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O Capitão da Nau e seus Auxiliares

por Fernando Zocca, em 15.01.13

 

 

Tenho dito que algumas formas de pensar de hoje são semelhantes às dos tempos antigos.


Veja que por uma das narrativas bíblicas - no Velho Testamento - era muito comum achar um culpado para tudo de ruim que acontecia.


Então você imagina um navio, à velas, em alto mar, sendo fustigado incessantemente por uma tempestade.


O capitão da nau e seus auxiliares, não sabendo como explicar o fenômeno, resolvem tirar a sorte, pra saber de quem era a culpa por toda aquela contrariedade.


Jonas que, ao perceber que não podia fazer nada, diante do fenômeno, muito maior do que todos os que estavam ali presentes, naquele momento sofrido, afastou-se indo dormir na parte mais baixa - o porão - do navio.


Então, os responsáveis pela embarcação, reuniram-se e foram conversar com ele a fim de saber o que tinha feito de tão grave, para que todos merecessem passar por aqueles sofrimentos.


Jonas ficou assustado com aquela culpa insólita, mas mesmo assim, sendo considerado por todos, como a causa dos danos e tanto mal- estares, provocados pelo tempo, foi jogado ao mar.


Bom, como sabemos, depois de uma tempestade fortíssima, sempre vem a bonança. E por isso, a bondade divina fez com que Jonas ficasse três dias na barriga de uma baleia, tendo voltado vivo depois.


Da mesma forma, você pode notar, pelos Evangelhos, que Jesus Cristo também passou por situação semelhante: Anás e Caifás, que eram sogro e genro, sacerdotes da sinagoga, diziam que alguém deveria ser sacrificado porque se assim não fosse, os romanos destruiriam a cidade e sua gente.


O povo então, tendo que escolher entre um assassino (Barrabás), ou Jesus Cristo, a quem seria concedido a liberdade, escolheu o bandido.


E mesmo tendo ensinado, aos dirigentes religiosos e políticos, que as obras que ele fazia vinham de Deus - frutos do amor e respeito -, tendo mostrado que as árvores ruins não produziam frutos bons, que os ramos improdutivos da videira seriam podados, que a figueira, por não produzir frutos, seria seca, mesmo tendo revelado todas estas verdades, foi crucificado.


Hoje ainda se vê esse tipo de mentalidade: prefere-se afagar o baderneiro, o abusador dos enteados, os usuários de drogas, os depredadores das propriedades alheias, os perturbadores do sossego público, do que valorizar a quem trabalha gratuitamente, para a comunidade, por mais de uma dezena e meia de anos. 


Quando a sociedade toda, de uma cidade, está alertada e bem ciente do problema e, mesmo assim, as autoridades políticas, religiosas e demais entidades influentes se omitem, não se pode deixar de inferir que sejam incapazes de evangelizar ou aplicar as regras da boa educação.


Então, quando os políticos ouvem que são corruptos, péssimos administradores e completamente responsáveis pela má-educação, segurança e o transporte da cidade, buscam, ao invés de educar, reprimir e fazer cumprir as leis, afastar aquele que mostra o erro.


Neste mesmo sentido, o profeta João Batista, que por dizer que Herodes comedia erros gravíssimos, ao seduzir sua cunhada, foi decapitado covardemente.


Assim, desta forma, não se pode dar crédito àquela letra da música do Lulu Santos que diz: "nada do que foi será de novo, do jeito que já foi um dia".

 

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publicado às 11:02

Insuflando as Velas

por Fernando Zocca, em 09.04.11


 

                    - A impressão que a gente tem é que a maioria dos políticos possui muita habilidade em resolver só seus problemas pessoais. Nada mais que isso. – disse Wilson Regente depois de se sentar ao lado de Janaina na praia deserta.

                    A moça, trinta anos mais jovem do que ele, acomodada sobre a canga colorida, alisava os cabelos úmidos. Ela chegara mais cedo ao local do encontro, combinado na noite anterior.

                    - E você acha que eles deveriam resolver os problemas de quem mais? – inquiriu ela passando, lentamente, protetor solar nos braços.

                    Regente notou que o céu estava nublado e nem o mormaço era suficiente para avermelhar a pele.

                    - O vento está bem chato. – concluiu o músico, cofiando a barba longa, depois de ajeitar os cabelos que lhe cobriam os ombros.

                    - Já fazem muita coisa se conseguem resolver os próprios problemas. – Janaina percebeu o desconforto dos lábios ressecados, umedecendo-os com a língua.

                    - A conciliação, às vezes, fica difícil. A gente envelhece e não consegue demonstrar simpatia, arrependimento ou dar qualquer outro sinal de que não deseja tanta guerra.

                    - Sabe o que eu acho? As pessoas próximas de quem litiga assim, por tanto tempo, não são tão hábeis nessas questões de apaziguamento. – reforçou ela.

                    - Eu estou bem arrependido de ter socado a mesa do cara. Você sabe: achei que era muita exploração. A gente se dedica tanto nas composições e depois vem esse desprezo do produtor. É foda! Você viu, não é? Investi o valor de um carro importado no CD e o que a gente tem de volta?

                    - Cara! Não é nada disso. Você está buscando simpatia, reconhecimento, algo de fora, de outro alguém. Não é por aí. – indignou-se Janaina.

                    - Na verdade estou me doando, me entregando, aderindo ao seu progresso, sucesso, insuflando a sua vela e não espero nada de volta. É assim que deve ser? – perguntou o amigo com alguma tristeza no semblante.

                    - Eu penso que seja assim. Haveria, por acaso, outra maneira de não vivenciar tantos tormentos?

