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O Kadaffi Tupinambiquense

por Fernando Zocca, em 03.03.11

 

                                                Tupinambicas das Linhas, não era a Líbia, mas também tinha o seu Muammar Kadaffi. Era o vereador Fuinho Bigodudo, conhecido como Muar Fuinho Bigodudo.

 

                        Da mesma forma que o ditador Líbio insistia em não deixar o poder, mantido com injustiças e violência, o Muar tupinambiquense também se negava a “largar o osso”, mantido com verbas substanciosas, aos comunicadores dependentes da cidade.

 

                        Mas na manhã de domingo, no bar do Maçarico, quando já degustava a cerveja gelada, com a barriga encostada no balcão, Gelino Embrulhano pôde notar a presença espalhafatosa do Omar Dadde que, vestindo bombacha, chapéu de abas largas, botas de cano longo, camisa azul-pavão e um lenço de cetim amarelo, amarrado no pescoço, entrou em cena declamando:

 

                        - Eu vou/Eu vou/Pra casa agora eu vou... – Dadde mal terminou sua mensagem matinal quando foi interrompido por Gelino Embrulhando, que falou ao Maçarico, em alto e bom som:

 

                        - Pronto! Acabou o sossego! O chato acaba de chegar.

 

                         - Mas, olha... Veja quem está aqui. É o sujeito mais mentiroso, enrolado e falso que a cidade já viu – respondeu Osmar Dadde, olhando irônico pro Maçarico.

 

                        E depois ainda, aproveitando o silêncio que se fez, por alguns segundos no botequim, Dadde continuou:

 

                       - Que mané chato, mano?  Parece que não me conhece.

 

                        Gelino Embrulhando respondendo a pergunta defendeu-se:

 

                        - Onde eu estou você logo vem atrás. Parece boiolagem, tesão de argola, qual é a tua, parceiro?

 

                        - O quê? Tesão de argola? Ocê tá louco Embrulhano? Eu sou é muito macho, meu chapa – indignou-se Osmar Dadde. - A cidade é livre, eu também sou. Por isso vou onde quero.

 

                        - A cidade pode ser livre e seus habitantes também – interveio Maçarico interrompendo a conversa entre os dois fregueses. Ele julgou que a rixa poderia descambar para a agressão física e o quebra-quebra.

  

                        - Ouvi um comentário que esse tal vereador Fuinho Bigodudo fez uma lei que proíbe o funcionamento de todos os bares e restaurantes da cidade, depois das 10 da noite. Ele instituiu o famoso toque de recolher.

 

                        - O quê? Ele fez isso? – perguntaram em uníssono os dois contendores.

 

                        - Fez sim. E se não me engano, o projeto de lei está no gabinete do prefeito Jarbas, pra ser aprovado – completou Maçarico, vendo que os birrentos esqueceram as hostilidades por alguns instantes.

 

                        - Isso quer dizer que ninguém mais poderá tomar seus birinaites nos bares, depois das dez horas da noite? – questionou Embrulhano.

 

                        - Mas isso é um absurdo! Vamos iniciar um abaixo assinado pedindo a cassação desse Fuinho. Ô sujeito maldoso! Votar nele é a mesma coisa que adubar erva daninha – proclamou Osmar Dadde brindando com um copo de cerveja que acabara de encher.

 

                        - Vamos depor esse Kadaffi tupinambiquense! – decretou Gelino Embrulhano.

 

                        A partir daquele momento, Maçarico teve a certeza de que o bar e a sua própria integridade física, estariam assegurados.

 

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publicado às 13:12

Aníbal, o Cortador de Cana

por Fernando Zocca, em 29.10.10
            Aníbal depois que chegava a casa, vindo da roça, onde passava a maior parte do dia cortando cana, tomava banho e arreava o burrão, atrelando nele a charrete, usada para comparecer ao bar do Maçarico.
 

            Isso era o que comumente acontecia. Pois foi naquela tarde de terça-feira que Aníbal, cansado da lida no eito, chegou à choupana habitada por ele, a mulher, e os dois filhos.

 

            O homem vinha nervoso, exausto, fedido, mal humorado e ansioso pra beber, junto com os companheiros, o primeiro gole de pinga num dos botecos da cidade.

 

            - Cadê a canequinha pra tomar o banho? - gritou ele, cheio de ódio, à Murtinha. A mulher temerosa com os espancamentos habituais olhou para a porta do barraco; queria-a desimpedida, para no caso de algum influxo de piti virulento, acometer o marido, pudesse ela safar-se com sucesso.

  

            -   Não sei. Deve estar perto do poço. - respondeu ela parada defronte ao fogão à lenha, onde enxugava as mãos no avental  amarrado na cintura.

 

            - O Nelsinho brincava com a caneca lá perto da fossa. Será que não está lá? - completou Murtinha cheia de boa vontade.

 

            - Na fossa? Mas esse moleque quer mesmo levar uma surra! Será que não aprende? - Aníbal já estava sem camisa, sem as botinas e de calção, queria lavar-se.

 

            Depois que ele vestiu os chinelos, saiu em direção ao local por eles chamado  banheiro. Na verdade o chuveiro não passava de uma lata cheia d´água fria, antes retirada do poço, mantida suspensa num poste e, inclinada ao ser puxada por uma cordinha, deixava cair o líquido sobre o banhista. Uma bacia posta sob os pés do usuário, reservava a água que depois era reutilizada para o enxágue com a caneca.

 

            Aníbal lavou-se apressadamente, enxugou-se e de volta pra casa, vestiu-se aproveitando a privacidade relativa do quarto. A casa não tinha forro e as paredes chegando até certa altura, não vedavam completamente o cômodo. Permanecia um espaço grande do limite superior das paredes até o madeiramento que sustentava as telhas.

 

            Não eram raros os momentos de amor entre Aníbal e Murtinha, cujos gemidos eram ouvidos pelos filhos, deitados no aposento contíguo.

