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Condomínio irregular

por Fernando Zocca, em 18.08.09

 

                        Naquele tempo, quando ainda afirmávamos ser felizes, nos encontrávamos com freqüência assim, por acaso, na praia. Era um hábito arraigado nosso que nos proporcionava bem-estares  intensos.
                        Numa quinta-feira pela manhã, durante o inverno que amenizava e percebíamos a primavera que já se avizinhava, nos reunimos ali no local de costume. O sol não estava tão abrasador e  passava das nove da manhã.
                        Diferente do que acontecia amiúde, com alguns velhos amigos, que chegavam juntos, nós ao contrario, chegávamos separados e nos juntávamos ali, envoltos pela maresia prazerosa.
                         Quando pisei na areia notei que havia pouca gente ao redor. Então caminhei até perto da arrebentação onde estendi minha canga. Despi-me da camiseta e do short sentando-me em seguida. Abri a bolsa tirei o protetor solar e espalhei-o pelos braços colo, rosto e pernas.
                        Ao colocar os óculos de sol percebi a Nandinha que chegava. Ela arfava e ao ingressar na areia sentiu certo desconforto. Apesar do sobrepeso Nanda mostrava uma garra tremenda pra driblar todos os obstáculos que lhe impediam o bem viver.
                         Quando parou junto a mim ela disse:
                        - Hum... Já cedo assim, colega? Que chique!
                        Poderíamos afirmar que Nandinha não tivera lá uma infância assim tão tranqüila. Eu sabia parte da sua história e lhes asseguraria  que seus pais passaram por momentos dificílimos durante alguns governos digamos, “linha dura”.
                        - E ai, chegou bem, na paz? – perguntei-lhe indicando o local ao meu lado, onde poderia estender sua canga.
                        Nandinha então se despiu mostrando o corpo forte. Ela com certeza teria reservas calóricas por muito tempo, sem que precisasse ingerir uma laranja que fosse.
                        Minha amiga sentou-se e depois de passar sobre a pele o protetor solar atendeu um telefonema. Eu lhe dissera que não se preocupasse com mais nada que não estivesse sob sua visão naquele momento.
                        Nandinha se lamentou:
                        - Nita eu não te falei que pegou fogo no apartamento da minha vizinha? – ao falar ela olhava-me sobre os óculos escuros que pusera para proteger-se.
                        Respondi-lhe que soube do incêndio ali no centro da cidade. Que tinha sido um corre-corre dos infernos e que os bombeiros demoraram muito pra chegar.
                        - É verdade que os donos do imóvel precisaram ser retirados de rapel? – perguntei.
                        - Nita, que desespero! Aquela fumaça que vinha assim sabe?  Angustiava a gente, que horror. E imagine que naquele momento eu só lembrava do pernil que tinha sobrado da janta. Eu queria correr pra geladeira e pegar o pernil. É na aflição que eu penso em comer, mas pode uma coisa dessas?
                        - Ai amiga, se você estivesse lá No Limite, você se daria bem. – arrisquei brincar com ela.
                        - Por que neném? – ela me olhou com um semblante de censura.
                        - Porque lá a comida é limitada. Enquanto os magricelas passariam por perrengues terríveis você não ficaria muito frágil.
                         - Ai, não sei, amiga. Preciso me livrar dessas calorias que me fazem mal. Não farão falta, entende?
                        Enquanto conversávamos César Ronha, o famoso Cezinha da Rebimboca aproximou-se. Ele cumprimentou-nos com aquele seu sorriso maroto e parando diante de nós, percebeu que Nandinha não se alegrou muito com a sua chegada.
                        - E ai, moçada, tudo bem? – perguntou César estendendo sua canga e sentando-se.
                        Nandinha respondeu com mau humor, demonstrando mais uma vez o seu desagrado. César então continuou:
                        - Vocês souberam que fui eleito síndico do meu prédio?
