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A Janela

por Fernando Zocca, em 23.09.10

 

                               Van de Oliveira Grogue caminhava atordoado, pela calçada esburacada, naquela quarta-feira, do final de agosto; ele seguia rumo ao bar do Bafão, como os demais colegas que também chegavam junto. O relógio marcava meio dia.

 

                Usando pantufas verdes, Van pisou com o pé direito no degrau da porta do boteco. E se não fosse pelo tropeção que dera, depois do primeiro passo dentro do estabelecimento, poder-se-ia dizer ser triunfal, aquele seu ingresso.

 

                Com um guardanapo no ombro esquerdo, Bafão sentiu que se não tivesse calma, naquele dia o ambiente tornar-se-ia bastante hostil.

 

                Van de Oliveira, com um gesto de quem pede a pinga usual, fez Bafão deixar de assear o tampo do balcão e o servisse com a bebida.

 

                Antes mesmo de pegar o seu copo Grogue achegou-se a uma das mesas postadas próxima a janela, onde estava Edgar D. Nal, que sorvia com calma, a sua cerveja geladíssima.

 

                Ante a presença do colega que se aproximava, D. Nal bateu ostensivamente com o indicador da mão direita no cigarro, fazendo a cinza cair sobre o cinzeiro fixado no centro da mesa.

 

                Grogue então se sentou dizendo:

 

                - Mas que baita calor. Não suporto!

 

                - Também com essas pantufas verdes. Nunca vi ninguém sair pro boteco usando isso. – respondeu Edgar.

 

                - É que não achei meu tênis. Estava com pressa de vir pra cá. Perdia hora, por isso pus a primeira coisa que me apareceu.

 

                Trazendo uma dose de pinga, a garrafa de cerveja e o copo limpo, Bafão aproximou-se. O guardanapo sobre o ombro direito, quase caiu quando ele se inclinou para servir o freguês.

 

                Numa talagada Van ingeriu a pinga. E depois ao encher o outro copo com a cerveja, foi dizendo:

 

                - Você não sabe o que me aconteceu. – ante a curiosidade do Edgar, estampada no seu próprio rosto, Grogue prosseguiu – Me disseram que a Cleide... Lembra dela?... dava pra todo mundo. Eu não acreditei, mas os dois caras, tanto o Tonhão quanto o Zezinho garantiram que ela dava, assim, numa boa, pra quem pedisse.

 

                Edgar D. Nal engasgou com a fumaça que acabara de aspirar, mas logo ingeriu outro gole de cerveja, preparando-se para as novidades. Grogue então prosseguiu:

 

                - Eu acreditei e resolvi falar com ela. Num dia qualquer, eu que estava dentro de casa, ouvi a voz da Cleide que vinha pela calçada e se aproximava da minha casa. Então corri, peguei uma cadeira e a pus debaixo da janela.  Fiquei na espreita. Quando a gostosa passou eu a chamei. Ela parou, virou-se, voltou alguns passos e olhou diretamente para mim. Dai eu disse: Ocê não quer dar pra mim?

 

                Edgar tossiu quase perdendo o fôlego. Bafão, que servia outras pessoas, derrubou um copo vazio sobre o balcão, e o gato preto que morgava na soleira, arrepiou-se todo.

 

                - Bom – continuou Van Grogue – ela então respondeu: “Mas como assim? Dar o quê pra você? Ocê está louco? Cadê a sua mulher, canalha? Chama lá a sua mulher que eu quero falar com ela”. Depois que ela disse isso em voz alta, chamando a atenção da vizinha da direita, da esquerda, da frente e lá da esquina, eu quase morri de vergonha. Abaixei a cabeça, ali mesmo na janela, e entrei vexado.

 

                - Mas você è uma besta mesmo! Onde já se viu acreditar no diz essa gente daqui. – censurou Edgar.

 

                - Você acredita que a mulher ficou um tempão a vociferar diante da minha casa? Nossa! Eu quase faleci acanhado – confessou Van Grogue.

 

                - Foi uma aprontada que armaram pra você. Só pode ter sido.

 

                - É mesmo. Era uma armação de gente magoada. – concluiu Grogue depois de um longo tempo que passara a segurar o copo diante dos lábios.

 

Texto revisado em 24/09/2010

 

           

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publicado às 23:46


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