 

            Mas naquela terça-feira, com uma vontade incontrolável de beber a sua pinga necessária Aníbal, já vestido mandou laçar o burro que pastava na redondeza. Ele então preparando os arreios e a charrete, atrelou-os no animal que ruminava.

 

            O lavrador pegou aquele seu rádio enorme e ligando a fiação numa bateria de automóvel mantida no assoalho da viatura, acionou-o podendo ouvir, naquele momento, a história do menino da porteira, cantada  pelos violeiros famosos.

 

            Ajeitando o chapéu de caubói no alto da cabeça, por sobre os cabelos que embranqueciam, e espancando o burro com um açoite, pôs-se o Aníbal a caminho da sua mais nova e esperada aventura etílica.

 

            Momentos antes de sair da propriedade, de passar por seus limites, antes mesmo de chegar ao portão, ele parou e voltando-se pra trás gritou:

 

            - Mulher! Ô mulher: não esquece de dar painço pros periquitos! Você ouviu criatura?

 

            Murtinha apareceu à porta da cozinha e acenando pro marido, propiciou a ele a despreocupação que precisava, para beber sem atropelos.

 

            Ao chegar ao bar do Maçarico Aníbal encontrou Van Grogue que sentado numa mesa de canto, lia a seção de esportes do jornal tupinambiquense.

 

            - Ué, mas não houve coleta de lixo hoje por aqui? - perguntou o cortador de cana pro Maçarico, depois de apontar com o queixo o bêbado leitor.

 

            Maçarico sabia que os dois não se davam. Primeiro porque Van Grogue era muito mais novo que Aníbal, segundo porque este não era letrado o que dificultava a compreensão dos ditos pelo primeiro.

 

            Por ser incapaz de entender o que dizia Grogue, Aníbal considerava-o louco. Era o jeito que ele usava para manter a sua autoestima inalterada, geralmente abalada pelos discursos do homem,  sabedor de tudo o que publicavam os jornais.

 

            Maçarico abriu uma cerveja servindo o lavrador. E querendo ajudar disse:

 

            - Eu também não tive tempo de aprender a leitura. Precisei trabalhar cedo. Meu pai cortava cana. Minha sorte foi que minha tia veio de São Paulo e me levou pra casa dela onde aprendi o bê-á-bá.

 

            - E se não tivesse aprendido, hoje você seria babá de criança retardada, com certeza. - arrematou Aníbal para o espanto do Van Grogue que se desconectou da leitura.

 

            - Ora, ora, mas vejam quem está aqui. O famoso Aníbal, o homem que gosta de caçar e prender periquitos. Você ainda está viva criatura? O que sucede? - Grogue com a voz pastosa de quem já bebera a cota do dia, levantava-se para se achegar ao carroceiro.

 

            Aníbal evitando qualquer contato com aquela figura detestável, pediu ao Maçarico que lhe vendesse um garrafão de pinga. Depois de pagar a mamãe-sacode e a cerveja, que deixou por terminar, ele saiu dizendo:

 

            - Antes beber sozinho a baronesa quente do que a cerveja gelada, em má companhia.

 

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publicado às 23:56

Muito milho pra poucos bicos

por Fernando Zocca, em 12.07.10

                           Tanto nas idas  quanto nas permanências e voltas, os loucos da cidade cercavam suas vítimas. Era uma regra.

 

                            Os dementes compunham a seita maligna do pavão-louco e não admitiam a estadia de qualquer pessoa  discordante da política corrupta do prefeito Jarbas, o caquético.

 

                            Como era do conhecimento geral, o prefeito, seus vereadores, o deputado estadual e federal, aproveitavam-se das licitações, para enriquecerem seus patrimônios particulares. Essa verdade era mansa e pacífica.

 

                            Tanto era assim que em Tupinambicas das Linhas uma única empreiteira ganhara mais de 45 concorrências públicas, em pagamento do capital que investira na campanha, que elegeu o prefeito Jarbas.

 

                            Praticamente não havia quem não recebesse um “presente” do prefeito ou dos seus correligionários. Essa atitude evitava as queixas, as reclamações e amenizava a derrota das demais empresas que se aventuravam a participar dos certames públicos.

 

                            Participar de uma licitação na prefeitura era o mesmo que jogar com as cartas marcadas. Se o partícipe não fosse da “panela” não teria a menor oportunidade.

  

                            Era assim que essa espécie de “casta” política governava a cidade por gestões seguidas, sem que a oposição, aliás, bem fraca, tivesse qualquer chance de ocupar o poder.

 

                            Na cidade a combinação entre as religiões pagãs e a política, formava a equação usada pela gente que ocupava os cargos eletivos, por mais de trinta anos seguidos.

 

                            Dessa maneira nem as denúncias de fraudes, contra o erário público, apesar de comprovadas, conseguiam sacar dos tronos intocáveis, os vendilhões da legalidade.

 

                            O chamado “progresso material” da urbe, na verdade, não passava de oportunidade aos responsáveis, tanto políticos, quanto técnicos, para acrescentar aos seus bens particulares, parte da riqueza que pertencia à cidade.

 

                            Então, obras voluptuosas tais como pontes desnecessárias, asfaltamento de ruas já calçadas e prédios destinados às repartições municipais, eram feitas assim como nos passes de mágica.

 

                            Em Tupinambicas das Linhas não se poderia dizer, com relação às verbas públicas, serem elas pouco milho para muito bico. Na verdade, o montante do dinheiro desviado era tanto, que se podia afirmar, sem medo de cometer engano, ser muito milho pra poucos bicos.

 

                            Se não fosse mesmo assim, então como explicar as reeleições seguidas, dos candidatos miseráveis, que durante suas vidas de pobres ingênuos, só conseguiram alcançar o maior destaque, quando se tornaram professores, de cursos preparatórios de vestibulares?

