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Balburdia

por Fernando Zocca, em 08.05.13

 



- É verdade que fecharam o bar do Maçarico? - perguntou ansioso Van de Oliveira Grogue, ao se aproximar atordoado da Dina Mitt, que saboreava a sua segunda cerveja, no boteco do Bafão.

- Van Grogue, seu focinho de porco desalinhado! Você não é caspa, mas também não sai da minha cabeça. - reagiu a mulher sentindo alegria ao ver o parceiro de copo.

- Eu não acredito que você já se encharcou. Você soube do Maçarico? - quis saber Grogue sedento também de notícias.

- Fecharam a baiuca do cara. Também... Não tinha alvará, não tinha autorização pra nada. Como é que poderia funcionar uma espelunca daquelas sem causar danos às pessoas? - antecipou-se o Bafão adiantando as novidades ao Grogue.

- E depois tem mais: Eu mesma presenciei muita sujeira naquele salão; muita sacanagem e vi até que acendiam velas pro capeta atrás da porta do banheiro. - confirmou a Dina Mitt.

- É sim. Os caras da prefeitura baixaram em peso no boteco mais mal falado do bairro. Maçarico levou cada multa que não sei se ele consegue pagar. - disse Bafão limpando o tampo do balcão com o seu guardanapo alvo.

Grogue fez-lhe o sinal de que queria uma cerveja enquanto dizia:

- É uma vergonha pra comunidade esse tipo de gente. O Maçarico é um mau elemento. Dizem que ele não pagava os funcionários. Que vinha gente de fora pra ajudar no serviço, mas ele não registrava em carteira, não depositava o fundo de garantia e nem recolhia o INSS. Os empregados trabalhavam a troco de pinga, cigarro e cerveja.

- O bairro inteiro esperava essa atitude da prefeitura. Teve gente que foi falar diretamente com o caquético testudo. Apesar de não acreditarem que ele mandaria cumprir a lei, ele mandou o pessoal averiguar e pronto: confirmaram as irregularidades - falou Bafão servindo a cerveja ao Grogue.

- Sabe o que eu ouvi dizer? - indagou Dina - Disseram que o Maçarico e a mulher dele, sabe aquela retardada mental, que catava latinha de cerveja na rua e que depois amigou com ele? Então... Contaram-me que foram reclamar pro bispo que eles eram perseguidos.

- Mas como perseguidos? - quis saber Van de Oliveira Grogue. - Eles devem se adequar à lei. Se a lei manda pagar as multas e os impostos, então devem fazer isso.

- É que eles são ignorantes. Idiotas. E você sabe: gente assim pensa diferente. Pra começar não sabem ler. Como é que a comunidade pode esperar coisa boa de gente que mete os pés pelas mãos? - questionou Dina Mitt.

- É. O Maçarico é bem retardado. Se disserem pra ele que botar fogo no boteco dá direito a seguro, ele é capaz de incendiar tudo.

- Eu sabia que ele era "mental", mas não acredito que ele seja capaz de fazer isso. - duvidou Van de Oliveira Grogue.

- Não duvide. O pai do Maçarico era demente também. Louquinho de pinga. Numa ocasião, no meio da madrugada, ele saiu na rua deserta, e começou a disparar o revólver. Os vizinhos se apavoraram. Mas teve um corajoso que se aproximou, bem devagarzinho, e perguntou ao cara o que estava acontecendo. Sabe o que ele respondeu? Respondeu que tinha um ladrão tentando roubar o carro do vizinho - contou Bafão.

- Mas e daí? - quis saber Van de Oliveira.

- E dai que quando disseram pro maluco que nem o carro e nem o vizinho estavam ali, o demente envergonhou-se parando com a balburdia. Mas voltou pra cama resmungando.

- É só em Tupinambicas das Linhas que isso acontece - definiu Dina Mitt. - Mas vem cá: O Maçarico não tinha uma cadela Poodle que latia a noite inteira infernizando a vizinhança?

- Não. Quem tinha um demônio desse era o Célio Justinho, casado com a Luísa Fernanda, aquela gerente de banco que precisou de treinamento intensivo durante um ano, quando a direção trocou a cor das guias que ela deveria carimbar diariamente.

- Gente... Vocês não sabem o que aconteceu - gritou esbaforido Donizete Pimenta ao entrar correndo no boteco.

- Fala o que aconteceu criatura careca e cabeçuda - exortou a Dina Mitt alarmada.

- A polícia acaba de chegar no bar do Maçarico. Pararam bem na porta e deram voz de prisão pra ele. Quando os homens chegaram ele estava lendo um jornal na porta do estabelecimento. Confirmaram que ele roubava carros no bairro vizinho. - concluiu Pimenta arfante.

- Lugar de bandido é na cadeia - garantiu Van Grogue.

- Bandido bom, é bandido falecido - respondeu Dina Mitt.

Alguém duvidaria?

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publicado às 21:24

O carão intumescido

por Fernando Zocca, em 29.12.12

 

Van de Oliveira Grogue parou seu fusca branco defronte ao Bar do Maçarico e sem dizer qualquer palavra acomodou-se numa das mesas ao fundo.


