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Parando de Beber

por Fernando Zocca, em 24.08.12

 

 

Van Grogue entrou lentamente no bar do Maçarico naquela manhã de quinta-feira e disse em alto e bom som:

- Parei de beber. Hoje completam 30 dias que deixei de lado esse vício do inferno.

Billy Rubina, Célio Justinho, Donizete Pimenta, Pery Kitto e Zé Cílio Demorais paralisaram-se, depois de fitarem o afobado que chegava.

Van aproximou-se do grupo reunido e, num gesto heroico, aspirou desafiadoramente os vapores do álcool que, tal qual uma nuvem densa, envolvia os amigos assustadíssimos com a bravata.

- Quero comunicar a todos que não faço mais parte desse time e que me considero livre desse tormento. Hoje, exatamente hoje, completam trinta dias que estou sem beber nada dessa coisa vergonhosa que vocês põem na boca.

Célio Justinho não acreditando no que ouvia, tratou logo de menosprezar o parceiro de copo, que já tentara deixar o hábito, muitas e muitas vezes sem, no entanto obter sucesso.

- Conversa fiada. Parar de beber é para os fracos. Macho que é macho não tem medo de alucinação.

- Mas já estava mesmo na hora de você parar seu Grogue. - sentenciou Billy Rubina. - Ninguém aguentava mais as suas trapalhadas.

- Isso sem falar nos prejuízos para a família toda, da aposentadoria compulsória, dos desentendimentos com os filhos e a mulher, que de vez em sempre, levavam umas porradas. - Completou Zé Cílio Demorais.

- Imagine você que esse retardado, no estado em que estava, num dia, apareceu por aqui reclamando das dores nos joanetes. - relatou Pery Kitto - Ele disse que sentia muito incômodo e que por causa disso tinha até que usar uma bengala pra andar. Mas quando olhei pros pés dele vi que a besta estava com o sapato do pé direito no esquerdo e o do esquerdo no direito.

Diante da gargalhada que irrompeu no grupo, Pery Kitto arrematou:

- E já fazia uns 15 dias que ele andava assim. O "mental" tinha acabado de comprar os sapatos e gostou tanto deles que não tirava nem pra dormir.

Sentindo-se muito envergonhado Van Grogue tentou frear a gozação dizendo num tom sério, grave, que remetia a muita responsabilidade e importância.

- É minha gente... Eu parei mesmo com isso tudo. Não quero mais saber dessa vida. Queiram vocês saber que uma decisão dessas, igual a minha só é possível para poucos e bons.

Outra onda de gargalhada explodiu fazendo com que Maçarico se preocupasse com as possíveis queixas dos vizinhos que já davam sinais de mobilização, contra as 'gandaias' frequentes no boteco.

Van preparava-se para sair quando entrou a professora Dina Mitt. Ela trazia dois sacos de estopa que colocou cuidadosamente no chão logo depois que pediu uma cerveja.

- E aí Dina? Tudo certinho? - perguntou Donizete Pimenta. Vai tomar aquela cerveja esperta?

- Ninguém é de ferro, né meu filho? - respondeu a mestra, ajeitando com cuidado, os sacos que estavam no chão.

- Você já sabe da novidade? - indagou Pery Kitto.

- Que novidade? - Quis saber a mulher que recebia a garrafa de cerveja servida por Maçarico.

- O Van Grogue parou de beber.

- Verdade Van? - Perguntou Dina Mitt espantadíssima.

- Exatamente. Hoje faz 30 dias que parei com a esbórnia.

- Muito bem seu Van, mas eu só acredito vendo. Para ter a certeza de que você não pertence mais a essa nossa turma quero que passe uma semana comigo lá no meu rancho. Nós vamos pescar andar a cavalo e nos divertir muito. Estou saindo daqui a pouco. - desafiou Dina. - Topa?

Diante do pessoal todo que, em silêncio, o olhava, aguardando uma resposta, Van respondeu:

- Ah, vamos sim. Por que não?

Logo depois que Dina Mitt terminou de beber a cerveja, pagou a conta e, pegando os dois sacos com muito cuidado, pediu ao Grogue que a acompanhasse até o carro.

- O que é que tem nesses sacos dona Dina? - quis saber o Zé Cílio.

- Nesse aqui tem um garrafão de pinga. - garantiu a mulher levantando, com cuidado, um dos sacos.

- Mas pra quê? - indagou ingenuamente o Pery Kitto.

- É que lá tem muita cobra. E no caso de picada a gente cura com pinga. Você entende? - respondeu a mestra.

- Ah, bom. - Disse em uníssono o pessoal, já preocupado com o Van.

- Mas e no outro saco? O que é que tem? - inquiriu curiosíssimo o Donizete Pimenta.

- É uma cobra. Vai que a gente chegue lá e não tenha nenhuma, não é verdade?

Boquiabertos os amigos viram o Grogue entrar na velha Rural Willis da professora que, sem vacilar, pisou fundo no acelerador.

 

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publicado às 15:30

As Sementes de Tomate

por Fernando Zocca, em 04.07.12

 

 

Van de Oliveira Grogue, Zé Cílio Demorais e Ary Ranha estavam, na tarde de quarta-feira no bar A Tijolada, legitima propriedade do Maçarico, degustando a primeira cerveja, quando Van, olhando de repente, pra porta de entrada disse quase gritando:

- Ih, fica quieto. Para tudo!