 

                            Esses políticos usavam a riqueza, desviada da população, na ativação e manutenção dos mecanismos repressores aos seus críticos. E a seita maligna do pavão louco, era um desses “aparelhos”, cujos membros cercavam tanto na ida, quanto na permanência e volta as suas vítimas.

 

                            Era bastante espinhoso suportar as atitudes insanas dos corruptos da cidade.

 

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publicado às 00:33

A Fuinha bigoduda

por Fernando Zocca, em 30.05.10

Zelão Mané, um sujeito macérrimo, tinha os cabelos negros e seu rosto era afilado. Abaixo do nariz um bigode tosco e ralo lembrava o das fuinhas.

 

 Nas últimas eleições Zelão Mané se enroscara com Jarbas (o caquético-testudo), e ambos revolvendo formas de manterem-se nas mamatas do poder, acharam a fórmula: uniriam as crenças, antes antagônicas, em torno do projeto de destruição dum sujeito previamente demonizado por ambos.

 

Só pra situar meu nobilíssimo leitor, o tipo da quizumba era igual à existente entre o Carlos Lacerda e Getúlio Vargas, em 54.

 

A fuinha viera dum local ermo, lá do estado de Minas, completamente abandonado pelas autoridades locais. Ao Chegar em Tupinambicas das Linhas, resolveu freqüentar aulas onde aprendeu as primeiras noções da língua que falava.

 

Seus 12 filhos nasceram na cidade. Quando ele percebeu que trabalhar como empregado, não seria brinquedo, pois não tinha qualificação nenhuma, ponderou nas chances de se tornar vereador.

 

Ora, Tupinambicas das Linhas, sempre conhecida como a cidade concentradora da maior quantidade de loucos, jamais vista em qualquer outra parte do mundo, não se opôs ao projeto do pretendente.

 

Afinal, não existia gesto maior, e nem mais completo, de prova da hospitalidade, do que o de oferta dum cargo bom e vitalício.

 

Zelão Mané elegeu-se então uma, duas, três, quatro e cinco vezes, como o mais supimpa e festejado vereador de todos os tempos da cidade histórica.

 

Seus filhos todos, empregados na prefeitura municipal e nas demais repartições autárquicas, cresceram, casaram-se e quando se viram enrolados com os problemas causados pelo excesso de adolescentes improdutivos, dentro das suas casas, procuraram logo o presidente da câmara municipal de Tupinambicas das Linhas.

 

Acontece que os quadros funcionais da prefeitura, da câmara municipal, e do departamento de águas, estavam lotados. Ora, como a pretensão do Jarbas, de instalar logo a tecelagem Tupinambicas, não poderia concretizar-se, por motivos alheios à sua vontade, resolveram eles, reinaugurar o zoológico municipal.

 

No princípio haveria poucos animais, porém como o objetivo principal, não era esse, mas sim o da criação de cargos, com muito jeitinho, reconstruíram aquele próprio público.

 

Foi assim então que ajeitaram o destino de toda aquela safra nobre dos legítimos descendentes do mais vigoroso, hábil, prolífero e maquiavélico vereador come-quieto, jamais vista nas terras Tupinambiquences.

 

A fuinha bigoduda, um dia porém, cansada com tanta solicitação, achou que deveria tirar umas férias lá pros lados do nordeste.

 

Junto com dois outros vereadores, sacou 10 mil reais, (dez mil pra cada um), dos cofres da câmara municipal e partiram numa caravana alegre, em direção às praias paradisíacas.

 

Durante o trajeto o vereador pensava em implantar um plano que objetivava enfraquecer os adversários: Em Tupinambicas das Linhas os critérios de apuração do consumo d água, não seriam os numerais dos medidores, mas sim o comportamento dos consumidores. Se suas opiniões políticas divergissem da dos governantes, pagariam mais, devido às anotações superestimadas, feitas por correligionários, e aplicadas como punição.

 

Esse projeto de sangria deveria ser estendido, num futuro próximo, aos departamentos de energia elétrica e aos de serviços telefônicos.

 
Quando o grupo chegou, perceberam que a imprensa toda tinha noticiado o fato. Houve burburinho e vozes clamavam pela punição dos edis.

 

À pergunta do repórter, a um matuto, sobre o que fazer com tanta gente daninha, roubando as instituições públicas daquele jeito, ele respondeu: "Ah, tem que tacá na oréia desses cara aí, ó!"

 

 

O piracicabano revoltado e a câmara de vereadores

 

Boston Medical Group - Referência mundial no tratamento de Ejaculação precoce

 

Homem morre com cancro do útero

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publicado às 00:40

A fábrica de automóveis tupinambiquence

por Fernando Zocca, em 04.03.10

            Diziam em Tupinambicas das Linhas que Jarbas, o caquético testudo, provando ser seu governo o melhor que a cidade jamais tivera, construiria uma fábrica de automóveis.

 

         Os comentários eram oportunos. As eleições se aproximavam e, da mesma forma que durante esses períodos o pessoal do partido retomava as balelas sobre a ferrovia, sua reativação e expansão, desta vez, falavam também sobre os automóveis tupinambiquences.
         O Diário de Tupinambicas das Linhas vinha todo dia recheado com as notícias sobre o prefeito. Nas colunas sociais, na página de opinião, de negócios e todas as demais, as matérias sobravam com elogios e afagos.
         Jarbas achava que fazia o que podia pela cidade. E segundo seus assessores, “quem faz o que pode, a mais não é obrigado”; no entanto era deficiente o atendimento à população carente, da periferia, nos postos de saúde; o ensino nas escolas públicas nunca estivera tão ruim.
         O Tribunal de Contas do Estado de São Tupinambos reprovara diversas vezes seguidas, a utilização das verbas públicas, enviadas pelos executivos estadual e federal.
         O município preferia a construção de viadutos e asfaltamento das ruas já calçadas, para onde carreava os valores recebidos, do que melhorar os salários dos professores municipais.
         A merenda escolar também foi esquecida;  as crianças não se alimentavam durante o tempo em que permaneciam nas escolas.
         Muitas ruas da periferia não tinham asfalto e a poeira levantada pela passagem dos carros, causava danos respiratórios aos idosos e crianças.
         Mesmo assim Jarbas queria construir a tal fábrica de automóveis. Ele justificava a teimosia afirmando que haveria emprego para milhares de pessoas.
         O prefeito e sua equipe viajaram diversas vezes ao exterior, objetivando convencer os empresários a se instalarem no município. A fábrica ganharia, de presente, áreas enormes de terra bem como a isenção de impostos por cem anos.
         Tanto fizeram Jarbas e sua equipe que realmente o seu sonho se concretizou. Depois de algum tempo os primeiros carros tupinambiquences começaram a rodar nas ruas da cidade.
         Convencido do sucesso Jarbas achava que ganhar as próximas eleições seria fácil.