                        - A gente sabia que você morava lá há muito tempo. – respondeu Nandinha.
                        - Pois é. Agora estão me acusando de ter contratado cinco faxineiras, dois eletricistas, e oito vigias que teriam parentesco comigo. Mas essa turma não tem mesmo mais o que fazer. Imagine só: inventaram que eu não contei pra ninguém que tinha admitido esse pessoal. Eles reclamam que pelo regimento do condomínio, eu deveria comunicar aos demais moradores as contratações. Mas eu acho isso um absurdo. Nada a ver. E por que os meus parentes não teriam a mesma competência que qualquer outra pessoa?
                        - Mas César, qual é o critério que você usou para admitir os funcionários? Todos não teriam as mesmas chances de serem contratados? - perguntei-lhe.
                         - Nada a ver. Sempre foi assim. O outro síndico também fazia do mesmo jeito. E antes dele também, sempre fizeram dessa forma. Estão procurando chifres na cabeça de cavalo, pêlos em ovo, entende? Tá o maior bafafá. Fizeram até um jornal no qual escrevem tudo o que querem. Imagine! Eu com minha história, com o meu tempo de síndico mereço isso? Mas tá certo uma coisa dessas? Ora, vê se pode: já tem até gaiato me zoando dizendo que pedirá ao prefeito uma lei de imprensa. Isto é, no mínimo, o fim da linha.
                         - Sabe de uma coisa? Eu acho que você deve renunciar. Pare com essa gandaia. Os moradores têm tantas taxas pra pagar, impostos e mil e uma coisinhas mais. Eles estão indignados com essa sua política. – Nanda foi incisiva.
                        Ronha não gostou do que ouviu e por isso, sem dizer mais nada, e não querendo criar outra inimizade, levantou-se indo embora. Nanda então continuou:
                        - Nita essa cara teve muitos problemas na infância. Você acredita que quando tinha uns seis anos ele entrou sem ser convidado, numa casa vizinha, onde três mulheres faziam, no fogão à lenha, uma goiabada num tacho de cobre? Quando as mulheres viram que era o filho do professor, resolveram aproveitar a sua presença. Pediram pra ele pegar algumas toras de lenha  e depois o mandaram mexer, com a colher de pau, o doce que estava quase pronto. Elas saíram do lugar deixando o menino trabalhando sozinho. Quando voltaram perceberam que o serviço estava terminado. Disseram a ele que a mãe o chamava. E o camarada foi embora sem experimentar o doce que ajudara a fazer. Isso deve ter deixado seqüelas na moringa do cara, não é possível!
                        - Como é que você sabe disso? – perguntei com interesse.
                        - A prima dele me contou. E tem mais: quando ele era mais crescido, foi de bicicleta, junto com outro iniciante de marginal, a um sítio na periferia e lá, com uma espingarda de pressão, acabaram com uma raposa que vivia no oco de uma árvore. Deram tiro de chumbinho no olho da pobrezinha, vê se pode amiga!
                        - Esse sujeito é terrível. – afirmei.
                        - E tem outra: quando ele estava já bem crescido e namorava uma lacraia do trecho, ao ouvir da moça que ele não passava de um louco fracote, deu-lhe uma dentada no pescoço que a coitada se arrepia até hoje só de lembrar.
                        - Nossa, mas esse é ruim mesmo. – concluí.
                        - É terrível.
                        E ficamos assim a conversar até o momento em que, vendo o breu da noite que se achegava, resolvemos ir embora pra casa, onde eu na minha, comeria a pizza com guaraná que me aguardavam e, Nandinha na sua, tomaria a sopinha da dieta que fazia.
 
 
 Carolina Lima.
 
 
 
Vende-se o apartamento 93 do 9º andar  no Edifício Araguaia. Contém sala em L, três quartos (uma suíte), quarto para empregada, lavanderia ampla e cozinha.  Tratar pelo fone 19 3371 5937. Piracicaba SP. Brasil.
 
 
 
 
 
 
           
   

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publicado às 18:14


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