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O Macaco Silvestre

por Fernando Zocca, em 26.12.11

 

No mafuá da usura, preso em candura, 
estiolado no cipreste, estava o macaco silvestre. 

Mas o que fizeste, pobre mico do agreste? 
Só por tua beleza e negrura, se vê sem soltura? Não te amargura o mal que te investe? 

Pobre macaco silvestre! 
O orgulho negociante que o poder tem nas mãos 
não se compadece. O quê fizeste? 
Malfadado macaco silvestre? 

A luta pelo dinheiro, poder e sexo, desmerece. 
Desanca e não enaltece. Prende e arrebenta até envilece. Pobre de ti macaco silvestre. 

Esqueceste da selva de onde vieste! 
Mas na prisão, em que tudo fenece, pior é a vida e não te apetece. 
Não desejavas contigo macacas silvestres? 

Usura liberta o macaco. Usura apieda-te e não investe. Usura: liberta o macaco silvestre!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 11:15

Diva e a Cortina

por Fernando Zocca, em 18.01.10

 

             - Diva, minha gatinha velha, como você está ressequida! Há muito tempo que não ouço falar da sua pessoa. Outro dia passeava tranquila pelo centro da cidade e a vi, assim, de relance, muito rapidamente. Nêga, sabe o que Aldo, aquele porquinho sujo, disse de você?
            Na esquina as duas mulheres já idosas, reunidas pelo acaso puderam, naquela manhã de segunda-feira, relembrar alguns bons momentos que viveram juntas. Diva, defronte à sua casa, varria a calçada enquanto que Alana passava com dois sacos plásticos, cheios de mantimentos, que comprara na venda do Pereirinha.
            - Não, eu não sei. O que aquele cafajeste falou de mim? – indagou Diva parando com a varrição.
            - Ele teve a cara de pau de ir à minha casa para dizer que você, num dia que estava muito apertada, não tendo tempo de correr para o banheiro, fez cocô na sala. E que limpou o bumbum na cortina. Ai, você acha que pode, falar uma coisa dessas colega? – Alana era muito sincera.
            - Hum querida, nem me abalo com isso. Vindo de quem veio, nem me ligo. Sei que aquela besta fazia até cirurgia pra tirar o apêndice, só pra não trabalhar naquele serviço chato dele. Ai, esse Aldo é dose. Todo mundo sabe disso, querida. E o que mais ele disse de mim? – o interesse da Diva inibiu, de certa forma o ânimo comunicativo da amiga. Mas não a impediu de prosseguir.
            - Contou que você está fazendo tratamento pra depressão. Que na verdade você não precisa disso. Mas que vai lá só pra ver aquele médico bonitão. Olha que absurdo, colega? – Alana não guardava segredos.
            - Mas não é mesmo, querida? – Diva queria saber mais. Muito mais.
            - Ele falou também que você sofria com uma tal alergia. E que bastou aquele povo todo, do bairro pobre, onde você mora, saber que você estava com isso, pra eles também começarem a sentir comichão querida. – Alana falava tudo o que sabia.
            - Ai, mas que absurdo, colega. Esse Aldo sofre das faculdades mentais, não é possível. Será que ele não tem interesse em se internar num Spa? – Diva gostava de saber o que falavam dela.
            - Ele me disse que até o dia em que ficar bem velhinho, chegará perto de um. Nem que seja pra olhar, de longe, a porta da frente. – Alana, por permanecer muito tempo em pé,  já mostrava sinais de cansaço. Ela sentia dores nas pernas.
            - Ai que horror, querida. É muito pobre isso. Mas você não quer entrar e tomar um café? – indagou Diva, ao perceber a impaciência da amiga, parada na sua frente.
            - Não, bem, não quero nada, não. Mas vou andando. Ainda tenho de fazer o almoço. E você não tem ido mais passear no centro?
            - Ah, olha, não quero nem saber. Enquanto esse prefeito não parar de maltratar os pobres eu não saio mais do meu bairro. E depois tem outra: aquela região está muito feia e suja. Não vale a pena. – arrematou Diva ao colocar, numa lata de lixo, os resíduos que varrera.
            - É isso ai, colega. Eu também não me abalo para sair da minha casa e passar vergonha de ver um lugar tão sujo e maltratado. – confirmou Alana.
            As duas velhas amigas se despediram. Uma foi preparar o almoço enquanto que a outra fez anotações do que ouvira. Ela as usaria depois para contar às outras vizinhas, as novidades soubera.
Fernando Zocca.  
 

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publicado às 17:21


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