- Nossa! O que foi Grogue. Está louco? Você assusta a gente, desse jeito pombas! - queixou-se o Zé Cílio, proprietário do Diário Tupinambiquense.

- Ah... Para com esses chiliques. Ô Grogue, manera aí caramba!!!!! - ralhou Ary Ranha.

- É o bi. - disse em voz baixa o Grogue, depois de levar a mão direita em concha a boca.

- Que bi? - inquiriu Ary Ranha. - Bimotor?

- Bivolt, bissexual? - quis saber o Zé Cílio.

- Não, seus burros. É o Bily Rubina, chefe do gabinete do Jarbas. Ocupa o lugar da vovó Bim Latem. Dizem que ele está namorando a irmã do Donizete Pimenta, o boca de porco, e que está meio pancadão.

- Imagina! - disse Maçarico entrando na conversa. - O cara está legal, só exagera um pouquinho demais da conta nas biritas, nada mais que isso.

- Mas, me diga... Quem é mesmo essa vovó Bim Latem? - quis saber o Ary Ranha.

- É só você que não sabe, ô Ranha do inferno. - gritou Maçarico lá do fundo, onde tinha ido buscar mais garrafas de cerveja.

- A vovó Bim Latem foi a criadora do primeiro homem bomba tupinambiquense. - informou o Zé Cílio Demorais. - Nosso jornal fez várias matérias sobre o assunto. Está tudo documentado.

- É sim, seu zé arruela, saiba que o jornalismo é o rascunho da história. - afirmou Van Grogue, olhando o Ary bem nos olhos.

Enquanto confabulavam, Bily Rubina, caminhando lentamente, aproximava-se do grupo.

- Eu quero saber quem é o lazarento que tá espalhando pra cidade inteira que a polícia apreendeu os computadores do gabinete! - intimou o Bily, que chegava bufando feito uma maria-fumaça.

- Aqui ninguém mexe com política. - defendeu-se Van de Oliveira.

- Eu nem sabia que tinha polícia na cidade. - reforçou Ary Ranha. - Meu pai alugava uma casa pros "home", que faziam escuta telefônica e invasão de computador, de uns vizinhos, uma certa ocasião. Mas isso faz muito tempo. Naquela época meu pai bebia muito. Eu nem sei. Mas e daí, Bafão a polícia está investigando o Jarbas?

- Está nada. Esses bocudos inventam cada uma que eu vou te falar. Não é fácil, viu?

- O que é que vai ser seu Bily? - quis saber o Maçarico segurando uma garrafa de 51.

- Me dê um Campari.

Zé Cílio, Ary Ranha e Van Grogue entreolharam-se surpresos. Maçarico procurou na prateleira uma garrafa da tal bebida. Ele sabia que tinha, mas não lembrava onde a guardara. Por demorar mais tempo na localização, recebeu a solidariedade dos fregueses, que o ajudavam, olhando também as garrafas enfileiradas mais no alto.

- Serve Menta? - arriscou Maçarico sem muito ânimo para as procuras demoradas.

- Lá em cima. Estou vendo. Aquela ali com o rótulo amarelado. - Gritou Ary Ranha apontando o objeto.

Enquanto todos permaneciam atentos na busca do pedido do Bily, entrou no recinto a Luísa Fernanda ostentando todo o seu charme contido naquele 1,64m de altura.

- Seu Maçarico! Tenho pressa. Quero um litro de leite, um maço de cigarros, cinco filões e 500 gramas de mortadela. Por gentileza, quero ser atendida o mais rápidamente possível. Meu marido o Célio Justinho está nervosíssimo. Ele deu até um pontapé violentíssimo na Magna, a nossa cadela de estimação.

Os homens pararam e olharam a figura estranha, que desejava ser atendida, antes mesmo do que todos os que chegaram primeiro.

- Mas, como eu estava dizendo... A polícia não encontrará nada de errado na prefeitura. - disse o Bily Rubina procurando reatar a conversa.

- Ah, mas o Jarbas é um poço de honestidade. - garantiu o Zé Cílio Demorais. - E olha, não digo isso só porque a prefeitura publica frequentemente, editais imensos no Diário. O cara é caxias mesmo.

- O quê? Jarbas não tem culpa no cartório? - reagiu indignada a Luísa Fernanda. Pois saibam que eu e meu marido Célio Justinho fizemos a maior queixa contra esse homem. Ele será cassado. Quem viver verá. Ninguém pinta como eu pinto. Alguém aqui pinta do jeito que eu pinto? E a minha mortadela? Sai ou não sai... Caramba!

- Mesmo que mal lhe pergunte, minha nobre senhora: o seu Célio ainda tem aquele teclado velho? - perguntou à meia voz, o Van Grogue.

- Deve estar naqueles dias. - cochichou Ary Ranha pros amigos.

- O senhor prefeito não tem nada a temer. Saiba a senhora e seu marido também. O seu Célio Justinho é um gerente bancário que vive tentando tirar, de ouvido, o hino do Corinthians, que eu bem sei. - afirmou, com voz empolada, o Bily Rubina.

Num ataque de fúria incontida, Luísa Fernanda não esperou para pegar as coisas que havia pedido. Soltando vários palavrões, ela saiu do bar pisando firme e sem olhar pra trás.

Quando passou a pé, defronte a casa do Maçarico, ela tirou, de uma pequena bolsa, um pacotinho de sementes de tomate; rasgando-o com muita violência, jogou todo o conteúdo - numa espécie de simpatia - no jardim da casa do comerciante, dono do boteco A Tijolada.

