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O Terno Novo

por Fernando Zocca, em 27.11.15

 

Jarbas o caquético testudo, quando prefeito de Tupinambicas das Linhas, afirmava que o vereador BCO (boquinha de chupar ovo), trabalhava mais na defesa dos interesses próprios do que na dos cidadãos que o elegeram.
Realmente, a mais recente estatistica publicada no combativo Diário de Tubinambicas das Linhas, informava que em 99% dos projetos do BCO, a motivação girava em torno da liberação dos anseios populares pelas festividades desbragadas.
Desta forma BCO (boquinha de chupar ovo) dedicava seu tempo mais às manobras que visavam - por exemplo - a derrubada das leis proibitivas dos ruídos depois das 22 horas, do que questionar os aumentos abusivos nas contas de água.
O caquético testudo, depois do expediente, numa reunião informal, no bar A Tijolada, em ato contínuo duma dose dupla de tequila, afirmou em alto e bom som, para todos os presentes ouvissem:
- BCO trabalha num projeto que pune com multa pesadíssima o cidadão que não deixa seu cachorro latir durante as madrugadas.
Billy Rubina que também estava no botequim, naquela noite, respondeu:
- Esse edil contratou um escritório de contabilidade só pra requerer a patente do churrasco de carne moída que ele inventou.
Durante o burburinho causado por essa declaração destacou-se a afirmativa de que "para fazer o que o Boquinha de Chupar Ovo faz, qualquer um faria, sem no entanto onerar os cofres públicos do jeito que ele onera".
BCO gostava de se vestir bem, com muito esmero. Numa reunião ordinária, da tal casa legislativa, ele apareceu trajando um vistoso terno listrado.
Sentado à sua mesa, no plenário, Fuínho Bigodudo, que já exercia o sétimo mandato, cochichou ao colega do lado:
- A lá... Tá vendo o terno novo? Depois da sessão vai direto pra casa da amante. Ele me disse que apesar do namoro parecer uma luta infindável de boxe, aqueles momentos com ela são impagáveis. O Zécílio Demorais sempre comentou que o BCO não é marceneiro, mas que também gosta de pegar no batente. Você acredita?
O Boquinha de Chupar Ovo achava que a função de vereador era a mais fácil forma de ganhar dinheiro, de vencer na vida, sem fazer força nenhuma.
Ele gostava de capoeira mas não sabia nem o que era um berimbau.
O deputado Tendes Trame considerava o BCO um tremendo trambiqueiro mentiroso, mas não podia fazer nada que o impedisse de concorrer às eleições.
Em busca da comiseração popular, da compaixão do povo, durante os momentos da vigência daquela certeza de que suas mentiras não surtiam mais o efeito, na manutenção da sua credibilidade no eleitorado, BCO simulou uma cirurgia cardíaca em que supostamente teria sofrido paradas cardíacas.
Parece que o engodo, divulgado a preço de ouro, nos jornais, rádios e TVs da cidade, causou o efeito desejado: o aporte de gente solicitando informações sobre seu estado de saúde encorajou-o a continuar com as patranhas.
Foi quando então a aquisição do terno novo listrado marcou o início da retomada do seu desejo de lutar por mais uma reeleição.

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publicado às 11:08

Rose, a gueixa de coturnos

por Fernando Zocca, em 11.06.14

 

 

 

- Mas... E aquele voo de ontem a noite? Me conta, como foi? - indagava Dina Mitt ao atordoado Silly Kone.

- Eu já disse. Foi rápido, mas foi bom.

- Entre a decolagem e o pouso demorou quanto? Tipo 10 minutos?

- Imagina! Nem isso. Foi assim vupt.

- Mas e o preço da passagem? - indagava a curiosa Dina.

- Olha... Não é barato, não. Foi Caro, muito caro.

- Valeu a pena? Quis saber Dina.

- Você sabe... Quem não tem seus momentos de fraqueza?

- De otário, você quis dizer... - abusou a mulher.

- É... De otário. Fazer o quê?

- O pessoal anda comentando que até o Jarbas fez a viagem - arriscou Dina.

- Segundo o comentário lá no aeroporto, era o próprio prefeito que pagava os salários do pessoal de bordo. Sabe aquelas arrumações antigas quando o pai, um tio ou um outro parente qualquer, amigo do dono da empresa, combinava com ele a oferta de vaga de trabalho pro protegido, pagando todos os encargos?

- Sei. O dono do negócio tinha só que aguentar a figura por um determinado tempo lá no empreendimento - entendeu a Dina.