Dina Mitt chegou logo em seguida, olhou ostensivamente para o fusca velho, parado longe da guia, e entrou no boteco pisando com o pé direito. Ao ver o colega macambuzio com o rosto inchado perguntou-lhe:


- Van, é verdade que você vai ter de retificar o cabeçote?


Para não responder com palavras de baixo calão, Van Grogue olhou pro Maçarico, e com um gesto pediu-lhe cerveja.


Dina Mitt sentou-se numa cadeira ao lado do colega perguntando-lhe em seguida:


- Por que a cidade está cheia de lixo? Já faz mais de trinta dias que não passa o caminhão pra recolher, e veja a situação da cidade. Ela apodrece.


- Isso é culpa do caquético testudo. Ele não foi reeleito e em represália, não renovou o contrato com a empresa terceirizada que recolhe o lixo.


- Estamos cercados por tanta sujeira. – observou Dina.


Maçarico que estava atento à conversa, ligando o rádio e aproveitando a deixa, entrou na roda:


-         Li ontem a notícia, no Diário de Tupinambicas, que o sucessor do caquético vai fazer uma pista nova no aeroclube.


-         Mas aquele sítio só tem aeromodelos. Como é que pode?


-         O quê? Aeromodelo? – Maçarico mostrou-se indignado. – Eu já vi muito Teco-Teco decolar e pousar no aeroporto. Não brinca não. Num domingo teve até bimotor voando por lá.


-         O caquético não estava com câncer? – indagou a Dina, mudando completamente de assunto.


-         Estava, mas sarou. Eu li a notícia no jornaleco da cidade.


-         Como ele sarou? – quis saber a pinguça.


-         Tomando chá de ipê roxo. – concluiu Maçarico.


A tarde transcorria dessa forma na pacata e distante Tupinambicas. O pouco movimento que se percebia nas ruas era creditado aos latifundiários, grandes proprietários de canaviais extensos, alimentadores das usinas de açúcar e álcool da região.


O comércio, bastante fraco, não suportava grandes empreendimentos. A prestação de serviços limitava-se a poucas oficinas mecânicas encarregadas da manutenção do maquinário dos usineiros.

 

Não havia motivos econômicos para que os grandes bancos se instalassem numa economia tão modesta. Tupinambicas das Linhas mirrava. Fenecia.


Mas no jornal e nas rádios o prefeito (comprometido com a ética) pavoneava-se contando loas.


Apesar de tudo muitos criam que Tupinambicas nunca deixaria de ser o eterno fim da linha que sempre foi.

 

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publicado às 20:58

Acesso de Tosse

por Fernando Zocca, em 24.09.12

 

 

 

 

Dina Mitt trajando uma camiseta amarela, bermuda azul e chinelos verdes, entrou no bar do Maçarico onde Van Grogue, sentado à mesa de canto, bebia a sua segunda cerveja.

- Você não é vassoura, mas também vive encostado, hein colega? - disse a mulher depositando sobre o balcão o maço de cigarros e o isqueiro verde.

Pery Kitto, Edgar D. Nall, Billy Rubina e Donizete Pimenta, que também degustavam as cervejas geladíssimas, gargalharam à solta. 

- É preciso ter alguma altura pra falar comigo. Altura intelectual, espiritual e abastança material. Você é muito baixa. Assim não dá. Assim não pode. - respondeu Grogue ingerindo um gole da bebida.

- Sou baixa, mas tenho meus poderes. Não brinque comigo. Gosto de botar ladrões, principalmente de herança, na cadeia ou no sanatório. Se não pego o pai, pego o filho.

Maçarico, percebendo que poderia nascer ali uma discussão prejudicial aos negócios, tratou logo de esfriar os ânimos.

- Dona Dina a senhora sua mãe melhorou? Ela estava com o diabetes alto, não é isso?

- Melhorou sim Maçarico. Eu fui ontem na agência do INPS e marquei uma consulta. O doutor atendeu e ela já está medicada.

- Vaso ruim não quebra. - Resmungou Van Grogue lá do fundo.

- Você é filha única. Sua mãe, já bem idosa, é dependente. E você não se preocupa com a própria saúde, frequentando os bares da cidade? - Quis saber Maçarico tomado por uma estranha onda de compaixão.

- Que nada, minha mãe é forte pra caramba. Ela manda arrancar os dentes sem anestesia. Me dê uma cerveja.

Dina acendeu um cigarro, pegou a garrafa, o copo e caminhou em direção à mesa vizinha a de Grogue.

- É verdade que você foi professor Van? - perguntou ela ao sentar-se.

Van percebendo que a mulher começaria outra das suas sessões de menosprezo pensou que se falasse algo enobrecedor da sua pessoa, talvez amenizasse a gozação daquela figura chata.

- Hã-hã. Fui professor sim.

- Você dava aula do quê? - quis saber a inquiridora.

Sentindo a angustia de quem se vê acuado Van soltou:

- De português.

- De português? Eu não acredito!! - Disparou Dina Mitt com uma sonora gargalhada.

- É verdade. - garantiu Van Grogue, meio sem jeito.