- E o doutor Silly Kone, o nosso querido psiquiatra, por onde anda? - quis saber o Zé Cílio.

- Ele vai ter muito trabalho. - garantiu Van Grogue.

- Com certeza. - confirmou o dono do botequim.






Mudando de assunto:

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publicado às 14:00

O Robe Rosa

por Fernando Zocca, em 31.05.12

 

Sim meus amigos. Tem gente que confunde diabetes com tia Bete e considera escalada aquela mulher falante que já foi muda.

Você pode "apeluciar" o volante do seu carro, deixá-lo mais supimpa, vistoso à beça, mas se não houver aquele papo descontraído, informal, parece que tudo não está tão bem assim.

O que a gente faz na vida depende de uma tal "programação" (o software) inserido nas estruturas genéticas herdadas dos antepassados. Se houver uma predisposição, as firulas todas vêm à tona demonstrando os equívocos comportamentais.

A combinação "ambiente" e a certa tendência pra engabelar, faz o preclaro cidadão meter a mão na cumbuca, donde lhe provém as tais provações. E depois ainda quer reclamar?

Pisou na boleta, envergonhando a torcida? Como é que se pode arrumar isso?

Quando se trata de fazer um gol contra, deve-se correr logo pra marcar um a favor, compensando a caca feita. Mas veja que isso não é tão fácil assim.

Levou "sem querer" o "cascalho" alheio? Hum... Ai a situação complica, fica bem séria mesmo. Mas nada como a devolução da tal coisa alheia móvel, subtraída pra si ou para outrem, a fim de que se lhe alivie o peso na consciência.

Quem engana com 10 centavos engana com um, dois ou cinco milhões. "Miséria pouca é bobagem" diriam especialistas e, "já que está no inferno, por que não beijar a boca do capeta?" incentivariam os outros sedentos de vê-lo nos complicados apuros da saia justa.

"A gente podemos" (diria meu amigo Van Grogue) fazer o que bem entendemos", mas será que vale a pena?  O desgosto que vem depois não seria muito maior e duradouro do que aqueles momentos "felizes'?

Que tristeza, não é mesmo? Mas como pra tudo na vida tem um jeito, com certeza não faltará aquela velha formulazinha capaz de fazer voltar tudo ao normal como sempre foi.

Enquanto isso, meu amigo, minha amiga e senhoras donas de casa, exercitemos a sagrada paciência eis que se assim não o fizermos estaremos sujeitos aos mais gravosos dissabores.

Pery Staltico (que foi casado com a Emma Thoma), e seu vizinho Breno Raggia, já diziam, mesmo antes da quinta caipirinha, que o Renê Gaddo, mesmo quando usava aquele seu robe rosa, não merecia tanta esculhambação, por não pagar as contas bem antigas que tinha no boteco.

Paciência!!! O que é que se há de fazer?

Levou o que não era pra ser levado? Fez do jeito que não devia? Reconhecer as tratantadas, seguir em frente, pegando o bonezinho e esperando por uma nova oportunidade, pode ser a melhor atitude a ser experimentada.

Já teve gente que se arrependeu do que fez, cumpriu as determinações punitivas, deu a volta por cima e agora aproveita a situação positiva. Certamente esse era daqueles que não confundia carona com face grande.

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publicado às 15:11

Salário Modesto

por Fernando Zocca, em 05.03.12

 

 

                 Van Grogue não era calçada portuguesa, aquela obra de arte feita para ser pisada, mas a população de Tupinambicas das Linhas cria que para ser feliz deveria melindrá-lo sempre.

        Essa mania, de calcar o bêbado, nascera com a vovó Bim Latem a chefe de gabinete do prefeito Jarbas, o caquético testudo, espalhando-se ao longo do tempo e pela cidade toda.

        Eu já lhes contei inúmeras passagens sobre a tal vovô Bim Latem. Ela era fã de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira; quando entrou para o funcionalismo público – onde trabalhou durante cinco anos e já está aposentada há cinquenta -, comprou com o primeiro salário que recebeu toda a discografia dos artistas.

        Por ter o Van Grogue uma desavença com Luisa Fernanda, Célio Justinho que envolveu também o prefeito Jarbas, o vereador Fuinho Bigodudo e o deputado Tendes Trame, a vovó Bim Latem desejou, com todas as suas forças morais, poderio econômico e tráfico de influência, que o tal pingueiro fosse morar numa barrica a ser instalada em qualquer rua da cidade.

        Numa das reuniões que aconteceram ao redor da piscina de Luisa Fernanda e Célio Justinho, onde também faziam churrasco e ensaiavam as apresentações da Banda Funileiros do Havaí, a vovó teria dito sobre o futuro do Van de Oliveira:

        - Vai morar na rua entre os cães; de lá “meterá o pau” em nós e em nossas obras administrativas. Quando ouvir um sino sentirá vontade de perambular pelas vias, becos e vielas.  Esse catinguento terá muita sorte se alguém se compadecer dele e o tirar da sarjeta.

        Apesar de todo esse sortilégio lançado contra Van de Oliveira, a justiça agiu antes, tendo descoberto falcatruas imensas nas licitações da prefeitura tupinambiquense.

        Jarbas, sua mulher, Fuinho Bigodudo e até mesmo Tendes Trame, tiveram de explicar como conseguiram tamanho acúmulo de bens móveis e imóveis, com os salários modestos que recebiam.

        Para muitos a carreira política desses senhores havia chegado ao fim.

