Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


A Janela

por Fernando Zocca, em 23.09.10

 

                               Van de Oliveira Grogue caminhava atordoado, pela calçada esburacada, naquela quarta-feira, do final de agosto; ele seguia rumo ao bar do Bafão, como os demais colegas que também chegavam junto. O relógio marcava meio dia.

 

                Usando pantufas verdes, Van pisou com o pé direito no degrau da porta do boteco. E se não fosse pelo tropeção que dera, depois do primeiro passo dentro do estabelecimento, poder-se-ia dizer ser triunfal, aquele seu ingresso.

 

                Com um guardanapo no ombro esquerdo, Bafão sentiu que se não tivesse calma, naquele dia o ambiente tornar-se-ia bastante hostil.

 

                Van de Oliveira, com um gesto de quem pede a pinga usual, fez Bafão deixar de assear o tampo do balcão e o servisse com a bebida.

 

                Antes mesmo de pegar o seu copo Grogue achegou-se a uma das mesas postadas próxima a janela, onde estava Edgar D. Nal, que sorvia com calma, a sua cerveja geladíssima.

 

                Ante a presença do colega que se aproximava, D. Nal bateu ostensivamente com o indicador da mão direita no cigarro, fazendo a cinza cair sobre o cinzeiro fixado no centro da mesa.

 

                Grogue então se sentou dizendo:

 

                - Mas que baita calor. Não suporto!

 

                - Também com essas pantufas verdes. Nunca vi ninguém sair pro boteco usando isso. – respondeu Edgar.

 

                - É que não achei meu tênis. Estava com pressa de vir pra cá. Perdia hora, por isso pus a primeira coisa que me apareceu.

 

                Trazendo uma dose de pinga, a garrafa de cerveja e o copo limpo, Bafão aproximou-se. O guardanapo sobre o ombro direito, quase caiu quando ele se inclinou para servir o freguês.

 

                Numa talagada Van ingeriu a pinga. E depois ao encher o outro copo com a cerveja, foi dizendo:

 

                - Você não sabe o que me aconteceu. – ante a curiosidade do Edgar, estampada no seu próprio rosto, Grogue prosseguiu – Me disseram que a Cleide... Lembra dela?... dava pra todo mundo. Eu não acreditei, mas os dois caras, tanto o Tonhão quanto o Zezinho garantiram que ela dava, assim, numa boa, pra quem pedisse.

 

                Edgar D. Nal engasgou com a fumaça que acabara de aspirar, mas logo ingeriu outro gole de cerveja, preparando-se para as novidades. Grogue então prosseguiu:

 

                - Eu acreditei e resolvi falar com ela. Num dia qualquer, eu que estava dentro de casa, ouvi a voz da Cleide que vinha pela calçada e se aproximava da minha casa. Então corri, peguei uma cadeira e a pus debaixo da janela.  Fiquei na espreita. Quando a gostosa passou eu a chamei. Ela parou, virou-se, voltou alguns passos e olhou diretamente para mim. Dai eu disse: Ocê não quer dar pra mim?

 

                Edgar tossiu quase perdendo o fôlego. Bafão, que servia outras pessoas, derrubou um copo vazio sobre o balcão, e o gato preto que morgava na soleira, arrepiou-se todo.

 

                - Bom – continuou Van Grogue – ela então respondeu: “Mas como assim? Dar o quê pra você? Ocê está louco? Cadê a sua mulher, canalha? Chama lá a sua mulher que eu quero falar com ela”. Depois que ela disse isso em voz alta, chamando a atenção da vizinha da direita, da esquerda, da frente e lá da esquina, eu quase morri de vergonha. Abaixei a cabeça, ali mesmo na janela, e entrei vexado.

 

                - Mas você è uma besta mesmo! Onde já se viu acreditar no diz essa gente daqui. – censurou Edgar.

 

                - Você acredita que a mulher ficou um tempão a vociferar diante da minha casa? Nossa! Eu quase faleci acanhado – confessou Van Grogue.

 

                - Foi uma aprontada que armaram pra você. Só pode ter sido.

 

                - É mesmo. Era uma armação de gente magoada. – concluiu Grogue depois de um longo tempo que passara a segurar o copo diante dos lábios.

 

Texto revisado em 24/09/2010

 

           

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:46

O ESPELHO

por Fernando Zocca, em 10.07.10

Quando Van Grogue passava da conta nas biritagens, confundia tudo, como todo mundo sabe. Mas o baralhameto que fazia naquele julho já distante, causava desgosto intolerável em quem esperava dele um pouco mais de sensatez.

 

Van estava num estágio que misturava essa manta com Samanta e, sem chance com seu Sanches; temeroso que os crimes incendiários do PCC fizessem vítimas entre os usuários das marinetes de Tupinambicas das Linhas, só andava a pé.

 

Mas durante as caminhadas ele se lembrava pesaroso do tempo em que tinha carro. Recordava-se do velho Corcel II desmilinguido, descorado, manchado e sem o gradil protetor do radiador, evocativo duma face banguela.

 

Grogue sempre foi um motorista impetuoso. Antes de sair, penetrava com vigor a chave naquele receptáculo frágil, girando com energia o instrumento. Depois que se sentava e, sentindo-se dono da situação, batia com força a porta do corredor.