- Então conjugue pra mim o verbo ver. Se acertar eu pago as cervejas que você bebeu hoje. - Desafiou Dina.

Apesar de estar já embriagado, Van não deixou de sentir um desconforto terrível, com a provocação daquela maldosa.

- Eu olho, tu olhas, ele olha. Nós olhamos, vos olhais, eles olham.

Maçarico, que bebia um café, engasgou e teve um acesso de tosse. O pessoal todo, em silêncio, voltou-se para Grogue olhando-o fixamente. 

- Está vendo com são as coisas? O cara não sabe nada e ainda ganhou do estado pra ensinar tudo errado. - Concluiu Dina.

- Mas eu acertei a resposta. Você me deve as cervejas. Ver e olhar são a mesma coisa. - Argumentou Van.

Maçarico, mais uma vez, percebeu que iniciaria ali uma daquelas polêmicas tremendas, que poderiam terminar em ações extremamente prejudiciais, à integridade dos objetos do botequim.

- Para tudo. Vamos fazer uma enquete aqui e agora. Quem acha que a Dina Mitt deve pagar as contas do Grogue levanta a mão.

Todos os presentes olharam-se espantados com a atitude inusitada do proprietário do estabelecimento. Mas, falando muito mais alto, "o espírito de corpo” fez com que a desafiante Dina Mitt pagasse, mais uma vez e sem discussão, as despesas do desafiado.

24/09/12

 

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publicado às 17:27

As Tranças

por Fernando Zocca, em 28.08.12

 

 

Sentado sozinho a uma mesa isolada do bar, Van Grogue comia pastel com sorvete.

- Ficou maluco? Ô Grogue, que mistura é essa? - Indagou irônico o Adan Molly que chegava bem entusiasmado ao botequim.

Van  levantou a cabeça e, envergonhado respondeu:

- Você também vai ralhar comigo?

Molly voltou-se para o Maçarico que, alisando o tampo do balcão com um guardanapo, e apontando o Grogue com o queixo, girou o indicador da mão direita na altura da fronte. Quando Molly se aproximou o dono do boteco sussurrou-lhe:

- Depois que disseram que o bilau dele parece sorvete, que quando esquenta amolece, ele ficou assim, meio jururu.

- Que mico hein Maça? - gracejou o Adan.

- Uma verdadeira estilingada no bom-senso.

Adan Molly pegou a garrafa de cerveja e o copo que lhe dera o  Maçarico e caminhou em direção à mesa do Grogue perturbado.

- É verdade que te internaram num manicômio Van?

- Hã hã. - respondeu, envergonhadíssimo, o mais famoso pingueiro de Tupinambicas das Linhas. Então ele continuou:

- Tinha um enfermeiro lá dizendo que ia injetar gás na minha cabeça só pra tirar um raio X. É mole? Ele era malvado. Amarrava-me na cama e punha um soro no meu braço que me fazia sofrer muito.

- Mas por que ele faria mal pra você? - Quis saber o Adan Molly.

- Vingança. Eu fiquei devendo alguns meses de aluguel para outro enfermeiro que era primo dele.

- Nossa! Impressionante. Como é que você descobriu isso tudo?

- Sabe aquela borracha que se usa pra amarrar o braço quando se tira a pressão da pessoa? - continuou o Van choroso.

- A tripa de mico?

- É essa mesmo. Então… O cara esticava e soltava a borracha contra os meus braços e as minhas costas; era cada borrachada que eu vou te contar; doía tanto que eu tinha de sair correndo.

- Mas quem era o enfermeiro? - perguntou Adan Molly bebendo com satisfação a cerveja geladíssima.

- O que me agrediu eu não conhecia. Mas aquele de quem aluguei a casa tinha sido condenado por homicídio. O cara ficou preso durante dois anos. Ele fez um aborto numa empregada doméstica que morreu.   

- Mas por que você alugou a casa justamente do assassino? - indagou Adan Mollly.

- Porque eu não sabia.

- E essa história do bilau?

- É brincadeira. Sou macho pra caramba.

- Será?

Depois que tomou o sorvete, comeu o pastel e ouviu do Maçarico a resposta negativa, para a sua indagação sobre a existência de peixe frito pra vender, Van pagou a conta e saiu do bar.

Ele permaneceu parado no ponto de ônibus por pouco tempo. Grogue entrou no coletivo, pagou a passagem e preguntou ao cobrador se aquele carro passaria defronte ao zoológico.

- Pergunte para o motorista. - respondeu com rudeza, o cobrador.

Grogue então, por causa do ruído do motor, falando em voz alta ao motorista, quis saber se ele pararia perto de um ponto, próximo ao zoológico.

Van desceu e andando duas centenas de metros chegou ao jardim zoológico onde viu a águia, o leão, e o burro.

Depois, caminhando de volta ao ponto de ônibus, viu de longe, que já havia um parado ali.

Ao entrar no coletivo ele notou um pedaço de papelão deixado sobre o primeiro degrau. Não muito distante o motorista falava ao celular:

- Gritou sim. Gritou feio com um colega nosso.

