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O bar do Maçarico

por Fernando Zocca, em 14.04.09

 

         Van de Oliveira Grogue estava muito irritado naqueles primeiros dias do outono. Ele não acreditava que as pingas que bebia eram corrompidas pela ferrugem das tampinhas vedantes das garrafas.
         Ao caminhar cabisbaixo pela calçada, encharcada por causa das chuvas da noite anterior, Van pensava se o mal estar que sentia, seria minimizado por outras doses de pinga ingeridas “de encontro”.
         Crendo que a ressaca se curava com mais e mais álcool, Van decidiu ir ao bar do Maçarico, que ficava na esquina das ruas da Folga e Boa Vida.
         Durante o trajeto Grogue percebeu que sua amiga Elza, com quem estivera, numa das praias paradisíacas do litoral sudeste brasileiro, vinha em sua direção, carregando uma pequena sacola branca de plástico.
         A mulher ainda jovem foi logo cumprimentando o mais famoso biriteiro das plagas tupinambiquences:
         - Fala Van Grogue, pinguço do inferno!
         - Ô Elza, minha menina, como vai? Há quanto tempo, a gente não se vê! Se você não falasse comigo eu nem perceberia... – mentiu Van, simulando surpresa.
         - É, tenho notado que seu rosto está um tanto quanto que redondo demais. Seria por acaso, a pingaiada de sempre?
         - Que nada. Eu não bebo. Deve ser o cloro que estão pondo na água. Você sabe, esse prefeito é assim mesmo.
         Quando chegaram defronte ao bar do Maçarico eles pararam, mas Elza continuou a prosa:
         - Sabe Van, eu tinha um amigo o Edbar B. Túrico, não sei se você conhece... Você conhece o Edbar? – Elza indagava com visível interesse.
          - É claro que conheço. Nós fomos os primeiros fregueses do bar do Billy Rubina, a gazela. Nós ajudamos a fundar a instituição. – Grogue notou que o esforço feito para recordar fatos antigos causava-lhe certa dor de cabeça. Seria enxaqueca?
         - Então – continuou Elza - veja bem o que aconteceu com o Edbar: Ele foi abordado por um sujeito gozador chamado Chanom que tirou o maior sarro da cara dele, depois de lhe ter roubado parte da herança, aproveitando o fato dele viver sempre tonto, com a cuca cheia de cajibrina. Esse tal gozador era conhecido por ter o hábito do carteado. Ele não saía das sedes de jogo de baralho.
         Pois bem, quando Chanom conseguiu firmar uma amizade sólida com o Edbar, convidou-o a passar uns dias numa fazenda distante da cidade.
          Foi no dia em que o jogador comprou um Dodge Polara Cinza, zero quilometro, pagando a vista, com um cheque ganho na caxeta. Chanom, pegou Edbar na casa dele e, seguindo para um açougue comprou vinte quilos de carne e muita cerveja, tomando rumo ao sítio Pica-fumo.
         Na verdade o local era uma fazenda, onde não havia energia elétrica e nem água encanada. A luz para iluminar a escuridão das noites, vinha de lampiões, e a água, do poço, que ficava distante alguns metros da porta do quintal.
         Então quando estavam prestes a tomar o rumo do sítio, entrando na estrada de terra que levaria ao local, foram parados por uma viatura da guarda. Os homens estavam com um mandado de prisão contra Chanom, por não ter ele pago uma suposta dívida relacionada com pensão alimentícia.
         Ora, Edbar B. Túrico que achava que passaria boas horas longe do movimento tenso da cidade, quedou-se muito frustrado por causa daquele incidente.
         E papo vai, papo vem, Edbar ficou sabendo que vinte e cinco mil reais pagariam a conta reclamada. E como ele acabara de ser agraciado com uma bolada deixada por um parente finado, resolveu pagar a dívida do Chanom, obtendo em troca, a promessa de ressarcimento, no futuro.
         Depois que os “guardas” pegaram o cheque assinado por Edbar, ligaram para um suposto agente, que estaria num suposto escritório e, que garantiu a libertação do Chanom.
         E lá se foi a dupla rumo ao sítio. Edbar seguia mais pobre, mas consolado por uma promissória preenchida à mão, com tinta preta.
         Para chegarem àquela fazenda, propriedade de um parente do Chanom, a dupla tinha que parar o carro e, alguém deveria descer para abrir as porteiras que ficavam sobre mata-burros.
         Nas duas paradas que a dupla foi obrigada a fazer para abrir e fechar as porteiras, quem desceu foi o
Edbar.  Quando ele voltava pra dentro do carro era obrigado a ouvir “O menino da porteira”, em alto e bom som.
         Bom, pra resumir o assunto, quero lhe dizer que Edbar B. Túrico saiu dois dias depois daquela fazenda, após ter assinado documentos que transferiam a propriedade do seu apartamento ao maligno Chanom.
         Quando terminou a narrativa Elza perguntou:
         - Você entendeu agora, porque não é muito bom estar bebendo assim do jeito que você bebe ô Grogue?  
          - Ah, mas é claro que eu saco esse lance. Quem é que não sabe disso? Mas há diferenças entre eu e o Edbar. – Apesar do atordoamento que sentia Van ainda conseguia expressar algum raciocínio. – Primeiro - continuou ele - eu não sou alcoólatra igual ao Edbar, e segundo, não tenho propriedade nenhuma. Falou colega? – dizendo isso Van Grogue despediu-se da mulher zelosa e entrou, pisando com o pé direito, no bar do Maçarico.
 
 
 
Fernando Zocca.

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publicado às 16:56


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