 

Veja o teste de um dos primeiros carros construídos em Tupinambicas das Linhas. A fábrica, que ganhou áreas enormes de terra e isenção de impostos por cem anos, foi trazida do oriente por Jarbas e sua equipe.

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publicado às 13:58

Espantando o Urubu

por Fernando Zocca, em 23.11.09

 

            - Bando de incompetentes! Se perderam pro Van Grogue, me digam, de quem vocês ganharão? – Pery Kitto bastante irritado tentava convencer o time, formado por meninos, de que eles deveriam lutar sem choradeiras.
            - Mas eles correm muito. - reclamava um jovem desanimado.
            - Olha, veja bem, presta atenção: nem que eu tenha de passar noites inteiras falando na cabeça de vocês, um dia vocês aprendem. Não é com esses corpos moles que vocês vencerão. Assim, não vai não gente. Eu já estou cansado de falar. Mas digo e repito: vou falar e falar até que entendam. Se for preciso passaremos as noites em claro conversando, até que consigam notar que é importante a nossa vitória.
            - Mas seu Pery Kitto, eu acho que essa estratégia não dá muito certo não. Já faz uns quatro ou cinco campeonatos que estamos batendo nessa mesma tecla e nada. A gente só se fodemos.       
            - É que vocês são muito burros. Se fosse no meu tempo já teríamos vencido aquele timeco de vagabundos do Van Grogue. – reforçou Pery Kitto esfregando a camisa 64, na água fria que caia do chuveiro.
            - Mas seu Kitto, o senhor não disse que a turma do prefeito ajudaria o time? Até agora não vi ajuda nenhuma! – afirmou o goleiro desamarrando as chuteiras.
            - O Jarbas é assim mesmo. Eles prometem, mas não cumprem. Eles só falam em licitação, pontes, e recapeamento de ruas que já têm calçamento. Eles pensam no bolso deles e não querem nem saber de time da periferia.
            - Ah, o senhor prometeu que a gente teria ajuda até do deputado Tendes Trame. Mas pelo jeito ele também falhou. – disse choramingando um atacante. – Será que eu vou ter de gritar pra que eles ouçam a gente? – prosseguiu o menino jogando, com raiva, a camisa no banco.
            - Eu só quero mais empenho de vocês. Só isso. Vocês são muito fracos. Assim não tem jeito. – ralhou Pery Kitto acendendo outro cigarro no vestiário.
            De bermudas cinza, camiseta regata azul e chinelos de couro, o treinador caminhava de um lado pro outro pisando nas poças d´água. Quando o homem notou que as crianças fizeram silêncio ele mandou:
            - Eu não quero nem saber. No meu time o cara tem que dizer a que veio. Se não já viu, né? Se não render em campo vai todo mundo bater lata ou puxar carroça. E olha: eu já estou ficando nervoso!
            Um dos meninos foi acometido por um acesso de tosse. O cheiro de suor, a umidade e a fumaça do tabaco tornavam o ambiente bastante impróprio para a saúde.
            - Vocês só querem saber de paçoca e chicletes. Querem bolacha e refrigerante dos bons, mas na hora de mostrar o serviço, ficam com essa má vontade que dá até nojo. Olha como já estou branco de raiva. Eu já falei: se a gente perder pro Van Grogue vocês vão puxar carroça!
            Nesse instante a zeladora fofa do clube, sem se importar se encontraria os meninos nus, entrou no ambiente com um rodo na mão dizendo:
            - Ah, seu Pery Kitto, não seja assim tão duro com as crianças. Quem sabe se o senhor não consegue melhores resultados ao mudar um pouco essa rijeza do coração, trocando o tom cruel das palavras, por uma conversa noturna mais suave?
            - Não adianta dona Emengarda! Eles só querem ver desenho na TV, comer batatinha frita e pronto! Ninguém tem compromisso com nada. Eu é que tenho de me virar espancando amassado o dia inteiro. – respondeu o homem arfando. E depois apontando para as palmas das mãos disse entredentes:
             - Olha como é que está minha mão!
            A zeladora serena que tinha os cabelos pretos e longos enrodilhados atrás, num coque, passava o rodo puxando as águas acumuladas no chão. Ela dizia:
            - Não adianta o senhor brigar desse jeito com a molecada. Deixa eles brincarem um pouco na rua. Eu vejo que o senhor não dá sossego. O senhor fica em cima dessas crianças como se elas fossem escravas. Isso aqui até parece uma senzala. O senhor quer controlar até o pensamento delas. Que maldade seu Pery Kitto! Veja quanto lamento!
            - Eles têm que fazer pro gasto que dão! – reclamava o treinador acendendo outro cigarro.
            - Dá uma folga pras crianças seu Kitto. Desaperta um pouco. Olha, cuidado se não espana! – o tom de voz baixo e grave da Emengarda assustou o homem que tentava conter a tosse.
            Depois que todos tomaram banho e já vestidos com as roupas comuns, caminhando em direção ao veículo, que os levaria de volta pra casa, perceberam que sobre o muro, defronte ao portão do clube de onde saíam, havia um urubu que os espreitava. Ele mantinha as asas abertas, como se as esperasse secar ao sol.
            Pery Kitto nervoso, coçou a cabeça, e num ato incontido atirou no bicho o par de chuteiras que levava nas mãos. Assustado o abutre voou pra longe.
            O goleiro que viu seu instrumento de trabalho se perder no telhado reclamou:
            - Mas justamente minhas chuteiras, seu Kitto?
            Sem dar muita atenção pro menino ele resmungou:
            - Depois te dou outra. – Kitto estava satisfeito: perdera as chuteiras, mas espantara o jereba.
 