Van desconfiou que aquilo não deixava de ser mais uma trança que se formava à sua passagem.

28/08/2012

 

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publicado às 13:03

Parando de Beber

por Fernando Zocca, em 24.08.12

 

 

Van Grogue entrou lentamente no bar do Maçarico naquela manhã de quinta-feira e disse em alto e bom som:

- Parei de beber. Hoje completam 30 dias que deixei de lado esse vício do inferno.

Billy Rubina, Célio Justinho, Donizete Pimenta, Pery Kitto e Zé Cílio Demorais paralisaram-se, depois de fitarem o afobado que chegava.

Van aproximou-se do grupo reunido e, num gesto heroico, aspirou desafiadoramente os vapores do álcool que, tal qual uma nuvem densa, envolvia os amigos assustadíssimos com a bravata.

- Quero comunicar a todos que não faço mais parte desse time e que me considero livre desse tormento. Hoje, exatamente hoje, completam trinta dias que estou sem beber nada dessa coisa vergonhosa que vocês põem na boca.

Célio Justinho não acreditando no que ouvia, tratou logo de menosprezar o parceiro de copo, que já tentara deixar o hábito, muitas e muitas vezes sem, no entanto obter sucesso.

- Conversa fiada. Parar de beber é para os fracos. Macho que é macho não tem medo de alucinação.

- Mas já estava mesmo na hora de você parar seu Grogue. - sentenciou Billy Rubina. - Ninguém aguentava mais as suas trapalhadas.

- Isso sem falar nos prejuízos para a família toda, da aposentadoria compulsória, dos desentendimentos com os filhos e a mulher, que de vez em sempre, levavam umas porradas. - Completou Zé Cílio Demorais.

- Imagine você que esse retardado, no estado em que estava, num dia, apareceu por aqui reclamando das dores nos joanetes. - relatou Pery Kitto - Ele disse que sentia muito incômodo e que por causa disso tinha até que usar uma bengala pra andar. Mas quando olhei pros pés dele vi que a besta estava com o sapato do pé direito no esquerdo e o do esquerdo no direito.

Diante da gargalhada que irrompeu no grupo, Pery Kitto arrematou:

- E já fazia uns 15 dias que ele andava assim. O "mental" tinha acabado de comprar os sapatos e gostou tanto deles que não tirava nem pra dormir.

Sentindo-se muito envergonhado Van Grogue tentou frear a gozação dizendo num tom sério, grave, que remetia a muita responsabilidade e importância.

- É minha gente... Eu parei mesmo com isso tudo. Não quero mais saber dessa vida. Queiram vocês saber que uma decisão dessas, igual a minha só é possível para poucos e bons.

Outra onda de gargalhada explodiu fazendo com que Maçarico se preocupasse com as possíveis queixas dos vizinhos que já davam sinais de mobilização, contra as 'gandaias' frequentes no boteco.

Van preparava-se para sair quando entrou a professora Dina Mitt. Ela trazia dois sacos de estopa que colocou cuidadosamente no chão logo depois que pediu uma cerveja.

- E aí Dina? Tudo certinho? - perguntou Donizete Pimenta. Vai tomar aquela cerveja esperta?

- Ninguém é de ferro, né meu filho? - respondeu a mestra, ajeitando com cuidado, os sacos que estavam no chão.

- Você já sabe da novidade? - indagou Pery Kitto.

- Que novidade? - Quis saber a mulher que recebia a garrafa de cerveja servida por Maçarico.

- O Van Grogue parou de beber.

- Verdade Van? - Perguntou Dina Mitt espantadíssima.

- Exatamente. Hoje faz 30 dias que parei com a esbórnia.

- Muito bem seu Van, mas eu só acredito vendo. Para ter a certeza de que você não pertence mais a essa nossa turma quero que passe uma semana comigo lá no meu rancho. Nós vamos pescar andar a cavalo e nos divertir muito. Estou saindo daqui a pouco. - desafiou Dina. - Topa?

Diante do pessoal todo que, em silêncio, o olhava, aguardando uma resposta, Van respondeu:

- Ah, vamos sim. Por que não?

Logo depois que Dina Mitt terminou de beber a cerveja, pagou a conta e, pegando os dois sacos com muito cuidado, pediu ao Grogue que a acompanhasse até o carro.

- O que é que tem nesses sacos dona Dina? - quis saber o Zé Cílio.

- Nesse aqui tem um garrafão de pinga. - garantiu a mulher levantando, com cuidado, um dos sacos.

- Mas pra quê? - indagou ingenuamente o Pery Kitto.

- É que lá tem muita cobra. E no caso de picada a gente cura com pinga. Você entende? - respondeu a mestra.

- Ah, bom. - Disse em uníssono o pessoal, já preocupado com o Van.

- Mas e no outro saco? O que é que tem? - inquiriu curiosíssimo o Donizete Pimenta.

- É uma cobra. Vai que a gente chegue lá e não tenha nenhuma, não é verdade?

Boquiabertos os amigos viram o Grogue entrar na velha Rural Willis da professora que, sem vacilar, pisou fundo no acelerador.