- Então... Por ter o Jarbas perdido a reeleição, não pode mais financiar o projeto. Então houve a dispensa. Mas o Tendes Trame se incumbiu dele mesmo arcar com todas as despesas trabalhistas desde que houvesse a continuação dos serviços de gueixa.

- Mas me conta mais. E os trabalhos de bordo? - Dina estava curiosíssima.

- Olha tem muita maquiagem, luzes coloridas, música ambiente, incensos indianos e uma certa ingenuidade - contou Silly.

- E bebida, rola? 

- Você acredita que não? - disse o aventureiro - Mas uma coisa me chamou muito a atenção. Sabe coturnos? Há certa fixação por esse tipo de bota.

- Será que é fetiche? - Dina estava interessada.

- Sei lá pode até ser pé chato. Sabe bota ortopédica?

 

A bordo do carro oficial do poder legislativo, Tendes Trame, a caminho de Tupinambicas das Linhas, vindo de S. Tupinambos falava ao telefone.

- E aí, amansaram a fera? Como assim? Ele apareceu? Foi lá falar com a aeromoça? Não? Você sabe né Fuinho que neste caso, teremos mesmo problemas nas reeleições. O Jarbas já caiu fora. Você e o Zé Lagartto podem preparar a aposentadoria. Não existe competência nossa nem em divertir os descontentes. Assim, meu amigo, assim não dá, assim, não pode.

Ao desligar o celular Tendes Trame percebeu que estava no meio de um engarrafamento quilométrico e que perderia muito tempo parado.

 

No bar do Bafão Dina Mitt e Silly Kone prosseguiam a conversa.

- Eu saí de lá era bem tarde da noite. Não dormi nada. Muita tensão. Na portaria o zelador me chamou de rato pelas costas. Eu nem liguei. Vou fazer o quê? - choramingava Silly Kone.

- Mas você é um banana mesmo. Onde já se viu gastar uma fortuna daquelas em troca de melar a cara com maquiagem. Você é uma besta mesmo - sentenciou a Dina.

- Ih, por falar em besta, lá vem o Van Grogue.

Van de Oliveira entrou no boteco e foi logo pedindo uma cerveja.

- Mas, olha me dá daquelas que não têm a tampinha enferrujada, por favor, viu seu Bafão?

Indo à mesa onde estavam os colegas Van acomodou-se e foi logo dizendo:

- Vocês sabiam que o Jarbas está com AIDS? 

- Hã? Como assim? - quis saber a Dina.

- É verdade. O comentário na rádio e no Diário de Tupinambicas das Linhas é que o ex-prefeito andava com uma sirigaita lá em S. Tupinambos, quando era prefeito e ela estava doente.

Dina Mitt olhando com expressão de compaixão para o Silly Kone disse suspirando.

- É meu amigo, parece que além de gastar o dinheiro, num voo ruim, você vai ter muitos outros problemas com que se preocupar, por muitos e muitos anos.

 

 

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publicado às 23:08

O Kadaffi Tupinambiquense

por Fernando Zocca, em 29.08.11

 

 

             Tupinambicas das Linhas não era a Líbia, mas também tinha o seu Muammar Kadaffi. Era o vereador Fuinho Bigodudo, conhecido como Muar Fuinho Bigodudo.

             Da mesma forma que o ditador líbio insistia em não deixar o poder, mantido com injustiças e violência, o Muar Tupinambiquense também se negava a “largar o osso”, mantido com verbas substanciosas, aos comunicadores dependentes da cidade.

             Mas na manhã de domingo, no bar do Maçarico, quando já degustava a cerveja gelada, com a barriga encostada no balcão, Gelino Embrulhano pôde notar a presença espalhafatosa do Omar Dadde que vestindo bombacha, chapéu de abas largas, bota de cano longo, camisa azul pavão e um lenço de cetim amarelo, amarrado no pescoço, entrou em cena declarando:

             - Eu vou/Eu vou/Pra casa agora eu vou... – Dadde mal terminou sua mensagem matinal quando foi interrompido por Gelino Embrulhano, que falou ao Maçarico, em alto e bom som:

             - Pronto! Acabou o sossego! O chato acaba de chegar.

             - Mas, olha... Veja quem está aqui. É o sujeito mais mentiroso, enrolado e falso que a cidade já viu. – respondeu Omar Dadde, olhando irônico para o Maçarico.

             E depois ainda, aproveitando o silêncio que se fez, por alguns segundos no botequim, Dadde continuou:

             - Que mané chato, mano? Parece que não me conhece.

