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A Caixa

por Fernando Zocca, em 05.06.15

 

Dinheiro é um papel impresso, emitido pelo governo federal, e que tem um valor correspondente em ouro.
Esse papelzinho colorido substitui os objetos produzidos facilitando assim a troca das coisas.
Se você planta tomates e precisa de pneus para o seu trator, é bem mais fácil trocá-los por dinheiro e, logo em seguida, substituí-lo pelos pneus, do que trocar os frutos diretamente pelas coisas necessárias.
Para conseguir tanto os tomates quanto os pneus é indispensável mover algumas coisas. Então o lavrador precisa revolver a terra fazendo sulcos, lançar as sementes, irrigar e esperar o tempo do ciclo natural da planta.
A confecção dos pneus implica em mover-se no sentido de retirar da seringueira a borracha, manipulá-la de um jeito tal que o resultado final tenha a forma, a cor e a consistência do objeto que conhecemos como pneu.
Da mesma forma acontece com os alimentos, as roupas e os demais acessórios consumidos pelas pessoas.
A confecção dessas coisas todas chama-se trabalho. A forma do domínio, do emprego do trabalho, isto é, da propriedade do empreendimento de produção, é que varia um pouco.
Por exemplo: no comunismo as empresas todas pertencem ao estado. Inexiste a iniciativa particular, própria. Não tem empresário dono desta ou daquela fábrica, desta ou daquela emissora de TV, deste ou daquele jornal.
Com esse modelo, atualmente há a China, a Coréia do Norte e alguns outros países. Uma característica desse sistema de produção é a nulidade da competição interna.
As empresas que produzem tratores, tecidos, roupas, equipamentos eletrônicos, não duelam entre si para a obtenção das maiores vendas.
No capitalismo a gente observa que é a iniciativa do interessado que move a produção, a comercialização e a prestação dos serviços à sociedade.
Há uma "briga" pela conquista dos consumidores. Ou seja, a TV tal, do bispo tal, procura fazer programas, tanto religiosos quanto mundanos, de um jeito que abranja a maior quantidade de pessoas dispostas a pagar por eles, ao comprarem as coisas exibidas nas telas.
É o que acontece com as fábricas de automóveis. Elas procuram fazer produtos mais confortáveis e baratos a fim de venderem mais. Competem entre si para a sobrevivência no mercado.
Durante o surgimento dessa fase conhecida como ciclo industrial, na Inglaterra, por volta de 1750, as primeiras fábricas empregavam pessoas que trabalhavam de forma degradante, e que enriquecia somente os donos do empreendimento.
Hoje com a automação das máquinas houve a redução das jornadas, a diminuição dos postos de trabalho, e o aumento da produção.
Ocorre que sem o consumo a produção não tem efeito. Ou seja de que valem pátios inteiros lotados de carros, das fábricas de automóveis, se não há a aquisição deles?
De que adianta a fabrição de esmaltes, cílios, maquiagem, roupas, música e o escambau, se não há a troca deles por dinheiro?
Se o produtor das mochilas, perucas, tintas para cabelo, não troca os seus produtos por moeda sonante, como pagará as contas do condomínio?
Um jeito muito antigo de ganhar dinheiro sem produzir nada, nenhum trabalho, é a imposição da obrigação de pagar tributos.
Desta forma os governos ajuntam bilhões e bilhões de dólares em troca de quase esforço nenhum. Teoricamente, essa montanha de dinheiro seria destinada à melhoria da vida dos que pagam.
Mas o que a gente tem visto, durante o decorrer do tempo não é bem assim que acontece.
O desvio de função, que era a exceção, tornou-se a regra. E é assim, com o suborno e a corrupção, que muitos conseguem ter muitas coisas e os variadíssimos movimentos na sua caixa.

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publicado às 14:45

O Grande Príncipe

por Fernando Zocca, em 27.04.15

 

