Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A mulher do amigo dele

por Fernando Zocca, em 02.04.09

Van de Oliveira Grogue estava amando, com loucura, a mulher de um amigo dele.
França, como era conhecido o colega de todas as horas, das festas, dos longos passeios de carro nas noites quentes, e reuniões divertidas, trabalhava na Companhia Tupinambiquence de Força e Luz (CTFL), e nunca imaginaria que o aprazível Van, cortejaria sua esplendorosa Lúcia.
Quando França desconfiaria que suas saídas matinais diárias, rumo ao salão onde trabalhava, facilitariam os encontros amorosos adúlteros de Lúcia e Van?
Mas era o que realmente acontecia. Logo cedo, depois que França aquecia o motor do seu carro velho, já um tanto quanto que desbotado, pelo maltratar do tempo, Lúcia sentia, nas entranhas, a excitação, que a probalidade do surgimento do Grogue lhe causava.
Mal raiava o dia, e após o predomínio do silêncio, originado pelo afastamento do carro antigo do França, surgia assim, como que saído da espreita, o velho Van de Oliveira, buscando a saciação do afeto contido.
Naquele alvorecer de terça-feira, nove de Novembro, Van aproximou-se, desligando o motor do carro, cem metros antes da casa do França. Deixou o automóvel deslizar em relativo silêncio até a pouca distância do portão da amada.
Ele desceu, fechou com cuidado a porta, não acionou o alarme, e caminhou pé-ante-pé em direção da sua alegria, do seu equilíbrio.
A contusão no artelho direito, causada por um bicudo desesperado, dentro da sua grande área, durante a pelada na terça-feira anterior, fazia-o claudicar.
Seguindo instruções de Lúcia, França não passava a chave no portão, sob a alegação de que facilitaria a saída dela para a compra diária do leite da Luiza.
Então, com o coração aos galopes, a respiração contida, Van afastou, com delicadeza extrema, aquele obstáculo que o separava do seu amor proibido.
Fazia tudo lentamente: o abrir o portão, o caminhar no corredor, o tocar na porta semi-aberta da casa, tudo era realizado objetivando não despertar os cães ladradores, a vizinhança abespinhadiça, estorvo inibitório.
Mas naquela manhã, Luíza a filha de Lúcia, nascida de outro relacionamento, chorava emburrada, sobre a máquina de costura.
A menina não atendia aos reclamos da mâe, que lhe pedia para não estragar, com aqueles chutes e palmadas, a Singer vetusta do pai, por ser ela de estimação, lembrança do tempo em que ele fora alfaiate.
A criança chorava, esperneava, demonstrando insubmissão impertinente. Mas Lúcia, contornando a situação, fez com que a menina se acalmasse, vendo logo em seguida, que ela caiu no sono profundo.
Grogue ouvia tudo do lado de fora. Quando sentiu a turbulência, dentro da casa, achou que a ocasião divergia das demais anteriores, caracterizadas pela atmosfera amena.
A menina não poderia vê-lo pois poderia, conversando com o pai, relatar a presença dele, amigão, naquela hora intempestiva do dia.
Quando percebeu que o silêncio predominou, sucedendo a agitação, Grogue tocou de leve a porta, anunciando-se.
Lúcia que já o esperava, apressou-se em escancarar a porta, abraçando-o logo que ele entrou. Ali mesmo na sala, amaram-se com loucura, sôfregos, tensos, tomados pela possibilidade, remota, mas possível, do surgimento repentino do França.
Quando Grogue, depois de vestir com pressa a calça, calçar os sapatos, saia rumo ao corredor ouviu Lúcia pedindo-lhe:
- Van, faz uma música pra mim, pro nosso amor?
Respondendo afirmativamente, com palavras vagas, aquele pedido esquisito, Grogue ao fechar o portão da rua, procurava a resposta para a pegunta latejante que não queria calar: “Quem foi que lhe disse ser eu compositor?”

 

 

 
Fernando Zocca

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:33


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D