             Gelino Embrulhano respondendo a pergunta defendeu-se:

             - Onde eu estou você logo vem atrás. Parece boiolagem, tesão de argola; qual é a tua parceiro?

             - O quê? Tesão de argola? Ocê tá louco Embrulhano? Eu sou é muito macho, meu chapa – indignou-se Omar Dadde. A cidade é livre, eu também sou. Por isso vou onde quero.

             - A cidade pode ser livre e seus habitantes também – interviu Maçarico interrompendo a conversa entre os dois fregueses. Ele julgou que a rixa poderia descambar para a agressão física e o quebra-quebra.

             - Ouvi um comentário que esse tal vereador Fuinho Bigodudo fez uma lei que proíbe o funcionamento de todos os bares e restaurantes da cidade, depois das 10 horas da noite. Ele instituiu o famoso toque de recolher.

             - O quê? Ele fez isso? – perguntaram em uníssono os dois contendores.

             - Fez sim. E se não me engano, o projeto de lei está no gabinete do prefeito Jarbas, pra ser aprovado – completou Maçarico, vendo que os birrentos esqueceram as hostilidades por alguns instantes.

             - Isso quer dizer que ninguém mais poderá tomar seus birinaites nos bares, depois das dez horas da noite? – questionou Embrulhano.

             - Mas isso é um absurdo! Vamos iniciar um abaixo assinado pedindo a cassação disse Fuinho. Ô Sujeito maldoso! Votar nele é a mesma coisa que adubar erva daninha – proclamou Omar Dadde brindando com um copo de cerveja que acabara de encher.

             - Vamos depor esse Kadaffi tupinambiquense! – decretou Gelino Embrulhano.

             A partir daquele momento Maçarico teve a certeza de que o bar e a sua própria integridade física, estariam assegurados. 

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publicado às 14:18

O Mau Senso

por Fernando Zocca, em 12.07.11

 

 

Claudinho Bambini, o veadinho branquelo que cismou poder espancar o Grogue numa quizila surgida na praia artificial Tupinambiquence disse, naquela tarde, para a turma toda reunida:

- Vê se tem cabimento uma coisa dessas: o sujeito vendeu o carro que tinha e depois se arrependeu, negando-se a entregar a coisa. Esse mau senso ultrapassou os limites negando-se a devolver o dinheiro que havia recebido, por dizer que o gastara.

A rapaziada que, acomodada debaixo dos guarda-sóis, bebericava cerveja e caipirinha, folgando sob o mormaço inclemente, quase não dava atenção ao Bambini, mas mesmo assim ele prosseguia:

- Esse tal Van Grogue pensa que é muita coisa. Pois todo mundo sabe que o ordinário, tem passagens pela polícia, tendo sido detido várias vezes, inclusive por tentativa de incêndio. Pegaram essa “carniça” querendo incendiar um boteco com um coquetel molotov.

Enquanto Claudinho completava sua comunicação, ingerindo uma talagada da engasga-gato, um avião monomotor, arrastando atrás de si uma faixa publicitária com os dizeres VAI QUE DEPOIS EU VOU, passou voando baixo.

Um dos que estavam ao redor do Bambini perguntou:

- É verdade que agora todas as portas do inferno se abrem para o escrofuloso? Vai pras cucuias esse Grogue maligno?

Quase ninguém prestou muita atenção no que dissera o sujeito, primeiro porque todos estavam “pra lá de Bagdá”, impermeáveis a qualquer impressão que lhes pudessem proporcionar os estímulos do ambiente. E segundo porque o Claudinho Bambini ligara o rádio a pilhas, que trouxera, em volume suficientemente alto que dificultava o entendimento das palavras dos confinantes.

- Ouvi dizer que Geraldinho Chuchu, do gabinete do Jarbas, está interessado no projeto daquele circo do prefeito. - afirmou Edgar D. Nal, acendendo um cigarro. - Dizem também que o prefeito vai contratar um engenheiro para construir barcaças que farão passeios turísticos pelo rio Tupinambicas. Será verdade?

Como a praia artificial feita por Jarbas, na margem esquerda do rio, ficava próxima ao prédio que abrigava a prefeitura, puderam os banhistas ver o alcaide quando este chegava naquela tarde, para o trabalho.

Bambini disse:

- Veja lá o homem das licitações. Ele vasculha tudo, remexe a papelada antiga, mas não se importa quando fazem o mesmo com ele. O mundo inteiro sabe que esse prefeito é brejeiro e que acoberta maganões. Ele usa a seita maligna do pavão-louco para conseguir seus objetivos. Mas já não está tão eficiente assim.