 

Leia também

O Ensaio

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publicado às 15:25

O Braço

por Fernando Zocca, em 03.01.12

 

 


               Van Grogue entrou, naquele entardecer de segunda-feira, no bar do Bafão onde, com um gesto ao proprietário atento, comunicou sua intenção de saciar-se de cachaça e cerveja.

       Depois de ingerir, numa talagada, o conteúdo do seu copinho habitual de pinga, ele notou que havia um pessoal diferente reunido com o gerente bancário Célio Justinho, marido da raivosa Luisa Fernanda.

       Eram dois homens claros, de estatura elevada, um deles já passando dos 60 anos, porém magro e o outro mais novo, que se destacava pelo abdome abaulado, impossível de ser disfarçado pela camisa larga e florida, que escorria sobre o bermudão bege.

       Um deles dizia:

       -You cannot get carried away by the temptation of the devil.  

       E o outro traduzia para Célio Justinho que, fascinado, ouvia atento:

       - Você não pode se deixar levar pela tentação do demônio.

               - Because he tries to maliciously trying to take him to error, sin.

              - Pois ele o tentará maldosamente buscando levá-lo ao erro, ao pecado.

       Com um copo transbordante de cerveja numa das mãos, o pregador prosseguia:

        - The devil whispers in your ear trying to end his life. He has a lot of envy and hate you. 

       - O capeta sussurra na sua orelha buscando acabar com a sua vida. Ele tem muita inveja e ódio de você.

       Não se interessando pela conversa e nem mesmo desejando interrompê-la, Van de Oliveira, se apossou da garrafa de cerveja, do copo limpo, e caminhando em direção à mesa do canto, perto da porta, onde costumava ficar, sentou-se lentamente.

       Van Grogue ingeriu um gole e, assim como que num passe de mágica, plim-plim, desconectou-se do ambiente.

       Vestindo um calção azul, uma camisa branca com bolso do lado esquerdo, sandálias de couro, fivelas cromadas, o menino caminhava ao léu, pela rua principal da cidade.

       Ele prosseguia devagar, olhando tudo, de um lado para o outro, entre os transeuntes apressados, que iam e vinham, vivenciando aquela azáfama do dia a dia.

       A criança parou defronte uma loja de armarinhos, onde lá dentro havia um casal de meia idade.

        Atrás do balcão, o homem, à direita da mulher, media um tecido verde com o metro amarelo de madeira. Eles conversavam entre si, mas ambos olhavam para o menino estancado na calçada.

       Impelido, o menor iniciou a caminhada para dentro do salão. A mulher, ante a aproximação do estranho questionou-o:

       - O que você quer?

       Sem ter o que responder o guri viu-se embaraçado, tenso. O homem então perguntou:

       - De onde você veio?

       - A minha avó mora ali na esquina.

       O casal se olhou e, o homem conseguindo identificar a pessoa citada, acalmou a companheira, que mais a vontade, fixou o olhar no menino. Então o homem perguntou:

       - Você conhece o Pedrinho?

       Sem esperar a resposta, e sob os protestos da mulher, o comerciante fez o garoto passar por uma abertura lateral, na qual uma cortina de pano verde escuro servia de porta, encaminhando-o assim para os fundos da loja.

       Ao andar sozinho pelo corredor o menino ouvia alguém que falava numa língua estranha:

       - The books are on the table.

       O garotinho foi se aproximando até que pòde ver dentro de um quarto, cuja porta e janela estavam abertas, um adolescente todo vestido de branco, sentado sobre a cama. O mocinho recostado no travesseiro grande lia e relia a lição de inglês.

       Quando percebeu a presença daquele estranho o estudante perguntou ao pai que estava lá na loja;

       - Quem é, pai?

       E de lá, o homem respondeu:

       - É um vizinho. Um coleguinha seu.

       - But where's the book? – continuou o aluno, olhando, da cabeça aos pés, o forasteiro medroso. Em seguida disse: 

       - Sente naquele banquinho. De onde você vem?

       Enquanto explicava que era neto da mulher que morava na esquina, o visitante viu que aquela pessoa, com muita dificuldade, procurava se levantar da cama.

       O pequeno e curioso forasteiro nunca tinha visto uma pessoa deficiente.

       Com bastante esforço o estudante levantou-se, deixando ver que seu corpo, pálido e magro, não tinha parte do braço direito, que as pernas, e também os pés, eram atrofiados.

       - Espere ai que eu já volto. - disse o jovem, depois de apoiar-se no par de muletas, que pegara da cabeceira da cama.

       Enquanto ficou só, o menino pôde ouvir as vozes que vinham da loja.

       Algum tempo depois, sacolejando, o aluno do ginasial entrou no quarto, sentou-se na cama, ajeitou o travesseiro às suas costas e prosseguiu com a lição:

       - But you, what you want from me?

       Vendo que a lengalenga não passaria daquilo e sentindo-se mal com o zunzunzum vindo da loja, o jovem visitante comunicou seu desejo de ir-se embora. E sem esperar por qualquer resposta retirou-se.

       Quando o menino passou pelos comerciantes que ainda estavam atrás do balcão, ele ouviu a mulher dizer:

       - Mas já vai? É tão cedo ainda...

       No boteco do Bafão, Van de Oliveira Grogue reconectava-se com o meio ambiente.

       - Note that the addiction can take you to disease, epilepsy report. Quit it already. – dizia o pastor com o copo de cerveja na mão.

