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Revelando Segredos

por Fernando Zocca, em 20.07.14

 

 

Nas reuniões dos grupos onde não há a sinceridade é muito comum a troca da identidade de um ou outro componente quando então se fala dele, na presença dele mesmo, sem que ele nem perceba.

Por exemplo: o José foi ao Fórum durante a tarde e, à noite, quando participa da reunião da associação dos moradores do bairro, pode ouvir durante longos minutos, a arenga de que o "Joaquim" ficou o dia todo no Fórum "mexendo" com papéis e "aprontando" alguma coisa. 

Se a Maria, mulher do José, por um motivo ou outro deixou de mandar capinar o quintal, o José poderá ouvir que a "Márcia" é uma "braço curto", preguiçosa e que na casa dela nem mesa e cadeira tem.

Quando o filho do José bate de forma estrepitosa na porta do banheiro da sua casa, haverá a possibilidade de o José experienciar os comentários de que o filho do "Joaquim" é agressivo e violento.

Essa simulação toda, perdurante por anos e anos a fio, teria por base a crença de que o tal José seria portador de um segredo, de uma verdade criminosa, sobre a qual, se perguntado diretamente, ele, com certeza, negaria.

Essa troca de conformidade ocorre também nos delírios psicóticos nos quais o doente elabora uma situação na qual ele "faz" o outro experienciar o que ele mesmo está sentindo.

Assim, se a comunidade aplaude o José, por seus feitos, o Laerte, com ciúme, dirá que, na verdade, o José está abandonado, isolado, sendo sua presença completamente dispensável.

O que o Laerte faz, com essa projeção, é compensar - para manter o seu prestígio, e a liderança, no grupo familiar - algumas deficiências que podem ser estruturais, (morfológicas) e culturais como o analfabetismo.

Nesse relacionamento fingido, desleal, entre a associação dos moradores do bairro e o indivíduo, os feedbacks alimentados por mexericos são danosos e, se não obstados a tempo, podem tornar-se boatos causadores de danos morais terríveis. 

Da calúnia pode surgir o assédio moral criminoso (objetos do tráfico de influência nas entidades de classe e governamentais), exercido pelo próprio grupo frequentado pela vítima.

Não há dúvidas de que a personalidade machista-intolerante-excludente, da maioria dos integrantes grupais, é refratária aos ensinamentos cristãos.

Nessa vicissitude, a frase "Deus me livre dos amigos, porque dos inimigos cuido eu", é bem propícia. 

 

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publicado às 13:38

O Maior Vendedor do Mundo

por Fernando Zocca, em 11.11.09

 

                       Virgulão considerava-se o melhor vendedor que Tupinambicas das Linhas jamais tivera em toda sua história. Diziam que o “turco” vendia até geladeira pra esquimó e máquinas de bronzeamento nas praias mais bem frequentadas do Brasil.
 
                        O homem se estabelecera na região central da urbe no início dos anos 1940 e muitos apostariam que ainda hoje, época dos computadores, ele seria capaz de vender milhares de máquinas de escrever pras repartições públicas.
 
                        - Só se for o Jarbas o responsável pelas compras – dissera mal humorado o Pery Kitto já cansado de ouvir as loas que se faziam ao caixeiro sedentário.
 
                         Pery Kitto e Adam Oly bebiam aproveitando a modorra que dominava a manhã da terça-feira ensolarada no bar do Maçarico quando adentrou ao recinto o  festejado Virgulão. Ele trazia debaixo do braço uma coleção de partituras de chorinhos.
 
                        - E ai, mano, vai ter espetáculo no saguão hoje? – perguntou Pery Kitto ao ver o homenzarrão entrar boteco adentro.
 
                        Virgulão pediu uma cerveja ao Maçarico e, sentando-se ao lado dos colegas informou:
 
                        - Pretendo montar uma gráfica lá naquele prédio. Imagine que hoje em dia dá o maior lucro fazer talonário de notas fiscais.
 
                        - É mesmo? – Adam Oly demonstrava interesse sincero.
 
                        - Mas você já tem o seu comércio de relógios de ponto e material pra escritório. O que mais vai querer? – quis saber o Maçarico trazendo a cerveja e abrindo-a à vista do freguês.
 
                        - Eu preciso arrumar uma ocupação pro meu filho. Ele tem mania de poeta. Vive escrevendo umas besteiras. Ele tenta levar pro dono do Jornal de Tupinambicas das Linhas, mas eles não publicam. – confidenciou Virgulão.
 
                        - Mas o menino escreve muito mal? – quis saber Adam Oly.
 
                        - Ah, você sabe né? Vate geralmente carece de parafuso, às vezes de porca e arruela também. Mas não quero contrariar o moleque. Se precisar, eu compro até um jornal pra ele.
 
                        - Isso é que é gostar do menino, hein seu Virgulão! – sorriu o Maçarico passando um guardanapo sobre a mesa vizinha. 
 
                        - Os médicos disseram, quando ele nasceu, que era down, que tinha essa síndrome. Mas eu não acredito. Imagine o Zé Cílio retardado. Nem pensar! – indignou-se Virgulão ingerindo o seu primeiro gole de cerveja.
 
                        - Ah, mas você sabe né Virgulão, que essa oposição existente aqui na cidade é coisa de gente das trevas. Essa cidadezinha não deslancha no cenário nacional exatamente por causa da política mesquinha dessa turma do pavão louco, que se aboletou no poder e não deixa mesmo o osso, nem com reza brava. -  ensinava Adam Oly.
 
                        - Olha Virgulão, você precisa de cuidado pra não ferir as suscetibilidades, se não fica mais difícil driblar o miserê. Entendeu? – aconselhou o Pery Kitto.
 
                        - Acho que o menino tem mesmo um parafuso solto quando afirma haver a necessidade de se fantasiar, fantasiar, e fantasiar, criando ilusões pro povo. Será que ele está certo?- a dúvida do Virgulão era sincera.
 
                        - Eu acho que é por isso que o Jarbas, o Tendes Trame, Zé Lagartto, Fuinho Bigodudo, vovó Bim Latem e titia Ambrosina conseguem desancar os cofres dos dinheiros do público e ainda permanecerem sem castigo. É a lorota que eles criam que os protege das punições, das garras da lei. Agora imagine você um escândalo público sendo amenizado por gabolices difundidas pelos jornais. Seria o fim do estado. Não sobraria a falange, nem a falanginha e muito menos falangeta. – ponderou Pery Kitto.
 
                        - Ah, mas o que é de gosto, não deixa mesmo de ser o regalo da vida. Seu eu puder vou dar um jornal pro Zé Cílio. Ele merece. – garantiu Virgulão levantando-se.
 
                        - Mas é cedo ainda. Onde vai com tanta pressa? – perguntou Adam Oly.
 
                        - Tenho gaiolas e uma população imensa de periquitos no saguão do prédio que comprei. Preciso alimentar os bichos. Faz tempo que não ganham nada. Um abraço pra vocês.
 
                        Ao sair Virgulão, com um gesto conhecido, indicou ao Maçarico que anotasse no rol dos seus débitos, a despesa que pagaria no fim do mês.
 
 
 
Fernando Zocca.
 

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publicado às 12:57


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