- Bambini, ô Bambini, vê se tem um pouco de cajibrina pra mim. Imagine só, com esse calor quem é que aguenta ficar sem tomar cerveja. - clamara, de repente, Mariel zonzo de tanta cana.

Mariel Pentelini que até aquele momento não se manifestara, mantendo um silêncio tumular, levantou-se e caminhando até a margem do rio, puxou de lá um cordel que tinha amarrado na ponta, um recipiente de tela metálica, dentro do qual havia dezenas de latas de cerveja.

- Não desperdice bebida assim. Nós vamos ficar até mais tarde. - esbravejou Aquino Pires, o funileiro que vendera a oficina depois que a polícia o flagrou adulterando vários chassis de carros furtados.

Van Grogue sabia que aquela turma vadia e ameaçadora só podia estar na praia àquela hora, por isso passou devagar com seu carro, observando de longe, o grupamento de desocupados.

- Não é à toa que a maioria desses panacas vive à custa das pensões do INSS. Bando de vagabundos. É o dia inteiro assim: passam o tempo bebendo e dizendo insanidades. Como é que pode um país progredir com gente desse tipo? Olha lá, tem até um caubóiola no meio da súcia.

Bambini e sua quadrilha também desejavam que Grogue sumisse da cidade. Quem mais se interessava por isso era Jarbas, o energúmeno, que deixaria de ter seu eleitorado exposto aos fatos contidos nos processos criminais, que apuravam os crimes por ele cometidos, e proclamados aos quatro ventos, pelo imbatível Van de Oliveira Grogue.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 19:51

As licitações Tupinambiquenses

por Fernando Zocca, em 22.06.11

 

 

                    O presidente da câmara municipal de Tupinambicas das Linhas o preclaro doutor Fuinho Bigodudo estava contentíssimo por ter o seu time de coração, o E.C. 7,5 de Novembro, sagrado-se campeão da várzea citadina.

                    Na verdade a conquista do campeonato servia como refrigério aos tormentos que as investigações de corrupção na prefeitura, causavam nos políticos da cidade.

                    Jarbas, o caquético testudo, Tendes Trame, tia Ambrosina, Zé Lagartto e o próprio Fuinho, temiam que as fraudes licitatórias, praticadas durante anos seguidos, fossem agora reveladas pela polícia.

                    - Já imaginou o escândalo? – indagou certa vez um pastor a um grupo de fiéis da congregação, reunidos defronte o templo, depois do culto.

                    Fuinho Bigodudo, que comemorava sua quarta gestão, tinha ainda algumas dívidas pendentes, feitas ao adquirir um apartamento, na área central da cidade.

                    Apesar dos seus oito filhos, e agora também alguns netos, estarem todos empregados nas repartições municipais e autárquicas, ele sonhava longe objetivando instalar, com muita segurança, a mulher que ele julgava ser a amante ideal.

                    Fuinho e seus colegas de partido não acreditavam que as penas da lei pudessem alcançá-los.

                    - Os alçapões da legalidade não nos atingirão. – disse o presidente Fuinho, numa reunião noturna no porão encarpetado da câmara municipal, em que Tendes Trame, bastante envelhecido pelo estresse que a fortuna ilícita lhe causava, esfregava as mãos como se as tivesse lavando.

                    - A gente vamos apagar da face da terra a memória desse Van Grogue, carniça do inferno, desolação dos mãos-grandes e alpinistas sociais legalizados, dessa nossa tão querida e amada terra.  – sentenciou Bigodudo dando um soco na mesa. A pancada fez saltar um exemplar da Bíblia, que esquecida entre alguns papéis, dormitava ali há algum tempo.

                    - Sem violência! Sem violência! – interrompeu o deputado Tendes Trame. - Não podemos nos exaltar. Já imaginou se há microfones escondidos aqui na sala?

                    - Só quero dizer que, passada essa turbulência toda, precisamos reajustar o percentual de 10 para 30% das taxas de comissão, a serem pagas pelas empreiteiras. – disse Jarbas aparentando calma.

                    - É isso mesmo! Pra ganhar licitação de agora em diante, aqui na cidade, a empresa tem de pagar 30% do valor do contrato a título de gratificação. – confirmou Fuinho.  

                    - Ai gente... Que exagero! Vocês não acham que é muito 30%? – questionou a tia Ambrosina com certa compaixão na voz.