       O companheiro do pregador traduzia para Célio Justinho e Bafão que estavam atentíssimos:

       - Veja que o vício pode levá-lo à doença, à epilepsia. Saia disso já.

       Van Grogue levantou-se da mesa, caminhou cambaleante até o balcão, para pagar a conta e sair, quando o pregador, olhando para ele, disse em português:

       - Arrependa-se! Saia dessa vida louca enquanto é tempo!

       Para o espanto geral Van Grogue, sacando os caraminguás contados para pagar a despesa, respondeu:

       - O quê!? Eu não quero nem saber.

       Depois de passar o dinheiro ao Bafão, e massageando o braço direito, ele afirmou com voz poderosa, ao sair:

       - Hoje vai dar águia na cabeça meu amigo. Já ouvi até o apito do trem.

 

03/01/12

 

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publicado às 21:28

O Sequestro do Velho Carteiro

por Fernando Zocca, em 25.10.11


 

                                  Parado na esquina, com o cacete na mão, Donizete Pimenta esperava por alguém que viesse atacá-lo.

               Na verdade o moço delirante, por sentir-se ameaçado, mantinha-se em posição de defesa.

             Quem passava pela rua via aquela figura grotesca, primitiva, de short bege, sem camisa, descalço, com o tacape em riste, pronto para o combate imaginário.

             Diziam no quarteirão que o amalucado tinha ascendência chilena e que viera para Tupinambicas das Linhas fugido da polícia. Segundo comentários, no bar do Maçarico, Donizete envolvera-se com o sequestro de um velho carteiro.

             Os vizinhos notaram que o doidinho tinha o hábito de sair de casa sempre acompanhado de uma jovem morena, de cabelos pretos e longos, caminhar rapidamente pelas ruas, e de não falar com ninguém.

             No boteco, Maçarico já demonstrara a sua desconfiança ao conversar com a figura, que entrara numa ocasião, para comprar cigarros.  

             Num domingo de manhã quando Van Grogue, Zé Cílio Demorais e Billy Rubina bebiam tranquilamente, comentaram as impressões causadas pelo novo e misterioso vizinho, que passara naquele momento, ligeiro assim, feito uma sombra, pela porta do bar.

             - Dizem que é muito rico. A mulher deve ter umas oito casas. Com escritura e tudo. – disse Van de Oliveira ao notar a dupla que caminhava.

             - Eles não têm filhos. – emendou Zé Cílio.

             - Eu ouvi dizer que eles têm filhos de outras uniões. Se não me engano são quatro menores.

             - Ninguém nunca viu esses dois com guris, zanzando de lá pra cá. – contribuiu Maçarico.

             - Talvez fiquem escondidos dentro da casa. – arriscou Van Grogue.

             - Será? – questionou Zé Cílio.

             - Eu não acredito que esse bagre cabeçudo tenha capacidade pra fazer isso. – desafiou Maçarico.

             - Olha, não duvide. Tem louco pra tudo. Pelo jeito que esse pé-rachado age, não duvide que ele seja capaz de gerar filhos com a própria filha. – garantiu Billy.

             - Pra mim esse retardado mental quer fazer bonito pra impressionar a mocréia miserável que caiu na rede dele. – concluiu Maçarico.

             Agora ali, parado na esquina, com a borduna na mão, à espera do inimigo imaginário, Donizete assustado, com o coração a galope, viu a polícia que chegava.

             Ao ser detido ele confessou que mantinha uma das crianças presas num cubículo, construído dentro de um dos quartos da casa, feita lá no fundo do quintal; e que a sujeitara, para aprender, a ouvir diuturnamente, centenas de músicas sertanejas.  

             Depois das primeiras providências, tomadas no inquérito policial, o delegado determinou que Donizete Pimenta fosse levado ao sanatório psiquiátrico do doutor Silly Kone, onde recebeu o tratamento especializado.

24/10/11  

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publicado às 01:01

Emanações Pútridas

por Fernando Zocca, em 07.10.11

 

 

            Tupinambicas das Linhas não era uma cidade agradável. Essa conclusão antiga baseava-se no fato de que a maioria das edificações civis foi construída sobre pântanos.

             As emanações gasosas pútridas foram observadas pelos primeiros colonizadores, mas insuficientemente desagradáveis para os convencerem de que o lado do rio, onde ergueram as primeiras construções, não era o mais saudável.

             Os gases fétidos, resultados da podridão fermentada no subsolo, emergiam a todo o momento, tornando insalubres alguns locais específicos da urbe. Esse desconforto era intensificado quando não havia ventos e o calor tornava-se desprazível.

             Jarbas o prefeito caquético e testudo, fora comunicado, há muito, sobre a existência dessa malignidade, entretanto ele afirmava que não podia fazer praticamente nada a não ser instalar dutos que facilitassem a vazão das exalações. O assunto ocupava boa parte dos espaços na mídia e das conversas dos moradores dos locais mais prejudicados.

             Foi nesse clima que, naquela manhã de quarta-feira, Van de Oliveira Grogue adentrou o bar do Maçarico cantarolando:

             - Litrão ê, ô... Litrão ê, ô...

             Maçarico lia o Diário de Tupinambicas, que aberto sobre o balcão, noticiava uma blitz dos agentes da polícia, na prefeitura.

             - Minha pinga! – exclamou Van de Oliveira notando o desprazer que provocava no Maçarico ao interromper sua leitura.

             - Você viu o que descobriram na prefeitura? – perguntou o dono do boteco, enquanto enchia rapidamente o copo do cliente.