 
 
Fernando Zocca.   
 

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publicado às 12:44

A Verdade Sempre Aparece

por Fernando Zocca, em 18.11.09

 

                     Van Grogue bastante apreensivo naquela manhã de quinta-feira, 10 de Dezembro, caminhava lentamente pela rua central de Tupinambicas das Linhas. As notícias dos jornais e das rádios preparavam a população para algo que há muito se projetava no cenário político Tupinambiquence: pelos desmandos, equívocos e desvios das verbas públicas o mandato de Jarbas, o caquético seria cassado.
 
                        Os noticiários davam conta de que o prefeito já fora condenado em primeira instância a deixar o cargo, mas aguardava ansioso o desfecho do próximo julgamento. Tendes Trame, o Fuinho Bigodudo, tia Ambrosina e outros integrantes da seita maligna, que se aboletaram no poder, torciam para que os julgadores se enganassem, livrando a todos da confirmação do castigo.
 
                        Van percebeu a intensidade dos raios solares incidindo sobre a cachimônia exatamente no momento precedente à sua chegada no bar do Maçarico. Ao entrar notou que, além do proprietário, não havia mais ninguém. Sentindo-se aliviado pela sombra refrescante, ele foi logo dizendo:
 
                        - O mandato do prefeito será cassado. Você ouviu as informações Maçarico?
 
                        - Ouvi sim. Está em todos os noticiários das rádios e o Diário Tupinambiquence, geralmente capenga, também confirmou. – respondeu o velho Maçarico limpando o balcão com o guardanapo alvo.
 
                        Com um gesto discreto Van Grogue fez com que o homem lhe servisse antes uma dose média de pinga, e em seguida a cerveja geladíssima.
 
                        Acendendo um cigarro Van de Oliveira preparava-se para expor o que sabia sobre o assunto quando percebeu a entrada afoita do Pery Kitto.
 
                        - Quanta mentira sobre o pobre Jarbas! Vocês não têm mesmo piedade. Imagine só dizer que ele falseia licitações, que prejudica o estado superfaturando ambulâncias, mas isso é um absurdo. – despejou o Kitto pedindo uma cerveja.
 
                        - Constataram que Jarbas, Tendes Trame e o Fuinho Bigodudo, que já têm mais de vinte anos de ocupação nos cargos públicos eletivos, receberam milhares de votos de eleitores fantasmas. – acrescentou Van Grogue à fogueira que se iniciava.
 
                        Maçarico notou que o rosto vermelho e suado do Pery Kitto contraiu-se à semelhança da face do boxeador que recebe um golpe violento no baço.
 
                        - Ninguém tem provas de nada. O povo fala, a imprensa publica, mas não há provas que garantam ser isso tudo verdade. – afirmou com segurança o Kitto.
 
                        - Mas onde há fumaça há fogo. – rebateu Virgulão que chegava com um jornal dobrado debaixo do braço esquerdo. No bolso traseiro direito havia também outro exemplar.
 
                        - Fala Virgulão! Ai está o homem que vende geladeira pra esquimó! – recepcionou Van de Oliveira.
 
                        - Todo mundo comenta que a turma do Jarbas sacaneou os cofres públicos e que está com medo de ser condenada a deixar o governo. – concluiu Virgulão.
 
                        - É. O conceito dos caras ruiu. Eles vão terminar num lugar bem medíocre no ranking dos mais produtivos; da opinião dos eleitores. – arrematou Maçarico abrindo a cerveja do recém-chegado.
 
                        - Vocês estão todos loucos. Ninguém pode afirmar que a vovó Bim Latem, que o Tendes Trame, que o nosso querido Fuinha Bigodudo estejam envolvidos nas fraudes das eleições. Como provarão que eles se valeram de eleitores fantasmas para se manter no poder por tanto tempo? – Pery Kitto era o único que ousava defender a turma do Jarbas.
 
                        - Sabe o que eu acho? Eu acho que existe uma onda muito forte indicando irregularidades na prefeitura de Tupinambicas das Linhas. E não é de hoje. Faz tempo que isso ocorre. O problema, como sempre, é que ninguém consegue sustentar a tese até uma condenação final. Esse é o problema. – Falou Grogue bebendo um gole de cerveja.
 
                        - Esse era o problema! Porque agora eu mesmo vou contar a verdade pra todo mundo. – Depôs com firmeza o Zé Lagartto que chegava pisando com o pé direito a soleira do bar.
 
                        O pessoal todo se espantou com a declaração abrupta.  Silentes eles voltaram-se para o informante  que prosseguiu:
 
                        - É verdade. Fiz parte dessa turma e a ajudei em duas eleições, mas agora cansei. Esse governo do Jarbas é um governo para os ricos. Na sua frente eles são de um jeito, mas às ocultas demonstram outra personalidade. São hipócritas, insinceros, fariseus, incoerentes.Posso dizer que eles têm traços consideráveis da esquizofrenia. Vocês sabem né? Eu manjo dessas coisas. Eles negam merenda escolar e até passe de ônibus para os alunos que residem distante dois quilômetros  das escolas. Assim não dá. Assim não pode. Vou contar tudo.
 
                        - Lagartto, você enlouqueceu! Onde já se viu isso? Um vereador conhecido como o braço direito do prefeito dizendo disparates. Mas você bebeu demais, mano!- Pery Kitto estava indignado.
 