O historiador e poeta italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527) afirmava em O Príncipe, sua obra mais famosa, sobre a política do seu tempo, que "os fins justificam os meios".
Essa tese é observada quase que diariamente em algumas condutas dos cidadãos comuns. Os resultados podem tanto trazer consequências graves como nenhuma.
Entretanto quando quem a usa ocupa o poder, administrando o bem público, os desdobramentos podem afetar milhares de pessoas.
A câmara de vereadores de Piracicaba, "tratorando" a decisão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, que reprovava as contas de 2011, do então prefeito Barjas Negri, aprovou-as na quinta-feira (23/04), por 19 votos.
Ou seja, a casa de leis piracicabana ratificou as falhas cometidas por Barjas Negri, que destinou somente 24,32%, da arrecadação dos impostos, ao ensino.
Desta forma Barjas Negri, e a câmara de vereadores, transgrediram a Constituição Federal, que determina ser o percentual de 25% da arrecadação, o mínimo necessário, a ser empregado no ensino municipal.
Por mais honrosos que fossem os fins que levaram o então prefeito a redirecionar os 0,68% faltantes, os meios para atingí-los, não foram nada legais.
Da mesma forma que não é legítimo o ato da pessoa que, com fome, ao invés de comprar o seu alimento, furta-o.  O fim - saciação - não justifica o meio - furto - de consegui-la.
Entretanto, reforçando ainda a atitude da casa, o vereador José Aparecido Longatto disse, numa reportagem do Jornal de Piracicaba sobre o assunto, referindo-se às sucessivas reeleições do PSDB ao executivo, que a avaliação de uma administração "é feita nas urnas".
A administração tucana atual contratou um escritório de advocacia por cerca de R$ 300 mil, com o objetivo de defender as atitudes questionadas de Barjas Negri pelo TCE.
A previsão de que as contas seriam aprovadas, por ter o PSDB maioria na câmara, nos dá a certeza de que os R$ 300 mil poderiam ser melhor utilizados em obras públicas do que somente nas particulares de alguns poucos.
Na idade média os políticos podiam tudo. Hoje em dia as leis limitaram as ações deles. Eles não podem fazer o que querem, o que bem entendem. A não ser que seja um grande príncipe, é claro.



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publicado às 16:18

As Contas do Condomínio

por Fernando Zocca, em 09.03.10

 

                  Mara K. Utáia deixara vencer mais uma conta do condomínio sem que pudesse pagá-la.  E essa negligência toda repercutia no bolso dos demais moradores do prédio. Os valores não recolhidos pela esquecida seriam acrescentados aos boletos dos vizinhos.
                  Por isso quando a mulher entrava, átrio adentro, desejando descansar os pés calejados e libertar os joanetes das contenções opressivas, daqueles seus sapatos velhos, percebia os olhares tortos do porteiro de plantão.
                   “Esse maluco é da turma do síndico safado. Fazem contas fantasiosas e procuram tomar o dinheiro de quem trabalha honestamente” – pensava K. Utáia ao transitar pelo hall gelado e sem vida, buscando a porta do elevador.
                   “Inventam despesas, inflacionam o consumo de água, de luz, de gás, os cambau. Querem mesmo prejudicar. E depois ainda dizem que não cumprimento ninguém, quando estou no prédio. Ò gente ruim da cabeça”. – ruminava Utáia esperando a chegada do elevador.
                   Um grupo de crianças se aproximou da mulher que, segurando com força a bolsa azul, mantida sob  o sovaco do braço direito, demonstrou desprezo ao vê-las.
                   “Essa molecada sem educação. Não sei onde vai parar tudo isso. No meu tempo de menina, se falasse merda já levava o maior cacete. Agora não. Veja como são mal educados. Ô gentinha”. – Mara transpirava. Seu pulso denunciava problemas circulatórios  que a incomodavam.
                   “E esse dente agora? `Mardito`! Justo agora  que deu pra doer? Assim não tem quem agüente. E aquele morfético que não paga a pensão? O desgraçado atrasa de propósito, só pra chatear. Ô camarada ruim!”
                   As crianças ao se aproximarem da mulher e percebendo-lhe a carranca no semblante, silenciaram. Elas a conheciam e sabiam ser daquelas velhotas que gritavam ofendendo os pequenos.
                   - Se não recebo, como vou pagar? – murmurou K. Utáia, quando o elevador barulhento parou à sua frente.
                   Ao abrir a porta a velhinha notou que ele trazia pessoas que o tomaram no subsolo, na garagem do prédio.
                   - Olha, criança não vai, não. Vocês esperem que não cabe mais ninguém. – afirmou a senhora, dirigindo-se às crianças enquanto entrava.  
                   “Sempre lotado. Se alguém peidar aqui dentro, com certeza, vão olhar feio pra minha cara. Mas veja como são mal encarados. Deus me livre!” – cogitava a mulher quando a porta fechou atrás de si.
                  Os solavancos do elevador serviam para demonstrar o mau estado de conservação.
                   - Misericórdia! – exclamou a baixinha ao notar a turbulência da ascensão.
                   - Está mal conservado. O condomínio não pode pagar por revisões mais freqüentes. Está sem dinheiro. – sentenciou um dos cavalheiros que também subiam.
                   “Eu sabia! Tinham que dar indiretas! Ô gente sem coração” – pensou a mulher apertando com mais força a bolsa debaixo do braço.
                   Ao chegar ao destino Mara K. Utáia percebeu que esquecera as chaves do apartamento no escritório. Ela se lembrava muito bem. Estavam na porta, penduradas do lado de fora.
                     

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publicado às 22:14


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