 

Ele sabia que pra lhe dar sorte tinha que socar a peça no mínimo umas três vezes. Acelerava ao máximo o motor vetusto e disparava a buzina duas vezes antes da arrancada. "Era fogo na caixa d água!" sentenciara certa vez sua mãe barriguda.

 

Quando Grogue se penteava pela manhã naquele espelho quadrado do armário do banheiro, nunca supunha estar sendo vigiado por algum olho oculto.

 

Mas num belo dia percebeu que as notas que tomava nos velhos papeis guardados vinham sendo manifestadas por agentes da seita maligna do pavão-bem-louco.

 

Eram feedbacks negativos com os quais Van julgava quererem, os membros da seita impiedosa, impedi-lo de se manifestar.

 

Ora, Grogue podia ser tudo, menos estuprador e autista. Por isso sua expressão não poderia ser barrada nem mesmo sob o impacto duma cacetada no lado esquerdo do cocuruto.

 

Sem insulto à velha área do tio Broca, inexistiam motivos para impedimento justo; mesmo que o corte no couro cabeludo tivesse de ser costurado com dois ou três pontos.

 

Van Grogue realmente, quando o frio aumentava e tudo nele se contraia, ficava sujeito às lembranças do tempo em que sua velha e fofa mãe botava os três irmãos pra tomarem banhos juntos. Eram banhos coletivos e naquela situação em que todos se viam tal qual Adão e Eva no paraíso, a libido se manifestava.

 

Como o Grogue era mais velho, mandava sempre os mais novos pegarem o sabonete por ele, às escondidas, lançado ao solo. Essas atitudes feriram a suscetibilidade do Vermelho, um dos novos e fez dele um inimigo secreto do pobre Grogue.

 

Mas naquele julho Grogue extrapolara os limites viajando na batatinha e na maionese vencida. O infeliz misturava gaze com gás, gás com gasolina e Bahia com baia. Podia uma coisa dessas? "Ah... Capone vê se te emenda!" teria gritado uma vizinha já de saco cheio com os procedimentos ingênuos dele.

 

Grogue tinha consciência que as atitudes impeditivas da expressão do seu pensamento eram iguais a repulsa e negação do seu comportamento lá no banheiro. Tudo que vinha do Grogue suscitava aversão semelhante àquela havida durante os primeiros folguedos infantis debaixo das águas tépidas e vaporosas do chuveiro elétrico.

 

Ao entrar no boteco da tia Lucy Nada, Van encontrou a esperá-lo o Giam D. Bruce, Noecir Ponteiro e Narcíseo M. Artelo. O trio queria sacar-lhe o couro à semelhança do que faziam os caçadores aos jacarés, sapos e cobras.

 

Após deglutir a “dindinha” perguntou aos boquiabertos espectadores: "O que foi? Nunca viram não? Ao invés de cercar, não seria melhor me arrumar um emprego, um serviço?"

 

Depois de pagar o consumido Grogue saiu do boteco com uma idéia fixa na cabeça: tinha que saber tudo sobre a tal da morfologia flexional. Esse, daquele dia em diante, seria o canal.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:42

O Devasso

por Fernando Zocca, em 06.05.10

                          -  Seu marido anda pulando a cerca, minha amiga? Você sabe quem seria a sirigaita? Ora neném não se apoquente. Não precisa ficar nervosa, neurótica, depressiva ou buscar ajuda lá no doutor Silly Kone. Nada disso. Relaxa e releve.

                        As palavras de consolo eram ditas por Van de Oliveira Grogue à Elza. Ambos partilhavam o almoço num local reservado do Bar e Restaurante do Bafão, o pioneiro em servir as primorosas e famosíssimas bistecas grelhadas de Tupinambicas das Linhas.

                        - Sabe que a tal zinha pode até ser casada? E se for mesmo você pode estar à beira de um escândalo daqueles! – profetizou Grogue sorvendo um gole generoso de cerveja.

                        - Essa carne está dura demais. – reclamou Elza. - Eu prometi que nunca mais comeria carne vermelha, mas não consigo segurar  a vontade.

                        - Não se preocupe. Quem não come carne pode ficar anêmico. Sabe aquela cor pálida, o emagrecimento exagerado e a falta de ânimo? Então, isso pode ser consequência da carência de carne vermelha.

                        - Mas que ódio! Veja só as minhas olheiras! Faz 15 dias que não durmo direito. Veja as manchas escuras nos meus braços. – Elza falava e mostrava os cotovelos depois de ter apontado as nódoas arroxeadas debaixo dos olhos. Estou me acabando com tanto sofrimento. Eu nunca traí o sacana. Sempre tive o maior respeito pelo cara e olha o que eu ganhei. No meu prédio todo mundo sabe que o galinha anda com vadias.

                        - Não fica assim não Elza, minha querida. Olha, beba mais um pouco de cerveja que ajuda a acalmar. E, perceba, você não comeu a salada. Não gosta de alface? – Van parecia mesmo preocupado com a saúde da amiga.