                        - Nada disso. Estou são. Um pouco fora de forma, bastante pesado, mas são. A bem da verdade e para a alegria do povo contarei tudo o que sei sobre as tretas do Tendes Trame, do Fuinha e do Jarbas.  – confirmou Lagartto.
 
                        Pery Kitto, demonstrando muita contrariedade, tirou com um gesto grosseiro o dinheiro do bolso pagando sua conta. Em seguida, bufando, saiu sem dizer nada.
 
                        Van Grogue, Virgulão, e Maçarico felizes da vida,  comemoraram a vitória:
 
                        - Lagartto! Lagartto! Lagartto!
 
 
 
 
Fernando Zocca.
                       
                       

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publicado às 13:58

As revelações de Adam Oly

por Fernando Zocca, em 30.10.09

 

Adam Oly foi um dos provocadores mais sutis de Tupinambicas das Linhas. Você já viu aquele tipo de jogador que, durante uma partida de final de campeonato, ao passar perto do adversário, diz já ter saído com a sua mãe ou irmã?
 
                        Quase ninguém nota. São imperceptíveis as tentações até o momento em que a vítima volta e desfere uma violenta cabeçada no peito do agressor. A expulsão desfalca o time que pode ser derrotado.
 
                        Esse era o “jeitão” de ser do Adam Oly um dos colegas do Van Grogue que vivera até na Inglaterra, onde aprendeu enfermagem. Diziam que o sujeito era perito em tramar estratégias conducentes dos adversários à ruína total.
 
                        Ele buscava saber da vida daqueles a quem se propunha danar, utilizando depois as informações nas armações degradantes. É claro que nem sempre seus ardis funcionavam e não eram mesmo raros os casos em que a frustração lhe custava bem caro.
 
                        Van Grogue estava numa ocasião no bar do Bafão, o mais famoso de Tupinambicas das Linhas, quando se surpreendeu ao ver Adam Oly que entrava depois de muito tempo sem aparecer na cidade.
 
                        - Ora, mas veja quem está aqui, não é outro senão o famoso tocador de violão nas serestas, Adam Oly, que quando era menino gostava de remar, pilotando os botes verdes no rio Tupinambicas das Linhas. – disse esfuziante Van Grogue estendendo a mão em cumprimento ao recém-chegado.
 
                        - Que mané famoso nada! – respondeu Oly mostrando timidez e apertando a mão do Grogue.
 
                        - Dizem que glamour você tem, mas que só lhe falta o dinheiro, é verdade Adam? – provocou Van.
 
                        - Nada disso, meu amigo. – garantiu Oly, puxando uma cadeira e pedindo uma cerveja ao Bafão. – E depois convidando o Grogue - Sente-se comigo aqui.
 
                        Van tirou sua garrafa e copo do balcão e se acomodou com o parceiro que há muito tempo não via.
 
                        - Mas que novidades nos trazes? Faz tempo que chegaste da Europa? – Van estava ansioso por saber das novidades.
 
                        - Que nada. Não estive na Europa. Passei uma temporada na Argentina. Mas como a situação aqui está melhor resolvi permanecer uns dias. – contou Oly sorvendo o seu primeiro gole de cerveja gelada.
 
                        - É verdade que você tinha um irmão vereador aqui em Tupinambicas das Linhas e ele possuía tanto poder que conseguia nomear, transferir e destituir até diretores das escolas estaduais? – a pergunta do Grogue fora tão direta e certeira que Oly quase engastou com a cervejinha.
 
                        - É verdade. Meu irmão foi vereador e por meio da sua influência política ele podia indicar ou até destituir qualquer professor ou diretor de escola. – respondeu Oly com aquela segurança que o passar do tempo lhe proporcionava. - Você sabe,  e eu me lembro muito bem, que houve uma temporada em que o meu mano vereador estava envolvido com quatro eleitores que o encarregaram de induzir o abandono do curso ginasial por um menino filho de um desafeto deles.
 
                        - Ele conseguiu? – indagou Grogue bastante interessado ao mesmo tempo em que deglutia um saboroso gole de cerveja.
 
                        - Conseguiu. Mas para isso ele teve que remover o cidadão que ocupava o cargo de diretor do ginásio, colocar outro de sua confiança e só depois então, por meio de muita pressão fazer o moleque “espirrar” que nem azeitona na ponta do garfo. Confessou Adam Oly.
 
                        - Pô seu irmão era foda hein Oly?
 
                        - Ah o cara era fodido, meu. Pois você não sabe que ele fazia até nego vir dos Estados Unidos atrás de mulher aqui no Brasil? – Oly estava empolgado por ter alguém interessado nos segredos do irmão falecido.
 
                        - Não me diga!  Até isso ele fazia? – Grogue estava atônito.
 
                        - Fazia sim. Olha, ele soube durante aquele tempo em que legislava, por meio de um amigo chamado Emílio, que um sujeito lá nos Estados Unidos tinha muita herança pra receber. Soube também que o herdeiro era meio “pancada” e por isso, com uma mulher conhecida dele – do vereador, meu irmão -  resolveram atrair a vítima até o Brasil. – desabafou Oly.
 
                        - E o herdeiro veio? – perguntou Van Grogue interessadíssimo.
 
                        - Veio. Só que a mulher não o recebeu e ele então já sem dinheiro, não tendo onde ficar e nem ter o que comer, permaneceu na rua onde a turma do hospital psiquiátrico o prendeu. Bom, pra resumir a história, o herdeiro enganado morreu depois de uma sessão de eletroconvulsoterapia e seus irmãos receberam todos os seus direitos.  É claro que pagaram uma comissão fofa pro meu irmão. - Adam Oly sentia-se feliz por ter compartilhado o segredo.
 
                        - Nossa! O cara era foda, mano! – Grogue estava boquiaberto.
 
