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O Braço

por Fernando Zocca, em 03.01.12

 

 


               Van Grogue entrou, naquele entardecer de segunda-feira, no bar do Bafão onde, com um gesto ao proprietário atento, comunicou sua intenção de saciar-se de cachaça e cerveja.

       Depois de ingerir, numa talagada, o conteúdo do seu copinho habitual de pinga, ele notou que havia um pessoal diferente reunido com o gerente bancário Célio Justinho, marido da raivosa Luisa Fernanda.

       Eram dois homens claros, de estatura elevada, um deles já passando dos 60 anos, porém magro e o outro mais novo, que se destacava pelo abdome abaulado, impossível de ser disfarçado pela camisa larga e florida, que escorria sobre o bermudão bege.

       Um deles dizia:

       -You cannot get carried away by the temptation of the devil.  

       E o outro traduzia para Célio Justinho que, fascinado, ouvia atento:

       - Você não pode se deixar levar pela tentação do demônio.

               - Because he tries to maliciously trying to take him to error, sin.

              - Pois ele o tentará maldosamente buscando levá-lo ao erro, ao pecado.

       Com um copo transbordante de cerveja numa das mãos, o pregador prosseguia:

        - The devil whispers in your ear trying to end his life. He has a lot of envy and hate you. 

       - O capeta sussurra na sua orelha buscando acabar com a sua vida. Ele tem muita inveja e ódio de você.

       Não se interessando pela conversa e nem mesmo desejando interrompê-la, Van de Oliveira, se apossou da garrafa de cerveja, do copo limpo, e caminhando em direção à mesa do canto, perto da porta, onde costumava ficar, sentou-se lentamente.

       Van Grogue ingeriu um gole e, assim como que num passe de mágica, plim-plim, desconectou-se do ambiente.

       Vestindo um calção azul, uma camisa branca com bolso do lado esquerdo, sandálias de couro, fivelas cromadas, o menino caminhava ao léu, pela rua principal da cidade.

       Ele prosseguia devagar, olhando tudo, de um lado para o outro, entre os transeuntes apressados, que iam e vinham, vivenciando aquela azáfama do dia a dia.

       A criança parou defronte uma loja de armarinhos, onde lá dentro havia um casal de meia idade.

        Atrás do balcão, o homem, à direita da mulher, media um tecido verde com o metro amarelo de madeira. Eles conversavam entre si, mas ambos olhavam para o menino estancado na calçada.

       Impelido, o menor iniciou a caminhada para dentro do salão. A mulher, ante a aproximação do estranho questionou-o:

       - O que você quer?

       Sem ter o que responder o guri viu-se embaraçado, tenso. O homem então perguntou:

       - De onde você veio?

       - A minha avó mora ali na esquina.

       O casal se olhou e, o homem conseguindo identificar a pessoa citada, acalmou a companheira, que mais a vontade, fixou o olhar no menino. Então o homem perguntou:

       - Você conhece o Pedrinho?

       Sem esperar a resposta, e sob os protestos da mulher, o comerciante fez o garoto passar por uma abertura lateral, na qual uma cortina de pano verde escuro servia de porta, encaminhando-o assim para os fundos da loja.

       Ao andar sozinho pelo corredor o menino ouvia alguém que falava numa língua estranha:

       - The books are on the table.

       O garotinho foi se aproximando até que pòde ver dentro de um quarto, cuja porta e janela estavam abertas, um adolescente todo vestido de branco, sentado sobre a cama. O mocinho recostado no travesseiro grande lia e relia a lição de inglês.

       Quando percebeu a presença daquele estranho o estudante perguntou ao pai que estava lá na loja;

       - Quem é, pai?

       E de lá, o homem respondeu:

       - É um vizinho. Um coleguinha seu.

       - But where's the book? – continuou o aluno, olhando, da cabeça aos pés, o forasteiro medroso. Em seguida disse: 

       - Sente naquele banquinho. De onde você vem?

       Enquanto explicava que era neto da mulher que morava na esquina, o visitante viu que aquela pessoa, com muita dificuldade, procurava se levantar da cama.

       O pequeno e curioso forasteiro nunca tinha visto uma pessoa deficiente.

       Com bastante esforço o estudante levantou-se, deixando ver que seu corpo, pálido e magro, não tinha parte do braço direito, que as pernas, e também os pés, eram atrofiados.

       - Espere ai que eu já volto. - disse o jovem, depois de apoiar-se no par de muletas, que pegara da cabeceira da cama.

       Enquanto ficou só, o menino pôde ouvir as vozes que vinham da loja.

       Algum tempo depois, sacolejando, o aluno do ginasial entrou no quarto, sentou-se na cama, ajeitou o travesseiro às suas costas e prosseguiu com a lição:

       - But you, what you want from me?

       Vendo que a lengalenga não passaria daquilo e sentindo-se mal com o zunzunzum vindo da loja, o jovem visitante comunicou seu desejo de ir-se embora. E sem esperar por qualquer resposta retirou-se.

       Quando o menino passou pelos comerciantes que ainda estavam atrás do balcão, ele ouviu a mulher dizer:

       - Mas já vai? É tão cedo ainda...

       No boteco do Bafão, Van de Oliveira Grogue reconectava-se com o meio ambiente.

       - Note that the addiction can take you to disease, epilepsy report. Quit it already. – dizia o pastor com o copo de cerveja na mão.

       O companheiro do pregador traduzia para Célio Justinho e Bafão que estavam atentíssimos:

       - Veja que o vício pode levá-lo à doença, à epilepsia. Saia disso já.

       Van Grogue levantou-se da mesa, caminhou cambaleante até o balcão, para pagar a conta e sair, quando o pregador, olhando para ele, disse em português:

       - Arrependa-se! Saia dessa vida louca enquanto é tempo!

       Para o espanto geral Van Grogue, sacando os caraminguás contados para pagar a despesa, respondeu:

       - O quê!? Eu não quero nem saber.

       Depois de passar o dinheiro ao Bafão, e massageando o braço direito, ele afirmou com voz poderosa, ao sair:

       - Hoje vai dar águia na cabeça meu amigo. Já ouvi até o apito do trem.

 

03/01/12

 

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publicado às 21:28


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