             - Sempre tem maracutaia nova. Qual foi dessa vez? - questionou Van, depois de emborcar a “branquinha”.

             - Prenderam um grupo de funcionários que simplesmente apagava dos computadores da Dívida Ativa, os débitos dos devedores de impostos que se propusessem a pagar 30% dos valores. E parece que o Jarbas sabia de tudo. Diziam que ele recebia alguma comissão.

             - Eu ouvi essa notícia pelo rádio, no começo da madrugada. Levaram os computadores, e cinco suspeitos. – confirmou Van de Oliveira.

             - Descobriram que o esquema de sumiço dos dados era feito há muito tempo. Desviaram milhões e milhões de reais da prefeitura. O prejuízo é bem grande. – completou Maçarico.

             - Isso explica o carro novo que o Mariel Pentelini Demorais comprou de uma hora pra outra. – concluiu Van de Oliveira.

             Atendendo a um gesto do bebedor, Maçarico abriu uma cerveja postando-a sobre o balcão. 

              – O cara não tinha nada, mas depois que passou a trabalhar na prefeitura, deixou o bigode crescer e comprou até apartamento no centro da cidade. – continuou Grogue.

             - O Mariel Pentelini não é aquele mocorongo entrevado que tinha uma serralheria, falida logo depois da morte do pai dele? – quis saber o Maçarico.

             - É esse mesmo. Eu o conheço desde criança. Na casa em que os pais dele moravam havia um limoeiro, uma pitangueira, um orquidário feito com bambus e, bem defronte a porta da cozinha, um gramado pequeno. Naquela casa, antes dos pais do Mariel mudarem pra lá, funcionou uma lavanderia. Isso explicava a existência de quatro tanques enormes num dos lados da morada. Perto dos tanques tinha um aposento com uma janela pequena e a porta bem rústica. Ali o pai do Mariel depositava pneus usados e até material de campanha política.

             - Não era naquela casa que funcionou um asilo de insensatos? – indagou o dono do boteco.

             - Isso eu não sei. Mas naquele tempo na sala havia cristaleira, mesa e cadeiras no estilo colonial, quadros nas paredes e o ambiente todo era bem agradável.

             - Que eu saiba esse Mariel Pentelini vive de bar em bar curtindo as “canas” que entorna e cofiando o bigode branco. Ele não estava aposentado? – inquiriu Maçarico.

             - Nada. Juntou-se com a “virgem dos lábios de mel” da Vila Dependência e toca o trole até hoje. – garantiu Van de Oliveira.

             - Fazer o que, não é? Temos de ter paciência, muita paciência. – garantiu Maçarico.

             Dando-se por satisfeito e finalizando o encontro, Van de Oliveira perorou:

             - Por falar nisso, Maça, anota pra mim essa continha, que logo no fim do mês eu passo pra acertar. Tudo bem?


06/10/2011 

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publicado às 15:49

Usando a Tecnologia

por Fernando Zocca, em 09.08.11

 

 

                     - Olha, o que eu sei é que esse Van Grogue é meio louco, não dá pra confiar nele. – disse com firmeza o Pery Kitto jogando no chão um pouco de pinga, daquele seu segundo copo de cana, naquela manhã de sábado no bar do Maçarico.

                    Ernesto Mail que já bebericava a cerveja geladíssima, aproveitando a onda maledicente que se iniciava emendou:

                    - O cara corria atrás do pai armado com faca. Você quer o quê? As bocas de Matilde comentavam que quando esse demônio era criança xingava a mãe, porque lá na escola diziam que ele tinha a cabeça grande e era muito feio.

                    Maçarico ao perceber que a ventania iniciara, tirou do ombro o guardanapo branco e, alisando o balcão, na periferia do local onde os bebedores depositavam os copos, pigarreou ligando em seguida o rádio.

                    - Mas você não pode acreditar: no dia em que o E.C. 7,5 de Novembro ia jogar a partida do título, nós os mantenedores dessa honrosa instituição tupinambiquense, o famoso bar do Maçarico, combinamos uma caravana de torcedores do bairro que rumaria a pé, num bloco compacto, para o estádio.   Pois não é que essa figura energúmena, conhecida como Van Grogue ia na frente, sozinho, enquanto que todo mundo seguia atrás? – martelou Zécílio Demorais o proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas.

                    - Não, mas ele queria dar uma de gostoso, de importante. Só porque foi jogador de futebol, achava que podia ir mais depressa que os outros. E olha que queria até indicar as ruas, o trajeto. – concluiu Pery Kitto.

                    - Não sei o que esse cara tem na cabeça. Ao invés de arrumar um emprego, trabalhar como todo mundo faz, fica nessa de induzir o povo contra o Jarbas. Por que não vai assentar tijolo, bater aquela massa esperta, levantar parede? – inquiriu indignado o E. Mail.

                    - O cara é muito folgado. Vai ocupando espaço que não é dele. Não se toca, não sabe que não é bem aceito. Não sei porque não se manda logo. – questionou Zécílio Demorais.

                    - Com isso que ele fazia, era como se dissesse que todo mundo aqui na cidade era burro, que ninguém era capaz de nada. Mas ora veja! – afirmou Pery Kitto, já atordoado.

                    - Eu não sei jogar bola. Mas não aprendi porque precisava trabalhar. Tinha que cortar cana quando era criança. Não é bem assim do jeito que esse cara pensa não. – arrematou Zécílio Demorais ingerindo o último gole de cerveja.