                        - Estou emagrecendo por causa do nervoso. Já notei até pelancas. Está vendo aqui ó, debaixo do braço? Isso não é pelanca? – A moça tinha o tom choroso na voz.

                        - Para com isso. Imagina que uma princesa como você pode ter pelancas nessa idade. Mas nem 10 chifres do safado arreliado podem te fazer isso. Ora veja. – Acalmou Grogue pigarreando em seguida.

                        - Sabe Van me contaram que a mulher com quem o infeliz me trai é casada e tem dois filhos. – confidenciou a moça em tom baixo e lamentoso. – E que a filha da puta é empregada doméstica. – concluiu a traída.

                        - Não, não, não. Não se desespere, não faça nada que possa te comprometer. Talvez você se sinta melhor se pagar na mesma moeda. Entende?

                        - Não sei se tenho coragem. Nunca fiz isso em toda minha vida. – rebateu Elza ao tocar os lábios com um guardanapo.

                        - Eu não te aconselho a fazer coisas erradas. Se você quiser eu mesmo chamo o devasso e conto a ele que você já sabe de tudo. Ih, olha lá quem vem chegando. – Van fez um gesto com a mão chamando a atenção do moço que acabara de entrar no recinto.

                        O rapaz alto, esbelto e muito bem vestido, ao perceber o amigo sentado à mesa, com uma jovem, se aproximou.

                        - Olá Mauro, como vai? Você conhece a Elza? – perguntou, em tom cordial, o Van de Oliveira. E depois: - Elza, esse é o meu amigo Mauro. – ambos cumprimentaram-se deixando transparecer interesse mútuo. - Você não quer sentar-se? – arrematou Van Grogue.

                        Para a sofrida Elza que nunca esperara uma traição por parte daquele marido, a quem dedicara todo o afeto do mundo, abria-se a oportunidade de encontrar o tão esperado equilíbrio.

 

 

Alunos de 35 nacionalidades acolhem Presidente

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:36

O Guizo da Cascavel

por Fernando Zocca, em 26.01.10

 

         - Van Grogue, carne de pescoço podre, por onde andaste? Sumiste que nem pensão de aposentado pelo INSS. – gritou lá do fundo do boteco Charles Bronchon ao ver o amigo que entrava.
         Bronchon estava alcoolizado e o seu tom de voz pastoso, era indicativo de que há muito tempo bebericava, naquele princípio de tarde, no bar do Maçarico.
         Grogue imaginou rapidamente uma resposta, mas por desejar beber a sua cerveja, em sossego, considerou ser melhor reagir com um aceno.
         Porém a tentativa de manter-se à distância foi frustrada pela teimosia do Bronchon que, descolando-se do balcão, onde se encostara, aproximou-se cambaleante do Van de Oliveira.
         - Você sabe que eu te amo, vigarista tupinambiquence. Mas por que foges de mim? – Bronchon abraçado ao Grogue falava-lhe encostando os lábios no seu cangote.
         Van desvencilhou-se e cumprimentando, à distância, o Maçarico que a tudo observava com apreensão, limpava o balcão com um guardanapo límpido.
         - Mas que baita fogo, hein? – brincou Grogue dirigindo-se ao Maçarico, ao mesmo tempo em que fazia, com gestos, o seu pedido.
         - Fogo? Que fogo? Chama os bombeiros! – reagiu Bronchon.
         - Você não presta Bronchon. – afirmou Maçarico servindo Grogue com a mais pura cerveja gelada.
         - Eu não presto, mas dou um lucro terrível pra esse cortiço. É verdade ou mentira? – rebateu irado o Charles. Seu rosto avermelhara-se e seus punhos crisparam-se.
         - Lucro, que mané lucro? Está devendo há seis meses e nem assim se toca. Qual é mano? – Maçarico falava decidido a pôr um fim na relação.
         - Pois fique sabendo que eu vou pagar minha conta toda agora! Faça-me o favor de somar tudo!
         Maçarico colocou o guardanapo sobre os ombros e abrindo uma gaveta, do lado esquerdo do balcão, sacou de lá um caderno escolar de mola. Ele o folheou até a certa altura, parou, voltou folheando, às páginas iniciais e ai sim, achou as anotações que se referiam ao Bronchon. Com uma calculadora chinesa, adquirida no camelódromo, iniciou a contabilidade.
         - Fique sabendo que eu sou catedrático e já dei aulas pra milhares de alunos. Morei nos Estados Unidos, me casei lá, e tenho doze filhos que me amam. Oceis não sabem com quem estão mexendo, seus burros! – desafiou Bronchon com o indicador da mão esquerda levantado.
         - Calma Charles. O cara está fazendo os cálculos. Fique quieto se não, ele erra a conta e você paga a mais. – manifestou-se Van Grogue tentando serenar o agitado Bronchon.
         - E além do mais eu pinto de um jeito que ninguém neste mundo de meu Deus, consegue pintar. O quê? Vocês enlouqueceram todos!
         Maçarico terminou os cálculos e os apresentou ao nervoso e barrigudo Charles Bronchon. Este apanhou o papel e tentando distinguir os numerais que ali havia, percebeu que era-lhe impossível enxergar.
         - Esta conta está errada! – esbravejou o cachaceiro.
         - Não está errada, não. São exatamente R$ 918 que me deves. – asseverou Maçarico com o semblante firme.
         Bronchon retirou do bolso traseiro o talão de cheques. Estava amarrotado, mas continha três folhas íntegras. Ele então o entregou ao Maçarico pedindo-lhe que preenchesse uma delas.
         - Mas não vai errar, hein! – pediu, com certa ênfase, o Bronchon.
         Maçarico escreveu os valores passando o talão ao seu proprietário para que assinasse.
         Charles colocando o documento bem próximo dos olhos pôde confirmar a exatidão do que estava ali grafado; sacou em seguida uma caneta escrevendo o seu nome.
         Quitada a dívida, Bronchon resmungando, deixou o ambiente.
         - Você sabia que esse cara fotografou a namorada nua e depois colocou as fotos na internet? – perguntou Maçarico ao Van Grogue.
         - Ele fez isso? Mas que cara louco, meu. – reagiu Van de Oliveira.
         - Fez sim. Umas dez vezes. Quase acabou com a moral da moça. Mas olha que cara cafajeste! – Maçarico estava indignado. Ele esfregava com força o guardanapo no balcão. - Ela precisou mudar de cidade, imagine só!
         Enquanto os dois homens conversavam um alarido formou-se na rua bem ao lado do boteco. As pessoas se aglomeravam defronte ao terreno baldio e falavam alto. Umas pediam pra cortar e chupar o ferimento, enquanto que outras gritavam pra que alguém chamasse uma ambulância.
         Curiosos Van Grogue e Maçarico saíram à porta do bar.
         Populares observavam o homem caído sobre a erva daninha que encobria o terreno vizinho. Era Charles Bronchon que, ao adentrar na mata pra fazer xixi, fora picado por uma cascavel de guizo grande.
         - Está morto! – exclamou Van Grogue.
         - Realmente! Isso é pra deixar de ser besta e fazer maldade para as pessoas. - confirmou Maçarico secando as mãos com o guardanapo.
 