                        - Você ainda não viu nada. Depois eu te conto mais. Agora preciso ir embora. Espero um e-mail importante e pelo horário já deve ter chegado. – Dizendo isso num tom fraternal Adam Oly abraçou Van Grogue com entusiasmo deixando no boteco um clima de espanto.
 
                        - Você ouviu a história Bafão? – perguntou Grogue.
 
                        - É claro que ouvi. Esse parente vereador do Adam Oly tem muitas semelhanças de personalidade e ideológicas com o Jarbas, Tendes Trame, Zé Lagartto, Fuinho Bigodudo e outros lutuosos de Tupinambicas das Linhas. E é por isso que essa cidade não vai nem pra frente nem pra trás.
 
                        - É isso aí. – garantiu Grogue fazendo um brinde à noite que chegava.
 
 
 
Fernando Zocca.  
 
                       
 
                       

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publicado às 18:54

Maltratando o gambá

por Fernando Zocca, em 27.10.09

 

            Ado Henrique era um sujeito alto, magro, louro, e branquíssimo que amava churrascos temperados só com sal grosso. Ele chegara a Tupinambicas das Linhas de passagem para a capital, mas gostara tanto do lugar que resolveu residir na cidade.
            Depois de mais ou menos trinta dias perambulando pra lá e pra cá, em busca de uma atividade econômica que o pudesse sustentar, ele achou que se se estabelecesse com um bar poderia viver muito bem.
            E foi pensando em adquirir um boteco já tradicional que Ado Henrique entrou, naquela tarde quente de segunda-feira, no bar do Bafão.
            Na mesa pequena que ficava sempre encostada no canto esquerdo, próximo  da porta frontal, estavam Charles mais conhecido como “boca de porco”, que nunca tirava aquela ressequida camisa regata verde-limão, encardida pela graxa e resíduos de tinta; o carroceiro Edbar B. Túrico, que aproveitando a calmaria da hora deixou na calçada a carroça que puxava, para tomar aquela gelada refrescante e, Van Grogue, o mais conhecido biriteiro tupinambiquence. 
            Quando Ado Henrique entrou olhou logo para aqueles prováveis futuros fregueses cumprimentando-os vigorosamente. Era com se um capitão-do-mato, feitor de fazenda monarquista ou general nazista adentrasse ao ambiente para tomar as providências rigorosas contra algumas supostas irregularidades ocorrentes.
            - Boa tarde, senhores! – o tom formal e severo assustou os pingueiros amolecidos, mas não os impediu de responder educadamente.
            Pigarreando Ado Henrique aproximou-se de Bafão, que como sempre, asseava o balcão, passando sobre ele uma toalha alva. O recém-chegado sinalizou ao barman aproximando o indicador do polegar a uma distância que o remetesse à desejada dose de pinga, mandando também com voz solene:
            - E uma cerveja bem gelada!
            O burburinho que havia no ambiente, momentos antes da entrada do ilustre cavalheiro, cessou ante a visão da figura. Em silêncio os copos eram agora levados aos lábios, ao mesmo tempo em que os bebedores observavam as cenas decorrentes.
            Ado Henrique depois de emborcar, de uma só vez, a dose reforçada da “três martelos”, agarrou a garrafa de cerveja pelo gargalo e, ajeitando o copo na outra mão procurou assentar-se à mesa próxima do pessoal que ali estava.
            - Pois ora, veja que Tupinambicas das Linhas é mesmo grandiosa, enorme. Há trabalho para todos que a procuram. Não é verdade? Como é que se chama mesmo o prefeitinho daqui? É Nero? – o atordoamento de Ado Henrique, provocado pela ingesta do álcool, tornava-se já perceptível ao grupo, simultaneamente em que via também o rosto do forasteiro avermelhando-se.
            - Hum... – disse Van Grogue em voz baixa – Pelo jeito a coisa vai desandar.
            Edbar B. Túrico dobrou-se todo sobre o ventre esticando o pescoço para observar a carroça parada ali perto da porta. Ele pensou que se tivesse de sair correndo, não se importaria muito com a carga de papelão que ajuntara.
            Charles tirou do bolso da bermuda o maço de cigarros e, com o isqueiro verde ornado com a figura de uma arara, acendeu um deles,  murmurando algo em tom grave.
               Diziam, os maus beiços pequenos da Vila, que Charles mais parecia um sapo banguela arfante. Mas quem o conhecia sabia ser ele um sujeito tão forte quanto um jumento. E bem burro também.
            Van Grogue tentando manter o clima cordial respondeu, num tom suave, a pergunta do forasteiro:
            - O prefeito daqui chama-se Jarbas. Ele é bem caquético, testudo, gabiru e ratazana de bueiro fedido.
            Ado Henrique então, já não conseguindo distinguir no grupo, aquele que falava, erguendo um copo cheio de cerveja, fez outras altas indagações:
            - É verdade que o presidente da Câmara Municipal já passou mais de vinte e cinco anos no cargo? Por que só ele é reeleito e mais ninguém consegue? Qual é o segredo dessa... Múmia? Como ela consegue isso? É difícil acreditar na existência de cargos municipais eletivos vitalícios. Mas ela é uma prova cabal disso. Qual é mesmo o nome da figura?
            Van Grogue percebeu que apesar das perguntas não terem sido direcionadas a alguém específico, achou que poderia respondê-las a contento e então disparou:
            - O presidente da Câmara Municipal é o José Lagartto, mais conhecido como Zé Lagartto das quebradas. Faz um século que ele é vereador e não larga o “osso” de jeito nenhum. A “carniça fedorenta” não sabe fazer outra coisa. Nunca soube.
            Van Grogue percebeu que Ado Henrique não tinha mais condições físicas para manter a conversação. O homem já babava na camisa vermelha.
            De repente um gambá assustado entrou correndo bar adentro atemorizando a todos os que ali estavam. Então assim como que num passe de mágica, Ado que dormitava sobre os braços dobrados na mesa, acordou irado. O ébrio ao levantar-se com muita rapidez derrubou a cadeira,  manifestando-se em seguida aos berros:
            - Um gambá? Misericórdia! Um maldito gambá? Um gambá sujo aqui dentro? Eu não acredito! – esgoelando isso e segurando a garrafa pelo gargalo, Aldo Henrique corria pelo salão ralhando com todos, tentando matar o animal.
            - Calma, moço. É só um bichinho que saiu ali do campinho de futebol da molecada. Ele já foi embora. Pode ficar sossegado. Não faz mal a ninguém. É um bicho bom. Um bicho gente fina. Pode confiar. – lecionou Bafão preocupado em receber o pagamento das bebidas.
            Aldo Henrique enfiou as mãos nos bolsos a procura do dinheiro. Ele cambaleava, mas depois de localizar algumas notas, jogou-as sobre o balcão. Não esperou o troco saindo logo em seguida com destino ignorado.
            Van Grogue olhou para os amigos boquiabertos e depois de beber o ultimo gole de cerveja, daquela tarde, passou as mãos sobre os cabelos bastos saindo em seguida.
            - Eu não agüento mais Tupinambicas das Linhas – disse ele ao entrar no carro com o qual se mandou para o bairro Floresta.
 