                    - Maçarico do inferno! Manda outra geladíssima pra gente ai, mano! – solicitou já um tanto quanto que embriagado o Pery Kitto.

                    Para o espanto geral, o dono do boteco respondeu, depois de vasculhar, com o olhar de gavião, o interior do balcão refrigerado:

                    - Má notícia moçada! Acabou a alegria. Findou a cerveja.  Ontem a noite programei um telefonema, que faria hoje cedo, para o depósito pedindo outra remessa, mas esqueci. Não sei por que motivo não liguei, pedindo mais mercadoria. – justificou Maçarico.

                    A decepção baixou sobre os bebedores como a chuva gelada, repentina, desaba sobre os transeuntes desavisados.

                      Eles mal tiveram tempo pra deixar escapar um oh, em uníssono, das bocarras boquiabertas, quando entrou com um notebook, debaixo do braço esquerdo, o odiado Van Grogue. 

                    - Mas o que é que você está esperando Maçarico, liga agora pra distribuidora. A gente esperamos. – pediu com carinho o E. Mail.

                    Rendendo-se aos clamores, e temendo perder a freguesia, Maçarico tentou ligar para a empresa fornecedora, mas depois de alguns segundos ele estancou.

                    - E aí? Vai ou não vai? – perguntou com ansiedade o Zécílio Demorais.

                      - De que jeito? Estamos sem telefone. Está mudo.

                    - Como assim? Você deixou acabar o estoque de cerveja justamente no sábado, véspera do primeiro jogo do E.C. 7,5 de Novembro, na primeira divisão? Mas você enlouqueceu Maçarico? Temos que interná-lo na casa transitória com a máxima urgência. Isso é questão de saúde pública. – sentenciou o iradíssimo Pery Kitto.

                    - E ainda por cima sem telefone. Mas é o fim do mundo! É mesmo o final dos tempos. Não dá pra acreditar. Gente! Que absurdo! – indignou-se E. Mail.

                    - Mas que raio de comerciante é você, Maçarico? – quis saber, com os olhos esbugalhados, o Zécilio.

                    - E agora? Vamos ficar assim perdidos, nesse arrabalde, sem cerveja? Não dá pra acreditar nisso. – rebelou-se E. Mail.

                    Observando tudo o que se passava Van de Oliveira Grogue, desconsiderando a reação de frieza, que sua presença causara, quando entrara no recinto disse:

                    - Com licença. Por que vocês não mandam um e-mail para a empresa, solicitando via internet, o pedido?

                    Maçarico, Zécilio Demorais, Pery Kitto e Ernesto Mail paralisaram-se boquiabertos. Ao se entreolharem eles ouviram o que dizia o Grogue:

                    - Olha, eu tenho o notebook e sei como funciona; posso enviar a mensagem. Inclusive para o mundo todo. Vocês querem?

                    Depois de alguns minutos angustiosos, o caminhão do depósito de bebidas encostou defronte o bar, descarregando duas vintenas de caixas de cerveja.

                    - Esse Van Grogue é gente fina. Eu sempre acreditei nisso. – concluiu Zécilio, agora rodeado pelos companheiros que brindavam os bons momentos, com a saborosa alegria recém-chegada.

Texto revisado.

09/08/11

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publicado às 19:25

Pagando o Mico

por Fernando Zocca, em 24.03.11

 

                      Van Grogue quando moço trabalhou na prefeitura de Tupinambicas das Linhas. Ele dizia aos colegas de copo, que era encarregado importante no setor administrativo, mas na verdade era lixeiro.


                    Em 1969, os serviços de coleta de lixo na cidade, eram feitos por trabalhadores contratados diretamente pela prefeitura. Portanto, eles também eram funcionários públicos.


                    Por causa da vida desregrada que levava, bebendo, fumando e alimentando-se mal, Grogue foi acometido pela tuberculose.


                    A irmã dele que era empregada doméstica da professora catedrática doutora Mirthôa, aconselhou-o, diante do emagrecimento, da febre nos finais do dia e da tosse insistente, com a qual expelia catarros cheios de sangue, a procurar o serviço público de saúde.


                    O médico acertou o diagnóstico e Van foi informado que a sua doença era causada por uma bactéria chamada Mycobacterium tuberculosis ou Bacilo de Koch. O doutor ensinou também que antigamente, esse mal era conhecido como peste cinzenta ou tísica pulmonar.


                    Depois de ter chegado em casa, vindo da consulta, Grogue encontrou o roliço irmão Fran que se mostrou desejoso de saber notícias sobre o problema.


                    - Ah, o doutor falou que eu tenho um tal de mico, não sei o que, e isso dá tosse na gente – disse Van.


                    - Então é o mico? – quis saber Fran, o irmão mais fofo.


                    - É. Não sei se é cinzento. Mas é pequeno, tipo bactéria – concluiu Van.


                    - Ah, sei. Pequeno? A gente pode fazer uma simpatia: vamos passar isso pra frente e você sara.


                    No mês seguinte o filho da vizinha, um moleque irrequieto, que não dava sossego pra ninguém, apareceu na cozinha da sua casa, com um mico leão dourado, causando espanto em toda a família.


                    Os pais e demais irmãos, do vizinho agitado, tiveram de comprar telhas, madeiramento e telas para fazer a morada do bichinho.


                    O alvoroço todo provocado foi, por muito tempo, motivo de chacota da doutora Mirthôa e seus irmãos.