Fernando Zocca.  
    
        
        
             

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:21

O Pé da Gogo

por Fernando Zocca, em 04.12.09

 

Glauco Nergam, no sábado à noite, na praça central de Tupinambicas das Linhas, sentado num daqueles bancos sujos, desgostoso, dizia ao atento Van Grogue:
 
- Então eu falei para a solteirona: o que mais poderia você fazer, minha amiga, do que maldizer seus vizinhos?
 
Van Grogue sabia que quando Nergam começava a falar sem interrupções, o tempo preenchido seria de no mínimo duas horas. Por isso era aconselhável redirecionar sua linha de raciocínio, trocando rápido de assunto. Então Grogue mandou:
 
- Quem procura acha: Sandra Gogo parente da Amélia benzedeira, cheia de curiosidade, foi xeretar num consultório médico. Presa pelas teias do destino só saiu depois de vinte anos. Acorrentada por antidepressivos, a infeliz contribuiu mensalmente com metade do seu salário, para o enriquecimento desarrazoado do excelentíssimo senhor professor doutor Asclépio. As idéias da seita maligna do pavão-louco serviram para mobilizar muitos ingênuos na fustigação da Sandra Gogo considerada por vizinhos como doente moral.
 
Glauco percebeu que seu próprio facho arrefeceu. Então ele perguntou:
 
- Sandra, que Sandra... a do lombo?" Grogue respondeu:
 
- Sim.. a do lombo... E que lombo!
 
 Enquanto ambos trocavam idéias, luzes, lembranças, as pessoas passavam apressadas diante deles. Alguns traziam nas mãos exemplares do jornal mais lido na região.
A cidade provinciana não produzia novidade que justificasse a presença de muitos veículos de comunicação social. Por isso o Diário de Tupinambicas das Linhas, comandado pelo poeta Zé Cílio de Morais influía soberano em todos os assuntos. Na política, quem tivesse a sorte na obtenção da simpatia do proprietário, teria meio caminho andado no conseguimento dos objetivos. Na moda, a mesma coisa. Uma verdade era certa: sem o Diário de Tupinambicas das Linhas era impossível difundir idéias, conceitos e vender produtos.
 
- Numa ocasião alguns adversários políticos do Zé Cílio, não encontrando outra forma de fazer frente ao seu domínio, lançaram no caminho dele a Sandra Gogo. Eles se conheceram no dia 17 de julho, um domingo.
 
 Glauco Nergam perguntou cheio de curiosidade:
 
- Por que escolheram justamente a Sandra Gogo?
 
 Van respondeu rápido:
 
- Por causa dos pés dela. Zé Cílio era fetichista. Gostava de pé.
 
Van continuou:
- Depois do envolvimento emocional de ambos, a mulher do Zé o abandonou. Então, só naquele momento, o Diário de Tupinambicas das Linhas balançou. Quase foi a pique. A história foi registrada como o pé que, por pouco, não demoliu um império jornalístico, o pé da Gogo. Rarará.