 

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publicado às 15:30

Emanações Pútridas

por Fernando Zocca, em 07.10.11

 

 

            Tupinambicas das Linhas não era uma cidade agradável. Essa conclusão antiga baseava-se no fato de que a maioria das edificações civis foi construída sobre pântanos.

             As emanações gasosas pútridas foram observadas pelos primeiros colonizadores, mas insuficientemente desagradáveis para os convencerem de que o lado do rio, onde ergueram as primeiras construções, não era o mais saudável.

             Os gases fétidos, resultados da podridão fermentada no subsolo, emergiam a todo o momento, tornando insalubres alguns locais específicos da urbe. Esse desconforto era intensificado quando não havia ventos e o calor tornava-se desprazível.

             Jarbas o prefeito caquético e testudo, fora comunicado, há muito, sobre a existência dessa malignidade, entretanto ele afirmava que não podia fazer praticamente nada a não ser instalar dutos que facilitassem a vazão das exalações. O assunto ocupava boa parte dos espaços na mídia e das conversas dos moradores dos locais mais prejudicados.

             Foi nesse clima que, naquela manhã de quarta-feira, Van de Oliveira Grogue adentrou o bar do Maçarico cantarolando:

             - Litrão ê, ô... Litrão ê, ô...

             Maçarico lia o Diário de Tupinambicas, que aberto sobre o balcão, noticiava uma blitz dos agentes da polícia, na prefeitura.

             - Minha pinga! – exclamou Van de Oliveira notando o desprazer que provocava no Maçarico ao interromper sua leitura.

             - Você viu o que descobriram na prefeitura? – perguntou o dono do boteco, enquanto enchia rapidamente o copo do cliente.

             - Sempre tem maracutaia nova. Qual foi dessa vez? - questionou Van, depois de emborcar a “branquinha”.

             - Prenderam um grupo de funcionários que simplesmente apagava dos computadores da Dívida Ativa, os débitos dos devedores de impostos que se propusessem a pagar 30% dos valores. E parece que o Jarbas sabia de tudo. Diziam que ele recebia alguma comissão.

             - Eu ouvi essa notícia pelo rádio, no começo da madrugada. Levaram os computadores, e cinco suspeitos. – confirmou Van de Oliveira.

             - Descobriram que o esquema de sumiço dos dados era feito há muito tempo. Desviaram milhões e milhões de reais da prefeitura. O prejuízo é bem grande. – completou Maçarico.

             - Isso explica o carro novo que o Mariel Pentelini Demorais comprou de uma hora pra outra. – concluiu Van de Oliveira.

             Atendendo a um gesto do bebedor, Maçarico abriu uma cerveja postando-a sobre o balcão. 

              – O cara não tinha nada, mas depois que passou a trabalhar na prefeitura, deixou o bigode crescer e comprou até apartamento no centro da cidade. – continuou Grogue.

             - O Mariel Pentelini não é aquele mocorongo entrevado que tinha uma serralheria, falida logo depois da morte do pai dele? – quis saber o Maçarico.

             - É esse mesmo. Eu o conheço desde criança. Na casa em que os pais dele moravam havia um limoeiro, uma pitangueira, um orquidário feito com bambus e, bem defronte a porta da cozinha, um gramado pequeno. Naquela casa, antes dos pais do Mariel mudarem pra lá, funcionou uma lavanderia. Isso explicava a existência de quatro tanques enormes num dos lados da morada. Perto dos tanques tinha um aposento com uma janela pequena e a porta bem rústica. Ali o pai do Mariel depositava pneus usados e até material de campanha política.

             - Não era naquela casa que funcionou um asilo de insensatos? – indagou o dono do boteco.

             - Isso eu não sei. Mas naquele tempo na sala havia cristaleira, mesa e cadeiras no estilo colonial, quadros nas paredes e o ambiente todo era bem agradável.

             - Que eu saiba esse Mariel Pentelini vive de bar em bar curtindo as “canas” que entorna e cofiando o bigode branco. Ele não estava aposentado? – inquiriu Maçarico.

             - Nada. Juntou-se com a “virgem dos lábios de mel” da Vila Dependência e toca o trole até hoje. – garantiu Van de Oliveira.

             - Fazer o que, não é? Temos de ter paciência, muita paciência. – garantiu Maçarico.

             Dando-se por satisfeito e finalizando o encontro, Van de Oliveira perorou:

             - Por falar nisso, Maça, anota pra mim essa continha, que logo no fim do mês eu passo pra acertar. Tudo bem?


06/10/2011 

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publicado às 15:49

O Kadaffi Tupinambiquense

por Fernando Zocca, em 29.08.11

 

 

             Tupinambicas das Linhas não era a Líbia, mas também tinha o seu Muammar Kadaffi. Era o vereador Fuinho Bigodudo, conhecido como Muar Fuinho Bigodudo.

             Da mesma forma que o ditador líbio insistia em não deixar o poder, mantido com injustiças e violência, o Muar Tupinambiquense também se negava a “largar o osso”, mantido com verbas substanciosas, aos comunicadores dependentes da cidade.