                    Wilson aproximou-se dela enlaçando-a com os braços. O beijo ardente só foi interrompido pelo vendedor ambulante que oferecia biscoitos e água fresca.

09/04/2011.

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publicado às 14:46

O Balanço das Ondas

por Fernando Zocca, em 23.02.11

 

 

 

                                             Esteve tudo muito bom, a alegria pairou no ar, o som romântico estava ótimo, mas durante a noite, quando imperava o silêncio e o vento trazia os odores do mar, eu senti que algo a mais poderia ser acrescentado.

 

                    Não me preocupei com o efeito da bebida, pois não havia ingerido tanto. Notei que os sapatos novos deram um aspecto bem diferente à silhueta dos pés e que agora, ali na cama, descalça, o conforto se impunha de forma completa.

 

                    O coração batia forte e ritmado. Não seriam algumas lembranças tristes que dominariam o restante da madrugada.

 

                    Notei que passou ao largo, e bem rápida, a frota das emoções negativas, que teimava com aqueles assédios maldosos e frustrados.

 

                    Voos livres rasantes de pessimismo, incompreensão e má vontade, foram percebidos a princípio, mas logo se diluíram sob o clarão do céu noturno.

 

                    Ao fundo, o ruído das máquinas impunha lampejos dos grandes bondes, que faziam trepidar o chão, no entorno dos trilhos, por onde passavam.

 

                    Faltou algo, não sei bem o que era. Talvez fossem melhores contatos, afagos, palavras simples de admiração, respeito ou louvação.

 

                   Ou seria o recrudescimento do atual, porém imperceptível balanço das ondas?

 

                   Vi a nau se aproximar de forma lenta, mas segura, do porto. O celular transmitia a certeza de que tudo estava bem, com o futuro que nos aguardava.

 

                    Foi ótimo o passeio. Gostei.

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publicado às 15:50

Aqui em baixo as leis são diferentes?

por Fernando Zocca, em 14.08.09

 

                      Tudo bem, você está numa praia, sente o vento na pele, o sol a lhe aquecer, a maciez da areia, o bate papo com os amigos, o prazer da saciedade que lhe dá a água de coco. Mas e se de repente não podemos voltar para casa?
 
                      Você percebe que o sol se põe, os pernilongos cercam-no zumbizando no seu ouvido, a temperatura começa a baixar e nada. Nada de paredes para desviar o vento, nada de banho com aqueles xampus cheirosos, sabonetes reidratantes, e a fome, muita fome. Sim porque ali não há o conforto de um fogão onde se possa fazer um Miojo confortador ou um café da hora.
 
                     Tudo bem, pode-se até comer alguns peixes, que ao darem bobeira na sua frente, sirvam para lhe aplacar o desprazer da escassez de alimentos. Mas será que o escovar os dentes ali naquela água, que não vem da torneira, tem o mesmo efeito, faz a mesma sensação?
 
                      Tudo é muito estranho, muito esquisito. Bom, mas você percebe que está cansado, tem sono, e sua cama não se encontra presente. Que dureza! E tem mais: antes de deitar sempre é bom faze xixi, higienizar-se de alguma forma. Mas onde está o “trono”, aquele papel esperto, o bidê purificador?
 
                     Sem esses apetrechos o homem volta a um estágio da civilização conhecido como idade da pedra, ou pra não exagerar muito, para um tempo em que ele dependia mais da força física do que da astúcia ou inteligência.
 
                     A sobrevivência própria, e da espécie humana, numa situação bastante adversa, hostil mesmo, foi possível graças a capacidade para diluir tudo o que impedia o curso normal da vida. Então, contornando o que causava desconforto, e aprendendo a controlar o prazeroso, viu-se o ser humano nesse atual estágio de desenvolvimento tecnológico.
 
                     Naquele tempo, quando as pessoas habitavam as praias a produção dos utensílios era manufaturada, isto é, feita por artesãos que se especializavam.  Então havia quem fizesse panelas, armas, urnas mortuárias, canoas, ocas e demais objetos para uso próprio, pessoal, ou para familiares.
 
                    Neste século XXI chegamos a evolução tal que até mesmo um simples canudinho com o qual se sorve a água de coco redentora, tem um processo especial de produção industrial. Tudo é feito pela indústria, em grande escala, para milhões de pessoas.
 
                    É mas a fila anda, ou tudo passa, ou ainda tudo se move. Em outros termos dizem que até mesmo essa era da indústria, da produção industrial, está passando. Gasta-se menos horas hoje no trabalho que mantém o sustento, do que naquele tempo em que não havia nem mesmo um radiozinho a pilhas ou televisor.
 
                    As condições de higiene e alimentação, naquela época dos nossos antepassados, não proporcionavam a manutenção da saúde da alma e corpórea que se pode obter hoje. Por conseqüência a longevidade aumentou.
 
                     Se naquelas condições precárias das praias desertas havia a incidência de muitas doenças hoje estão todas elas, praticamente debeladas. Então se vive muito mais e melhor.
 
                    O existir em coletividade implica reconhecer as diferenças entre os que estão “lá em cima” e os que estão “aqui em baixo”. Numa sociedade ideal, mais justa, mais igualitária, não haveria espaço para a afirmação de que “aqui em baixo as leis são diferentes”.
 
                     Numa sociedade honesta, sem trambiques, todos seriam iguais perante a Constituição. E o direito ao trabalho, reservado a alguns privilegiados, seria estendido a todos os demais cidadãos desse pais.
 
 
 
Fernando Zocca.
 
 
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publicado às 14:09


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