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O idiota endinheirado

por Fernando Zocca, em 26.11.13

 

 

Um idiota com dinheiro prejudica muita gente. Principalmente se ele apoia e tem o apoio de governos corruptos.

 

Então os artifícios de contaminar as caixas d´água e caprichar nos herbicidas cancerígenos das verduras das vovozinhas nas periferias são procedimentos corriqueiros.

 

Não pode causar estranheza (ele não quer que cause) quando o idiota endinheirado diz que é brincadeira - costume dele, da sua família e dos seus amigos - o espancamento dos indigentes caídos defronte a porta da sua casa.


O idiota endinheirado aparece sempre muito bem vestido nas reuniões consideradas maçantes por ele. Faz questão de exibir o carro que ninguém tem e acha muito normal a corrupção nas instituições públicas.


Geralmente esse tipo não passou da 4ª série do antigo ginasial nem conseguiu qualquer título, mesmo sendo daqueles do Madureza.


A sua sorte é ter parentes entranhados no serviço público, donde tira a riqueza para impor as maldades insanas.

 

O idiota endinheirado é formado com a mentalidade daqueles pensamentos mágicos. isto é, ele crê - por exemplo - que se, durante um tempo longo de estiagem, dançar de uma determinada maneira, haverá chuva.

 

O idiota endinheirado não gosta de quem estuda ou lê muito. É que seu domínio sobre os outros pode estar comprometido quando o tal professor procura explicar racionalmente os fenômenos e as coisas do dia a dia.


Há tipos de idiotas endinheirados que adoram fazer fofoca. Geralmente são idosos aposentados que não conseguem ver maior felicidade do que o envenenamento e a morte das velhinhas vizinhas com o uso dos herbicidas cancerígenos nas folhas das verduras.


Para o idiota endinheirado qualquer deslize ou escorregão serve como pretexto para merecer todo o seu ódio e a satisfação da necessidade de matar.


O idiota endinheirado não brincou quando era criança. Foi obrigado a trabalhar. Tinha o pai alcoólatra e a mãe vítima das agressões.


O idiota endinheirado é um perigo para a sociedade civilizada. 

 

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publicado às 17:06

Negativismo

por Fernando Zocca, em 03.11.11

 

 

             Ao entardecer da terça-feira, Van de Oliveira Grogue caminhava lentamente pela caçada esburacada, do seu quarteirão, com destino ao bar do Maçarico.

       Durante o trajeto, ele olhava com o máximo de atenção para o calçamento, evitando pisar nos montículos de cocô, torcer os pés nos buracos, ou dar topadas violentas nos obstáculos. Van ansiava pela chegada.

       Entrando no boteco ele percebeu que os frequentadores usuais ainda não estavam presentes. Mas havia um sujeito magro, alto, de cabelos já brancos que, com o braço esquerdo apoiado sobre o balcão, bebia cerveja,

       Grogue viu, quando o tal levou o copo aos lábios, que o matuto tinha a unha do polegar direito bastante crescida. Era lixada de modo a deixá-la semelhante a uma lâmina perfuro-cortante.

       Quando notou a presença do Van, Maçarico postou, sobre o balcão, uma garrafa de cerveja geladíssima, abrindo-a em seguida.

       Os homens trocaram olhares e se cumprimentaram de forma usual, timidamente, com a voz baixa. Depois dos primeiros trinta segundos, Van procurando tornar o ambiente mais descontraído e cordial iniciou a conversação:

       - Mas, veja que o clima está bem gostoso, né? Não está tão quente e nem muito frio.

       - Tá uma porcaria. Esse ar deixa qualquer um doente. Minha mãe já pegou três resfriados só neste mês. – respondeu o forasteiro usando certo ímpeto na voz.

       - Ah, mas resfriado é fácil de tratar. Tem tanto remédio bom agora, tantas vitaminas; isso não é preocupação.

       - Mas também com esses preços. E depois tem mais, viu? Já pensou se você compra remédio falsificado? Você está morto.

       Não querendo entrar em detalhes e nem fazer do local um lugar de contendas, Van buscou trocar de assunto, então mandou:

       - E o esporte clube 7,5 de Novembro? Ganhou outra partida no domingo passado. Você viu Maçarico?

       - Esse time está jogando mal pra caramba. Se não fosse o juiz ele teria perdido de novo. – avançou o forasteiro.

       - Mas o goleiro jogou bem pra caramba! É ou não é pessoal? – lançou Grogue ingerindo um gole da bebida.

       - Goleiro bom era o Ramirinho. Aquele sim não pegava nem frango e nem peru. Você lembra Maçarico? – indagou o desconhecido, sentindo-se bem à vontade, como se fosse da casa, há muito tempo.

       Grogue e Maçarico trocaram olhares de dúvida. Então o dono do estabelecimento tentou:

       - O time está bem entrosado agora. Se der tudo certo pode fazer bonito no ano que vem, durante o campeonato estadual.

       - Ah, mas com essa diretoria? Só tem ladrão! Se não fossem esses ratos o time tinha até sede própria e tudo. – garantiu o magricelo encarquilhado.

       - É meu amigo, mas a zaga bate um bolão. Você não pode discordar. – tentou Grogue.

       - O quê? Aquele número dois? Como é mesmo o nome dele? – zombou o matuto ajeitando os chinelos de borracha nos pés.

       - Mas ele rouba as bolas, muito bem. – garantiu Maçarico percebendo o olhar de aprovação do Van Grogue.

       - Só bolas? O cara é o maior ladrão de varal da cidade. Já foi até condenado pela justiça. Zagueiro bom tinha no meu tempo de moço.

       Tendo bebido toda a cerveja e tirando do bolso uma nota amassada de R$10, o homem jogou-a sobre o balcão, esperando o troco.

       - Pô! Mas já vai? – inquiriu Grogue. - Com esse clima ruim, não dá nem pra tomar uma birra gelada sossegado, não é verdade?  

      - Ruim? Que Ruim? Agora o tempo está ótimo. Mas eu me vou porque ainda tenho de trabalhar. Tchau, um grande abraço pra vocês. 

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publicado às 13:48


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