Grogue e Nergam acendiam seus respectivos cigarros, quando viram Narcíseo M. Artelo encostando o Volks branco placas MFA 1990 ao meio fio. Narcíseo aproximou-se e falou a novidade:
 
- Internaram o Edbar B.I. Túrico de novo. - Nergam quis saber mais sobre o assunto:
 
 -Mas por que motivo? Narcíseo respondeu categórico:
 
- Dizem que ele é doente moral. Ele mostrou o bilau pra filha do motorneiro e depois se recusou a casar. - Foi então que o Van Grogue arrematou:
 
- Pô, mas por causa de um cacetinho tão insignificante daqueles, internaram o cara duas vezes? Deve ter havido estupro. - Narcíseo honesto respondeu:
 
- Não houve; ele não pôs nem a cabeça do pintinho. Só mostrou pra ela. E pelo jeito ela não se constrangeu. O que ela queria era casar. - Glauco num tom professoral sentenciou:
 
- A moral do trecho é assim mesmo. Pelo menos poderia ter fincado a vara. - Narcíseo disse:
 
- O pai da menina é fera. Ele freqüenta as sessões noturnas da seita maligna do pavão-louco. Deu no que deu, tá vendo? Arrumaram fumo pro cachimbo do cara, pensando que ele fez maldade pra ela. Eu soube que a vereadora D.Tinha Pénellas e o prefeito parente do Jarbas influíram facilitando a internação do Edbar.

Muitos consideravam Tupinambicas das Linhas um lugar onde se praticava injustiças graves. Glauco Nergam encerrando o assunto revelou:
 
- Vejam como é a justiça imperante aqui no trecho: Pitirim Zorror com o desabamento do seu sobrado destruiu tanta gente e não lhe aconteceu nada. Por outro lado um pobre infeliz que por ter mostrado um pintinho de merda sofreu toda essa perseguição descabida. Mas pode uma coisa dessas?
 



Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:02

O Cru e o Cozido

por Fernando Zocca, em 03.11.09

 

Com muita alegria no coração e bastante desprezo na alma, era assim que o titio malvado e o priminho do Van Grogue o trataram quando se viram a sós com ele, na sala mal arejada do pequeno apartamento no Centro de Tupinambicas das Linhas.
 
                        O ódio todo que compunha aquelas estruturas do adulto agressor, impossibilitado de se dissolver nas agressões contra o pai do menino ingênuo, voltava-se contra o fofinho, retardado mental, que a tudo suportava, sem conhecer a etiologia da insensatez dos prejudicados.
 
                        Eles estavam no apartamento modesto situado numa das ruas centrais mais movimentadas da cidade, no final da década de 1960. O marmanjo frustrado, agressor de criança, vivera um passado em que, na gandaia permanente, perambulava de bar em bar buscando a felicidade. Encontrara no jogo de baralho um lenitivo para sua angústia, loucura e violência.
 
                        Diziam que durante um momento da vida errante que tivera, o tio do Grogue perdera, no carteado, parte da fortuna deixada por seu pai, - avô do menino -. E que numa tentativa vã de se estabelecer por contra própria, iniciara uma empresa comerciante do mais puro café tupinambiquence.
 
                        Mas por ser necessário muito juízo e bom senso, a quem quisesse se firmar no comércio, falhou logo a empreitada do tio perverso. De derrocada em derrocada, não tinha como explicar sua impotência se não a atribuísse à incúria do pai do Grogue.
 
                        E como não conseguia atingir o próprio irmão, valia-se do menino tonto,  descarregando nele as tensões das frustrações. Groguinho, por sua vez, ante as constantes situações em que se via humilhado, buscou aprender novas habilidades que pudesse demonstrar, obtendo respeito.
 
                        Foi nessa época que Groguinho comprou e leu “O Cru e o Cozido” do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.
 
                        O tio do Van, quando viu a obra, que o menino lhe mostrava, ali naquela sala mal ventilada, pensou tratar-se de um livro de culinária e lhe perguntou se faria o cozido no forno do seu fogão quatro bocas. E percebendo o vacilo do menino, o tio feroz disse:
 
                        - Se você não souber cozinhar chame logo a Claudete. Você conhece a Claudete?
 
                        Quanta maldade! Os covardes, sem dúvida nenhuma, seriam capazes de, em atos puros de vingança, se aproximar do leito do paciente de recente cirurgia cardíaca, provocando-lhe a morte ainda na UTI.
 
                        A questão que não queria calar na mente do menino retardado era: estariam certos os herdeiros prejudicados, em praticar maldades às ocultas, contra seus primos e sobrinhos, diante dos prejuízos que sofreram?
 
                        É claro, nobre leitor, que os cruéis julgavam agir de forma correta diante das injustiças que padeceram. E foi assim, com essa convicção, que disseminaram durante dezenas de anos, os venenos mortais contra Groguinho, seus irmãos e tios, na cidade, matando-lhes a alma.
 
                         As ações praticadas pelos ruins poderiam ser traduzidas assim: “Quero o que me pertence, mesmo que isso implique na morte ou na doença de quem o possua”.
 
                        Muito macho isso, não?
 
 
Fernando Zocca.
                          

