri. Imagine! O que era aquilo, minha amiga?
 
Nos dias subseqüentes, quando percebia que eu estava encerrada no banheiro, batia de leve na porta, pedindo-me com voz sussurrante, que a abrisse. Se relutasse, ele colocava logo pelo vão, uma nota de cinco mangos. Aquela agonia, que me dava, não impedia de recebê-lo e fazer o que mandava sua loucura.
 
Contei a história pra minha tia-dona-da-banca e ela achou que deveria rogar uma praga bem forte nele. O arrenegado seria perseguido por onde quer que fosse. Até ao Rio de Janeiro, por caronas, o danado seria conduzido; e se fosse possível, deixado lá com os malvados que dariam um fim naquela sua vida fodida e nefasta.
 
Se o cancro fizesse cursinho, seria perseguido. As opiniões que se formariam ali junto aos professores, funcionários e alunos seriam das piores com relação a ele.
 
Se o porco entrasse na faculdade, todos menos ele saberiam, que era uma besta e que deveria ser deixado de lado, no ostracismo. Ele não teria consciência que a maioria saberia sobre seu passado tenebroso e maligno.
 
Aquele destino estava traçado: sanatório, cadeia e cemitério.
 
- Outra cerveja, meu bem!
 
O moreno, de pé, quase ao meu lado, fazendo cara de tarado e, soltando os bagos com espalhafato, olhava-me em meu devaneio. Aquela olhadela eriçou-me os pêlos do meu braço esquerdo. Será que meu destino seria pecar? Sempre soube que vida de marafona era dose.
 
Que Deus me livrasse dos maus desígnios. Afinal, apesar de estar um tanto quanto gorda, ainda assim, com algum treino, tinha absoluta certeza, poderia fazer bonito em qualquer maratona.

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publicado às 16:17


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