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publicado às 15:55

O Peixe Vermelho

por Fernando Zocca, em 23.03.11

 

 

 

                         Depois de caminhar muito pelas ruas da cidade Van Grogue, bastante cansado, entrou no Magestic Bar, situado na Rua Governador Peter King, propriedade de Claudinho Quati.


                        Van Grogue sentou-se a uma das mesas, perto da porta e pedindo, com um gesto ao barman, a cerveja “esperta”, ouviu a conversa do casal que, postado na mesa contígua, trocava ideias mansamente.


                        O homem era bem alto, já passara dos cinquenta anos, tinha os cabelos embranquecidos e no tom da sua voz transparecia certo cansaço.


                          Seu terno impecável, azul pavão, indicava ser a figura, alguém que prezava a meticulosidade, os detalhes de tudo, fenômeno observável também na articulação cuidadosa das palavras.


                        A mulher tinha menos de trinta anos, seus cabelos louros estavam curtos e a minissaia preta, contrastava com a blusa estampada, na qual predominava a cor branca.


                        - O sujeito era deficiente físico, morava na casa existente no fundo da loja de armarinhos, e passava a maior parte do dia na cama, onde lia as matérias do curso colegial que fazia – disse sereno o homenzarrão, ingerindo um gole de vinho branco.


                        - Ele não trabalhava? – quis saber a loura.


                        - Não. Ele usava botas ortopédicas pretas e se não estudasse as matérias do curso que fazia, lia outras coisas. Bom, no imóvel vizinho, havia um boteco pequeno onde uma família japonesa trabalhava. A mulher era viúva e tinha dois filhos adolescentes. Eles também estudavam e um deles o Yukió pretendia ser médico.


                        - Nossa! Que interessante! – exclamou a jovem. Ela servia-se da salada precedente do almoço.


                         - Bom, depois que me mudei de lá, e passados muitos anos, soube que o tal Yukió matou-se com um tiro nos cornos.


                           Na mesa ao lado Grogue quase engasgou com a notícia. Mas uma coisa acendeu-se na sua lembrança e assim, como que num passe de mágica, pôde ver o dia em que, quando criança, brincava num local chamado por ele, seus colegas e irmãos de “mataréu”.


                          O local era propriedade da família da professora catedrática doutora Mirthôa, que também tinha algum direito sobre os imóveis deixados pelo avô do Grogue.


                         Numa tarde, Van de Oliveira, estando sozinho no meio da mata, descobriu um corregozinho que a certa distância do seu nascedouro, depois de despencar de uma pequena altura, formava uma lagoazinha.


                          O menino estava entretido com o achado e, desejando aumentar o volume da água, construiu uma pequena parede de barro que circundava as margens.

 

                          Mas, no exato momento em que o menino voltava-se, depois de pegar um graveto, apareceu-lhe na frente um japonês adulto, bem vestido que, sorridente perguntou ao garoto o que ele fazia ali.


                          O rapaz respondeu que brincava, quando ouviu o homem pedir-lhe que pegasse uma vareta caída atrás dele - do guri.


                           O menino obedeceu, mas quando se voltou, viu que havia na pequena lagoa, um peixe ornamental vermelho.


                           O moleque embasbacado notou um sorriso maroto, no rosto do japonês.


                          - Nossa, um peixe! De onde veio isso? – indagou perplexo o menino.


                           - Veio lá de cima – respondeu o homem apontando a cabeceira do córrego.

Incrédulo o rapaz olhou novamente para o estranho.


                             - Vamos pegá-lo? – propôs o sujeito que tinha vestes de quem trabalhava em algum escritório administrativo.


                               Diante dos esforços em vão, para capturar o peixe com as mãos, o menino anunciou uma ideia:


                             - Se a gente tivesse uma peneira, a gente pegava ele.


                           - Mas nós não temos peneira – respondeu o aparecido com um sorriso sarcástico nos lábios.


                             - Vamos fazer uma então – retrucou o menino, iniciando a coleta do material que pretendia usar.


                                Van Grogue pegou uma forquilha de cabo bem grande e amarrando verticalmente, com os cipós, três pequenas hastes, nos vértices do triângulo, iniciou a tecelagem da geringonça.


                                   O homem agachado, retirando o barro que havia no pé esquerdo do seu sapato de cromo alemão, mostrava interesse pela ação do garoto.


                                 Quando o trabalho já estava quase concluído e o objeto aparentava uma peneira rústica de forma estranha, o menino tentou capturar o peixe usando-a.


                                    Mas não teve sucesso. O bichinho escapava e o pior de tudo aconteceu: numa das tentativas desconjuntou-se o engenho com o peso das águas.

  

                                   Sob o olhar irônico do homenzarrão, o menino bem constrangido, tentava consertar a coisa. Entretanto, num certo momento, tomado por um surto de ódio, levantou-se e atingindo com violência o chão, destruiu o equipamento.


                                   Bastante chateado o moleque desapareceu do mato.


                                    Van Grogue na mesa do boteco, já atordoado ouvia com menor exatidão as palavras ditas pelo casal ao lado.


                                     Esperando por outra garrafa de cerveja Grogue recordou-se que na casa vizinha a que ele morava, logo depois do incidente com o Yukió, mudou-se a empregada da professora catedrática, a doutora Mirthôa.


                                    Grogue lembrou-se de que daquele momento em diante, seus dias não foram mais os mesmos.

 

23/03/11

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publicado às 17:35


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