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:44

As revelações de Adam Oly

por Fernando Zocca, em 30.10.09

 

Adam Oly foi um dos provocadores mais sutis de Tupinambicas das Linhas. Você já viu aquele tipo de jogador que, durante uma partida de final de campeonato, ao passar perto do adversário, diz já ter saído com a sua mãe ou irmã?
 
                        Quase ninguém nota. São imperceptíveis as tentações até o momento em que a vítima volta e desfere uma violenta cabeçada no peito do agressor. A expulsão desfalca o time que pode ser derrotado.
 
                        Esse era o “jeitão” de ser do Adam Oly um dos colegas do Van Grogue que vivera até na Inglaterra, onde aprendeu enfermagem. Diziam que o sujeito era perito em tramar estratégias conducentes dos adversários à ruína total.
 
                        Ele buscava saber da vida daqueles a quem se propunha danar, utilizando depois as informações nas armações degradantes. É claro que nem sempre seus ardis funcionavam e não eram mesmo raros os casos em que a frustração lhe custava bem caro.
 
                        Van Grogue estava numa ocasião no bar do Bafão, o mais famoso de Tupinambicas das Linhas, quando se surpreendeu ao ver Adam Oly que entrava depois de muito tempo sem aparecer na cidade.
 
                        - Ora, mas veja quem está aqui, não é outro senão o famoso tocador de violão nas serestas, Adam Oly, que quando era menino gostava de remar, pilotando os botes verdes no rio Tupinambicas das Linhas. – disse esfuziante Van Grogue estendendo a mão em cumprimento ao recém-chegado.
 
                        - Que mané famoso nada! – respondeu Oly mostrando timidez e apertando a mão do Grogue.
 
                        - Dizem que glamour você tem, mas que só lhe falta o dinheiro, é verdade Adam? – provocou Van.
 
                        - Nada disso, meu amigo. – garantiu Oly, puxando uma cadeira e pedindo uma cerveja ao Bafão. – E depois convidando o Grogue - Sente-se comigo aqui.
 
                        Van tirou sua garrafa e copo do balcão e se acomodou com o parceiro que há muito tempo não via.
 
                        - Mas que novidades nos trazes? Faz tempo que chegaste da Europa? – Van estava ansioso por saber das novidades.
 
                        - Que nada. Não estive na Europa. Passei uma temporada na Argentina. Mas como a situação aqui está melhor resolvi permanecer uns dias. – contou Oly sorvendo o seu primeiro gole de cerveja gelada.
 
                        - É verdade que você tinha um irmão vereador aqui em Tupinambicas das Linhas e ele possuía tanto poder que conseguia nomear, transferir e destituir até diretores das escolas estaduais? – a pergunta do Grogue fora tão direta e certeira que Oly quase engastou com a cervejinha.
 
                        - É verdade. Meu irmão foi vereador e por meio da sua influência política ele podia indicar ou até destituir qualquer professor ou diretor de escola. – respondeu Oly com aquela segurança que o passar do tempo lhe proporcionava. - Você sabe,  e eu me lembro muito bem, que houve uma temporada em que o meu mano vereador estava envolvido com quatro eleitores que o encarregaram de induzir o abandono do curso ginasial por um menino filho de um desafeto deles.
 
                        - Ele conseguiu? – indagou Grogue bastante interessado ao mesmo tempo em que deglutia um saboroso gole de cerveja.
 
                        - Conseguiu. Mas para isso ele teve que remover o cidadão que ocupava o cargo de diretor do ginásio, colocar outro de sua confiança e só depois então, por meio de muita pressão fazer o moleque “espirrar” que nem azeitona na ponta do garfo. Confessou Adam Oly.
 
                        - Pô seu irmão era foda hein Oly?
 
                        - Ah o cara era fodido, meu. Pois você não sabe que ele fazia até nego vir dos Estados Unidos atrás de mulher aqui no Brasil? – Oly estava empolgado por ter alguém interessado nos segredos do irmão falecido.
 
                        - Não me diga!  Até isso ele fazia? – Grogue estava atônito.
 
                        - Fazia sim. Olha, ele soube durante aquele tempo em que legislava, por meio de um amigo chamado Emílio, que um sujeito lá nos Estados Unidos tinha muita herança pra receber. Soube também que o herdeiro era meio “pancada” e por isso, com uma mulher conhecida dele – do vereador, meu irmão -  resolveram atrair a vítima até o Brasil. – desabafou Oly.
 
                        - E o herdeiro veio? – perguntou Van Grogue interessadíssimo.
 
                        - Veio. Só que a mulher não o recebeu e ele então já sem dinheiro, não tendo onde ficar e nem ter o que comer, permaneceu na rua onde a turma do hospital psiquiátrico o prendeu. Bom, pra resumir a história, o herdeiro enganado morreu depois de uma sessão de eletroconvulsoterapia e seus irmãos receberam todos os seus direitos.  É claro que pagaram uma comissão fofa pro meu irmão. - Adam Oly sentia-se feliz por ter compartilhado o segredo.
 
                        - Nossa! O cara era foda, mano! – Grogue estava boquiaberto.
 