             Mas na manhã de domingo, no bar do Maçarico, quando já degustava a cerveja gelada, com a barriga encostada no balcão, Gelino Embrulhano pôde notar a presença espalhafatosa do Omar Dadde que vestindo bombacha, chapéu de abas largas, bota de cano longo, camisa azul pavão e um lenço de cetim amarelo, amarrado no pescoço, entrou em cena declarando:

             - Eu vou/Eu vou/Pra casa agora eu vou... – Dadde mal terminou sua mensagem matinal quando foi interrompido por Gelino Embrulhano, que falou ao Maçarico, em alto e bom som:

             - Pronto! Acabou o sossego! O chato acaba de chegar.

             - Mas, olha... Veja quem está aqui. É o sujeito mais mentiroso, enrolado e falso que a cidade já viu. – respondeu Omar Dadde, olhando irônico para o Maçarico.

             E depois ainda, aproveitando o silêncio que se fez, por alguns segundos no botequim, Dadde continuou:

             - Que mané chato, mano? Parece que não me conhece.

             Gelino Embrulhano respondendo a pergunta defendeu-se:

             - Onde eu estou você logo vem atrás. Parece boiolagem, tesão de argola; qual é a tua parceiro?

             - O quê? Tesão de argola? Ocê tá louco Embrulhano? Eu sou é muito macho, meu chapa – indignou-se Omar Dadde. A cidade é livre, eu também sou. Por isso vou onde quero.

             - A cidade pode ser livre e seus habitantes também – interviu Maçarico interrompendo a conversa entre os dois fregueses. Ele julgou que a rixa poderia descambar para a agressão física e o quebra-quebra.

             - Ouvi um comentário que esse tal vereador Fuinho Bigodudo fez uma lei que proíbe o funcionamento de todos os bares e restaurantes da cidade, depois das 10 horas da noite. Ele instituiu o famoso toque de recolher.

             - O quê? Ele fez isso? – perguntaram em uníssono os dois contendores.

             - Fez sim. E se não me engano, o projeto de lei está no gabinete do prefeito Jarbas, pra ser aprovado – completou Maçarico, vendo que os birrentos esqueceram as hostilidades por alguns instantes.

             - Isso quer dizer que ninguém mais poderá tomar seus birinaites nos bares, depois das dez horas da noite? – questionou Embrulhano.

             - Mas isso é um absurdo! Vamos iniciar um abaixo assinado pedindo a cassação disse Fuinho. Ô Sujeito maldoso! Votar nele é a mesma coisa que adubar erva daninha – proclamou Omar Dadde brindando com um copo de cerveja que acabara de encher.

             - Vamos depor esse Kadaffi tupinambiquense! – decretou Gelino Embrulhano.

             A partir daquele momento Maçarico teve a certeza de que o bar e a sua própria integridade física, estariam assegurados. 

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publicado às 14:18

Usando a Tecnologia

por Fernando Zocca, em 09.08.11

 

 

                     - Olha, o que eu sei é que esse Van Grogue é meio louco, não dá pra confiar nele. – disse com firmeza o Pery Kitto jogando no chão um pouco de pinga, daquele seu segundo copo de cana, naquela manhã de sábado no bar do Maçarico.

                    Ernesto Mail que já bebericava a cerveja geladíssima, aproveitando a onda maledicente que se iniciava emendou:

                    - O cara corria atrás do pai armado com faca. Você quer o quê? As bocas de Matilde comentavam que quando esse demônio era criança xingava a mãe, porque lá na escola diziam que ele tinha a cabeça grande e era muito feio.

                    Maçarico ao perceber que a ventania iniciara, tirou do ombro o guardanapo branco e, alisando o balcão, na periferia do local onde os bebedores depositavam os copos, pigarreou ligando em seguida o rádio.

                    - Mas você não pode acreditar: no dia em que o E.C. 7,5 de Novembro ia jogar a partida do título, nós os mantenedores dessa honrosa instituição tupinambiquense, o famoso bar do Maçarico, combinamos uma caravana de torcedores do bairro que rumaria a pé, num bloco compacto, para o estádio.   Pois não é que essa figura energúmena, conhecida como Van Grogue ia na frente, sozinho, enquanto que todo mundo seguia atrás? – martelou Zécílio Demorais o proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas.

                    - Não, mas ele queria dar uma de gostoso, de importante. Só porque foi jogador de futebol, achava que podia ir mais depressa que os outros. E olha que queria até indicar as ruas, o trajeto. – concluiu Pery Kitto.

                    - Não sei o que esse cara tem na cabeça. Ao invés de arrumar um emprego, trabalhar como todo mundo faz, fica nessa de induzir o povo contra o Jarbas. Por que não vai assentar tijolo, bater aquela massa esperta, levantar parede? – inquiriu indignado o E. Mail.

                    - O cara é muito folgado. Vai ocupando espaço que não é dele. Não se toca, não sabe que não é bem aceito. Não sei porque não se manda logo. – questionou Zécílio Demorais.

                    - Com isso que ele fazia, era como se dissesse que todo mundo aqui na cidade era burro, que ninguém era capaz de nada. Mas ora veja! – afirmou Pery Kitto, já atordoado.