                    - Nada! Que mané muito, o quê? Está até barato demais. - Reagiu Jarbas, o caquético.

                    - Bom, se todos nós nos safarmos ilesos dessas loucuras policiais, então, ai sim, poderemos voltar a agir sobre a nova margem de 30%. – garantiu Tendes Trame.

                    - Veja que esse aumento na percentagem deve garantir também a adesão do Diário de Tupinambicas das Linhas. Hoje em dia, todo mundo sabe que não existe governo que se mantenha sem a imprensa. – informou Jarbas.

                    - Mas mesmo assim considero o percentual de 30% muito exagerado. – insistiu a tia Ambrosina.

                    - Bom o que interessa é que tudo está calmo e não há indícios de que nossas contas foram devassadas. – falou Jarbas encerrando a reunião no porão da câmara municipal.

                    Era desse jeito que os ricos de Tupinambicas das Linhas tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres amargavam a miséria que não tinha fim.  

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publicado às 16:40

O Kadaffi Tupinambiquense

por Fernando Zocca, em 03.03.11

 

                                                Tupinambicas das Linhas, não era a Líbia, mas também tinha o seu Muammar Kadaffi. Era o vereador Fuinho Bigodudo, conhecido como Muar Fuinho Bigodudo.

 

                        Da mesma forma que o ditador Líbio insistia em não deixar o poder, mantido com injustiças e violência, o Muar tupinambiquense também se negava a “largar o osso”, mantido com verbas substanciosas, aos comunicadores dependentes da cidade.

 

                        Mas na manhã de domingo, no bar do Maçarico, quando já degustava a cerveja gelada, com a barriga encostada no balcão, Gelino Embrulhano pôde notar a presença espalhafatosa do Omar Dadde que, vestindo bombacha, chapéu de abas largas, botas de cano longo, camisa azul-pavão e um lenço de cetim amarelo, amarrado no pescoço, entrou em cena declamando:

 

                        - Eu vou/Eu vou/Pra casa agora eu vou... – Dadde mal terminou sua mensagem matinal quando foi interrompido por Gelino Embrulhando, que falou ao Maçarico, em alto e bom som:

 

                        - Pronto! Acabou o sossego! O chato acaba de chegar.

 

                         - Mas, olha... Veja quem está aqui. É o sujeito mais mentiroso, enrolado e falso que a cidade já viu – respondeu Osmar Dadde, olhando irônico pro Maçarico.

 

                        E depois ainda, aproveitando o silêncio que se fez, por alguns segundos no botequim, Dadde continuou:

 

                       - Que mané chato, mano?  Parece que não me conhece.

 

                        Gelino Embrulhando respondendo a pergunta defendeu-se:

 

                        - Onde eu estou você logo vem atrás. Parece boiolagem, tesão de argola, qual é a tua, parceiro?

 

                        - O quê? Tesão de argola? Ocê tá louco Embrulhano? Eu sou é muito macho, meu chapa – indignou-se Osmar Dadde. - A cidade é livre, eu também sou. Por isso vou onde quero.

 

                        - A cidade pode ser livre e seus habitantes também – interveio Maçarico interrompendo a conversa entre os dois fregueses. Ele julgou que a rixa poderia descambar para a agressão física e o quebra-quebra.

  

                        - Ouvi um comentário que esse tal vereador Fuinho Bigodudo fez uma lei que proíbe o funcionamento de todos os bares e restaurantes da cidade, depois das 10 da noite. Ele instituiu o famoso toque de recolher.

 

                        - O quê? Ele fez isso? – perguntaram em uníssono os dois contendores.

 

                        - Fez sim. E se não me engano, o projeto de lei está no gabinete do prefeito Jarbas, pra ser aprovado – completou Maçarico, vendo que os birrentos esqueceram as hostilidades por alguns instantes.

 

                        - Isso quer dizer que ninguém mais poderá tomar seus birinaites nos bares, depois das dez horas da noite? – questionou Embrulhano.

 

                        - Mas isso é um absurdo! Vamos iniciar um abaixo assinado pedindo a cassação desse Fuinho. Ô sujeito maldoso! Votar nele é a mesma coisa que adubar erva daninha – proclamou Osmar Dadde brindando com um copo de cerveja que acabara de encher.

 

                        - Vamos depor esse Kadaffi tupinambiquense! – decretou Gelino Embrulhano.

 

                        A partir daquele momento, Maçarico teve a certeza de que o bar e a sua própria integridade física, estariam assegurados.

 

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publicado às 13:12


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