                        - Você ainda não viu nada. Depois eu te conto mais. Agora preciso ir embora. Espero um e-mail importante e pelo horário já deve ter chegado. – Dizendo isso num tom fraternal Adam Oly abraçou Van Grogue com entusiasmo deixando no boteco um clima de espanto.
 
                        - Você ouviu a história Bafão? – perguntou Grogue.
 
                        - É claro que ouvi. Esse parente vereador do Adam Oly tem muitas semelhanças de personalidade e ideológicas com o Jarbas, Tendes Trame, Zé Lagartto, Fuinho Bigodudo e outros lutuosos de Tupinambicas das Linhas. E é por isso que essa cidade não vai nem pra frente nem pra trás.
 
                        - É isso aí. – garantiu Grogue fazendo um brinde à noite que chegava.
 
 
 
Fernando Zocca.  
 
                       
 
                       

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:54

Sem sunga

por Fernando Zocca, em 29.10.09

 

Van Grogue na manhã de sexta-feira, no boteco do Bafão, sacou um cigarro do maço e acendeu-o com maestria. Levantando o cotovelo na altura da cabeça, segurou o pito com os dedos médio, indicador e polegar da mão direita. Mantendo então em paralelo a bagana e o chão, levou-a a boca, aspirando profundamente a fumaça.
 
Quando a soltou percebeu que os insetos voadores do local sofreram turbulência nos seus vôos. Muriçocas, pernilongos, moscas e pequenas borboletas perderam altitude despencando com perigo rumo ao chão.
 
Sorumbático pôs-se a pensar na causa de estar Tupinambicas das Linhas em retrocesso. Foi então que ele viu um menino vestido com a camisa da seleção brasileira de futebol chutando uma bola na parede da casa vizinha ao bar do Bafão. Notou o Isaac Newton tupinambiquence que a pelota voltava quando encontrava obstáculo maior do que ela. Então era assim: o desenvolvimento da urbe parava e regredia por não ter capacidade para seguir adiante.
 
De fato! Tupinambicas das Linhas, sob comando do Jarbas bigodão, caquético-testudo, dava sinais de retorno ao passado. As reformas feitas nas praças públicas pela prefeitura, financiadas por latifundiários, traziam os desenhos dos tempos em que o povo, por não ter TV em casa, caminhava em círculos, em torno do jardim central. Era uma distração provinciana.
 
Alguns antropólogos afirmaram ter o movimento circular daqueles habitantes de Tupinambicas das Linhas a origem no gesto de girar o indicador em volta da orelha, sinalizador da loucura.
 
Alguns diziam que só faltava mesmo o empresário Pitirim Zorror reconstruir o edifício Luiz de Queiroga, desabado em meados do século XX, quando matou muita gente. A maioria dos observadores duvidava de que até Freud pudesse explicar a ocorrência do fenômeno retrocedente.
 
Servino Pires constrangido por estar perdendo hora, entrou apressado no boteco. Ele havia prometido ao amigo Van que lhe traria, antes das dez, um elmo verdadeiro. Bafão  ao ouvir dias antes a história não deu importância ao fato, classificando-o como coisa de pingueiro.
 
Pires aproximou-se do amigo e disse: "Eu queria vir antes, mas não deu. Fiquei enrolado com o fusca branco do meu irmão. Ai eu pensei: já já eu vou. Mas não vim. Quando fiquei livre apareceu minha irmã querendo que eu a levasse de carro ao clube. Ai eu fiquei brabo e sai correndo. Esqueci o elmo.”
 
Van Grogue escorado com o cotovelo esquerdo sobre o balcão, apoiado no pé esquerdo, folgava tendo o direito relaxado sobre a ponta do sapato. Ele olhou Servino Pires de alto a baixo e bateu a cinza do cigarro com o indicador direito. Queria ver notado o seu desdém.
 
Charles boca-de-porco passou "pisando em ovos" defronte ao boteco. Temia ser visto. Ele devia mais de R$ 500 só de pinga e a oficina de conserto de sapatos não rendia nada. O pessoal vinha, trazia o serviço, mas não voltava para pegar os calcantes.
 
Em volta da garrafa, que Servino mandou abrir, procuravam os parceiros desenvolver a prosa boa. Mas um sacripanta abusado, com estardalhaço, manejava uma furadeira na casa ao lado, tentando abrir rombo no batente de peroba. O zunido abafava a conversa dos mortais desejosos de momentos descontraídos.
 
Van Grogue acendeu outro pito e percebeu que o falar alto tirava o gosto da palestra. O zumbido prosseguia. Um motor elétrico possante, logo em seguida lançava um jorro d´água na calçada da casa defronte ao botequim. Aquilo virou um inferno.
 
Dizendo: "Vou viajar pro Espírito Santo" Servino Pires saiu deixando Van Grogue só. A barulheira prosseguia. Em cima do balcão um embrulho, aberto depois por Bafão, indicava ter o Pires esquecido a sunga.
 
 
Fernando Zocca.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:01

O besouro

por Fernando Zocca, em 28.10.09

 

- Pery Kitto era ladrãozinho safado desde o tempo em que, quando criança, jogava futebol de mesa na casa da tia. A marmota improvisava os botões dos times colando figurinhas dos jogadores no que ele chamava de “celulose” dos relógios de pulso. - A afirmação gravíssima saiu dos lábios do já atordoado Ado Henrique, logo pela manhã no bar do Bafão.
 