                    - Eu não sei jogar bola. Mas não aprendi porque precisava trabalhar. Tinha que cortar cana quando era criança. Não é bem assim do jeito que esse cara pensa não. – arrematou Zécílio Demorais ingerindo o último gole de cerveja.

                    - Maçarico do inferno! Manda outra geladíssima pra gente ai, mano! – solicitou já um tanto quanto que embriagado o Pery Kitto.

                    Para o espanto geral, o dono do boteco respondeu, depois de vasculhar, com o olhar de gavião, o interior do balcão refrigerado:

                    - Má notícia moçada! Acabou a alegria. Findou a cerveja.  Ontem a noite programei um telefonema, que faria hoje cedo, para o depósito pedindo outra remessa, mas esqueci. Não sei por que motivo não liguei, pedindo mais mercadoria. – justificou Maçarico.

                    A decepção baixou sobre os bebedores como a chuva gelada, repentina, desaba sobre os transeuntes desavisados.

                      Eles mal tiveram tempo pra deixar escapar um oh, em uníssono, das bocarras boquiabertas, quando entrou com um notebook, debaixo do braço esquerdo, o odiado Van Grogue. 

                    - Mas o que é que você está esperando Maçarico, liga agora pra distribuidora. A gente esperamos. – pediu com carinho o E. Mail.

                    Rendendo-se aos clamores, e temendo perder a freguesia, Maçarico tentou ligar para a empresa fornecedora, mas depois de alguns segundos ele estancou.

                    - E aí? Vai ou não vai? – perguntou com ansiedade o Zécílio Demorais.

                      - De que jeito? Estamos sem telefone. Está mudo.

                    - Como assim? Você deixou acabar o estoque de cerveja justamente no sábado, véspera do primeiro jogo do E.C. 7,5 de Novembro, na primeira divisão? Mas você enlouqueceu Maçarico? Temos que interná-lo na casa transitória com a máxima urgência. Isso é questão de saúde pública. – sentenciou o iradíssimo Pery Kitto.

                    - E ainda por cima sem telefone. Mas é o fim do mundo! É mesmo o final dos tempos. Não dá pra acreditar. Gente! Que absurdo! – indignou-se E. Mail.

                    - Mas que raio de comerciante é você, Maçarico? – quis saber, com os olhos esbugalhados, o Zécilio.

                    - E agora? Vamos ficar assim perdidos, nesse arrabalde, sem cerveja? Não dá pra acreditar nisso. – rebelou-se E. Mail.

                    Observando tudo o que se passava Van de Oliveira Grogue, desconsiderando a reação de frieza, que sua presença causara, quando entrara no recinto disse:

                    - Com licença. Por que vocês não mandam um e-mail para a empresa, solicitando via internet, o pedido?

                    Maçarico, Zécilio Demorais, Pery Kitto e Ernesto Mail paralisaram-se boquiabertos. Ao se entreolharem eles ouviram o que dizia o Grogue:

                    - Olha, eu tenho o notebook e sei como funciona; posso enviar a mensagem. Inclusive para o mundo todo. Vocês querem?

                    Depois de alguns minutos angustiosos, o caminhão do depósito de bebidas encostou defronte o bar, descarregando duas vintenas de caixas de cerveja.

                    - Esse Van Grogue é gente fina. Eu sempre acreditei nisso. – concluiu Zécilio, agora rodeado pelos companheiros que brindavam os bons momentos, com a saborosa alegria recém-chegada.

Texto revisado.

09/08/11

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publicado às 19:25

Relações Perigosas

por Fernando Zocca, em 04.07.11


 

                    Se num casamento, a maior parte do tempo é vivida entre desentendimentos, ofensas, e agressões, não haveria motivos melhores para a continuação da sociedade.

                   Quando a violência prepondera sobre o respeito, então é chegada hora de cada um buscar o seu rumo próprio.

                    A não ser que haja um milagre legítimo, um ex-assaltante de banco, mestre em explosivos, jamais deixará de agir com rudeza, com a mulher que o ama.

                    Isso foi constatado por Humberto quando, numa tarde de sábado, tomado pela curiosidade, entrou pela primeira vez na livraria do shopping.

                    Tudo ali era novidade; os caminhos desconhecidos, as pessoas estranhas e os odores bastante peculiares.

                    Era princípio de inverno; a baixa temperatura fizera com que o visitante caprichasse no agasalho que denotava bom gosto.

                    Humberto foi atendido pela balconista e um clima de simpatia logo os envolveu. Com perguntas sobre os livros que desejava adquirir, o moço se esgueirou entre as estantes, chegando enfim ao local desejado.

                    Observando as preciosidades ordenadas nos lugares higienizados, Humberto notou que a mulher atendente, o olhava de soslaio, com um jeito bem disfarçado.

                    Não demorou muito para que o moço, com alguns livros nas mãos, buscasse pela comerciante, que agora, atrás da caixa registradora, somaria os valores da compra.

                    Humberto saiu do lugar com boas sensações. Elas foram tão marcantes que, nas semanas seguintes ele voltaria mais vezes, sempre no mesmo horário.