Fernando Zocca.  
  
               
 
 
Visite Piracicaba.
 
             

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publicado às 10:30

Coisa de bêbado

por Fernando Zocca, em 16.10.09

 

Naquela tarde quente de quinta-feira, dez de janeiro, haveria na casa da Luisa Fernanda, mais uma reunião festiva regada com muitos fluídos alcoólicos. Primeiro a chegar, Van Grogue tinha o rosto afogueado e brilhante, sinais indicativos de que já estava “mamado”.
 
A piscina caseira, no fundo do quintal, continha águas turvas e apesar das queixas constantes dos vizinhos, sobre a possibilidade óbvia da disseminação da dengue, Luisa pouco se importava com os reclamos considerados inoportunos.
 
Van foi recebido pela anfitriã, que agindo com certa exaltação eufórica, puxou-lhe uma cadeira metálica componente de um grupo de quatro em cada mesa. Havia um conjunto de cinco mesas brancas também metálicas, dispostas ao redor da piscina verdolenga.
 
Luisa passou a conversar com Grogue, ofereceu-lhe um copo de cerveja e este acendeu um cigarro. Entretidos na conversa foram logo interrompidos pelos demais convidados que chegavam; estes bem descontraídos e à vontade, acomodavam-se nos locais que escolhiam.
 
O clima estava tranqüilo, no ar pairava um aroma de salgadinhos, perfume e cerveja, quando de repente, o poodle da Luisa, tomado por um acesso incontido de agitação, passou a latir desenfreado.
 
Lá em cima do muro, Isauro o vizinho chato, conhecido nos bares do bairro como boca-de-porco, por causa da halitose repugnante, gritava pedindo silêncio.
 
O burburinho emanante da reunião arrefeceu. Todos olharam para aquele ponto inflamado sobre a parede O cachorro continuava latindo.
 
Isauro diante do silêncio que se formou, e torcendo para que a dentadura não lhe escapasse da boca, disse:
 
- Gente, pelo amor de Deus! Eu preciso dormir. Tenho que levantar cedo para pegar no meu serviço. Assim não tem quem agüente.
 
As pessoas voltaram-se umas para as outras e todas buscando, com o olhar para Luisa Fernanda uma orientação, viram pelo gesto que ela fez, que poderiam continuar divertindo-se sem maiores problemas. Que não se preocupassem.
 
Luisa Fernanda girara o indicador da mão direita em torno da orelha do mesmo lado, dizendo com aquilo que Isauro era maluco, e que desmerecia atenção.
 
Isauro calou-se diante da zoada que recrudescia, arrumou os fios rebeldes da peruca nova, descendo então do muro.
 
Mas logo os comensais tensos puderam ver horrorizados que tijolos eram lançados contra eles. Houve um alvoroço, um corre-corre e alguns caíram empurrados por outros.
 
Ameaçando de morte aquela gente toda, Isauro ofegante, por causa do tabagismo, atirava tijolos enormes contra os festeiros sem, no entanto, acertar nenhum em ninguém.
 
Esquivando-se, protegendo-se e sentindo-se seguros, os convivas puderam observar até que ponto ridículo e absurdo a insanidade provocada pelo alcoolismo, analfabetismo, e tabagismo podem levar alguém, apesar da idade avançada.
 
Isauro vestia uma bermuda verde suja, um par de chinelos rotos e uma camiseta azul sem mangas. Seu rosto congestionado indicava intoxicação; ele só não invadiu a casa da Luisa Fernanda por absoluta falta de preparo físico. A taquicardia e taquipnéia impediram-no de coordenar os pensamentos e, o máximo que ele podia pronunciar para a vizinha era a frase: “vou te matar”.
 
Na verdade Isauro estava louco, impregnado pela pinga ruim, cerveja de garrafa com tampinha enferrujada e cigarros baratos.
 
Apesar dos esforços da Luisa Fernanda, feitos para impedir a debandada, não houve mesmo jeito.
 
A festa acabara e a reunião fora desmanchada num clima lúgubre de revolta que se apoderou das pessoas. Todos foram embora indignados.
 
Arrasada, envergonhada e prometendo revanche, Luisa Fernanda sentou-se ao seu teclado, onde passou a dedilhar velhas melodias.
 
Ela tocava de ouvido e apesar do medo que sentia, diante de uma outra provável investida de Isauro, deixou-se levar pelo encantamento dos sons mágicos.
 
No dia seguinte Luisa, ainda bem ressentida, tratou logo de esquecer as ocorrências partindo, bem cedo, para a academia onde dançaria boa parte do tempo.
 
 
Fernando Zocca.

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publicado às 14:39


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