            O barman se acostumara com o jeitão de macho rústico do forasteiro, chegado à Tupinambicas das Linhas há uns trinta dias, que justificava a agressividade gratuita com o bordão “aqui o sistema é bruto”.
 
            - O senhor tem mesmo certeza de que pode beber? Não vai lhe fazer mal tanta pinga já cedo? – Na verdade Bafão preocupava-se mais com a integridade do seu mobiliário, que estaria sujeito a danos sérios, em decorrência de um possível descontrole do bebedor, do que propriamente com a saúde do cachaceiro. 
 
            - Bah, que dúvida! Sou curtido na pinga tche!  Mas como lhe dizia esse tal de Pery Kitto antes de começar os jogos falava que valia o “leva-leva” pra tocar os botões. Mas quando chegava a vez do adversário ele trocava tudo, garantindo que a regra era a de três toques. Você acredita seu Bafão, que numa tarde quando Pery Kitto, com o time do “Curintcha”, perdia o jogo pro primo dele, teve a coragem de soltar o gás dentro da cozinha? O cara era safado, meu! Sabe o gás? Esse de botijão? Então meu, o cara empestou o ambiente só pra melar a vitória do melhor. Mas pode uma coisa dessas, mano?
 
            - É verdade tudo isso? – Bafão simulava interesse. Seu objetivo era mesmo o “carvão” do freguês.
 
            - É sim, seu Bafão! Com certeza! O Pery Kitto odeia porco. Nem toque no assunto de torresmo que ele enlouquece. E feijoada então? Sabe dessas que vai pé de porco, orelha e joelho? Então, o cara se enfurece. Nem toque no assunto!
 
            - Não tenho visto o Pery Kitto. Ele sumiu, dizem que está doente. Será que é verdade? – indagou o barman ligando o rádio.
 
            - Está com o pé esquerdo inchado, mas muito cuidado com esse tal de Pery Kitto. Ele é mais falso do que dólar com esfinge de galo.
 
            - Olha, essa aqui é a segunda cerveja que tomo hoje. E já acabou. Aproveita e me dá outra super gelada. – Ado Henrique queria se esbaldar na gandaia a partir daquele momento.
 
            Quando servia o cliente, Bafão percebeu que Van Grogue entrou em silêncio. Ele não foi visto por Ado Henrique.
 
            - Assombração, de onde vieste? O que desejas aqui na terra do testudo? – murmurou Van Grogue num tom baixo e grave. E depois:
 
            - Olha o gambá! O gambá vai te cercar... Vai te comer os cornos...
 
            - Engraçado, seu Bafão, mas bah! De repente me veio a idéia daquele tal de Grogue. Por onde andaria o fulano? – indagou Ado Henrique sentindo os pêlos dos seus braços eriçarem.
 
            - Ah, aquele tem uma chácara lá no bairro Floresta. Trabalha no Detran; ganha quatro mil e quatrocentos reais por mês; quase não aparece por aqui. Ele possui um fusca e a namorada dele chama-se Terezinha. Sabe seu Ado, o Grogue foi muito mal tratado aqui em Tupinambicas das Linhas. O Jarbas e a chefe de gabinete dele, a tal de vovó Bim Latem, lançaram a seita maligna do pavão-louco contra o miserável. Envenenaram a caixa d´água da casa do infeliz e quase mataram todo mundo. O Grogue não pode nem ouvir falar em Jarbas que vomita – informou o prestativo Bafão, passando o guardanapo branco sobre uma mesa. 
 
            - Vade Retro satanás! – murmurava Van Grogue oculto atrás de um armário postado na parede oposta a do balcão – Ô carniça, besouro cascudo de cocô de vaca, você não tem outra camisa a não ser essa cor de rosa?
 
            - Seu Bafão! Que esquisito! Sinto a presença do Van Grogue. Mas não o vejo. Estou enlouquecendo?
 
            - É, o senhor não está muito bem, não. Acho melhor procurar ajuda. Conhece o doutor Silly Kone?
 
            - Hum... Silly Kone? Quem é? – o tom de voz do Ado Henrique denunciava dor, inquietação e sofrimento.
 
            - É gente fina. Dizem que os choques que ele aplica não passam dos 120 volts. Dão umas entortadas no cara, mas tudo fica bem depois. O senhor não quer experimentar? – havia certa ironia no falar do Bafão. - Olha, não quero me gabar, mas acho que um ou dois poderiam resolver o seu problema.
 
            - Vamos deixar quieto esse assunto – afirmou Ado Henrique pagando a despesa e saindo sem perceber a presença do Grogue.
 
            Depois que se viram a sós Van perguntou:
 
            - Já imaginou se eu trabalhasse mesmo no Detran de Tupinambicas das Linhas e recebesse R$ 4.400 por mês?
 
            - Seria o esplendor. Quem gosta de besouro é entomologista – arrematou Bafão, abrindo a primeira garrafa de cerveja.
 
 
 
Fernando Zocca.    
               
              
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:37


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D