                    Os vizinhos logo perceberam a constância das visitas e as perigosas “bocas de Matilde”, principiaram murmúrios indicativos de que algo singular estaria pronto para acontecer.

                    Dois o três meses depois, com uma centena ou mais de livros comprados, Humberto e Inês perceberam que nascia entre eles muito mais do que a simples simpatia, respeito e admiração.

                     Havia algo mais maduro, profundo, intenso, que estava na iminência de extravasar.

                    Numa tarde de domingo, entre as estantes, quando ele folheava um livro sobre obstetrícia, ela se aproximou lentamente pelas costas e, ofegante, o tocou de leve com o antebraço esquerdo.

                    Face a face, olhos nos olhos eles agora conversavam, e Humberto pôde saber que o marido dela a espancava cruelmente todos os dias.

                    Havia no rosto de Inês uma mistura de dor, medo e excitação.

                     Ela, apesar de tensa, não escondia a lascívia que Humberto lhe provocava.

                    E foi ali, entre as estantes, perto de uma janela, que eles trocaram o primeiro beijo.

                    A beleza que dava o viço dos trinta anos à Inês fascinava Humberto, totalmente abobalhado pela paixão.

                    Essa loucura os impedia de ver que o marido ex-presidiário, condenado a mais de quinze anos de cadeia, por assalto à mão armada, poderia descobrir tudo e causar uma tragédia.

                    Arrebatados pela paixão eles se viram pela última vez no apartamento dele, onde dentre os lençóis macios de cetim, fizeram amor.

 

Mudando de assunto:

Você conhece Silas Simplesmente?

 

 

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publicado às 21:12

O Kadaffi Tupinambiquense

por Fernando Zocca, em 03.03.11

 

                                                Tupinambicas das Linhas, não era a Líbia, mas também tinha o seu Muammar Kadaffi. Era o vereador Fuinho Bigodudo, conhecido como Muar Fuinho Bigodudo.

 

                        Da mesma forma que o ditador Líbio insistia em não deixar o poder, mantido com injustiças e violência, o Muar tupinambiquense também se negava a “largar o osso”, mantido com verbas substanciosas, aos comunicadores dependentes da cidade.

 

                        Mas na manhã de domingo, no bar do Maçarico, quando já degustava a cerveja gelada, com a barriga encostada no balcão, Gelino Embrulhano pôde notar a presença espalhafatosa do Omar Dadde que, vestindo bombacha, chapéu de abas largas, botas de cano longo, camisa azul-pavão e um lenço de cetim amarelo, amarrado no pescoço, entrou em cena declamando:

 

                        - Eu vou/Eu vou/Pra casa agora eu vou... – Dadde mal terminou sua mensagem matinal quando foi interrompido por Gelino Embrulhando, que falou ao Maçarico, em alto e bom som:

 

                        - Pronto! Acabou o sossego! O chato acaba de chegar.

 

                         - Mas, olha... Veja quem está aqui. É o sujeito mais mentiroso, enrolado e falso que a cidade já viu – respondeu Osmar Dadde, olhando irônico pro Maçarico.

 

                        E depois ainda, aproveitando o silêncio que se fez, por alguns segundos no botequim, Dadde continuou:

 

                       - Que mané chato, mano?  Parece que não me conhece.

 

                        Gelino Embrulhando respondendo a pergunta defendeu-se:

 

                        - Onde eu estou você logo vem atrás. Parece boiolagem, tesão de argola, qual é a tua, parceiro?

 

                        - O quê? Tesão de argola? Ocê tá louco Embrulhano? Eu sou é muito macho, meu chapa – indignou-se Osmar Dadde. - A cidade é livre, eu também sou. Por isso vou onde quero.

 

                        - A cidade pode ser livre e seus habitantes também – interveio Maçarico interrompendo a conversa entre os dois fregueses. Ele julgou que a rixa poderia descambar para a agressão física e o quebra-quebra.

  

                        - Ouvi um comentário que esse tal vereador Fuinho Bigodudo fez uma lei que proíbe o funcionamento de todos os bares e restaurantes da cidade, depois das 10 da noite. Ele instituiu o famoso toque de recolher.

 

                        - O quê? Ele fez isso? – perguntaram em uníssono os dois contendores.

 

                        - Fez sim. E se não me engano, o projeto de lei está no gabinete do prefeito Jarbas, pra ser aprovado – completou Maçarico, vendo que os birrentos esqueceram as hostilidades por alguns instantes.

 

                        - Isso quer dizer que ninguém mais poderá tomar seus birinaites nos bares, depois das dez horas da noite? – questionou Embrulhano.

 

                        - Mas isso é um absurdo! Vamos iniciar um abaixo assinado pedindo a cassação desse Fuinho. Ô sujeito maldoso! Votar nele é a mesma coisa que adubar erva daninha – proclamou Osmar Dadde brindando com um copo de cerveja que acabara de encher.

 

                        - Vamos depor esse Kadaffi tupinambiquense! – decretou Gelino Embrulhano.

 

                        A partir daquele momento, Maçarico teve a certeza de que o bar e a sua própria integridade física, estariam assegurados.

 

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publicado às 13:12


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