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Sem sunga

por Fernando Zocca, em 29.10.09

 

Van Grogue na manhã de sexta-feira, no boteco do Bafão, sacou um cigarro do maço e acendeu-o com maestria. Levantando o cotovelo na altura da cabeça, segurou o pito com os dedos médio, indicador e polegar da mão direita. Mantendo então em paralelo a bagana e o chão, levou-a a boca, aspirando profundamente a fumaça.
 
Quando a soltou percebeu que os insetos voadores do local sofreram turbulência nos seus vôos. Muriçocas, pernilongos, moscas e pequenas borboletas perderam altitude despencando com perigo rumo ao chão.
 
Sorumbático pôs-se a pensar na causa de estar Tupinambicas das Linhas em retrocesso. Foi então que ele viu um menino vestido com a camisa da seleção brasileira de futebol chutando uma bola na parede da casa vizinha ao bar do Bafão. Notou o Isaac Newton tupinambiquence que a pelota voltava quando encontrava obstáculo maior do que ela. Então era assim: o desenvolvimento da urbe parava e regredia por não ter capacidade para seguir adiante.
 
De fato! Tupinambicas das Linhas, sob comando do Jarbas bigodão, caquético-testudo, dava sinais de retorno ao passado. As reformas feitas nas praças públicas pela prefeitura, financiadas por latifundiários, traziam os desenhos dos tempos em que o povo, por não ter TV em casa, caminhava em círculos, em torno do jardim central. Era uma distração provinciana.
 
Alguns antropólogos afirmaram ter o movimento circular daqueles habitantes de Tupinambicas das Linhas a origem no gesto de girar o indicador em volta da orelha, sinalizador da loucura.
 
Alguns diziam que só faltava mesmo o empresário Pitirim Zorror reconstruir o edifício Luiz de Queiroga, desabado em meados do século XX, quando matou muita gente. A maioria dos observadores duvidava de que até Freud pudesse explicar a ocorrência do fenômeno retrocedente.
 
Servino Pires constrangido por estar perdendo hora, entrou apressado no boteco. Ele havia prometido ao amigo Van que lhe traria, antes das dez, um elmo verdadeiro. Bafão  ao ouvir dias antes a história não deu importância ao fato, classificando-o como coisa de pingueiro.
 
Pires aproximou-se do amigo e disse: "Eu queria vir antes, mas não deu. Fiquei enrolado com o fusca branco do meu irmão. Ai eu pensei: já já eu vou. Mas não vim. Quando fiquei livre apareceu minha irmã querendo que eu a levasse de carro ao clube. Ai eu fiquei brabo e sai correndo. Esqueci o elmo.”
 
Van Grogue escorado com o cotovelo esquerdo sobre o balcão, apoiado no pé esquerdo, folgava tendo o direito relaxado sobre a ponta do sapato. Ele olhou Servino Pires de alto a baixo e bateu a cinza do cigarro com o indicador direito. Queria ver notado o seu desdém.
 
Charles boca-de-porco passou "pisando em ovos" defronte ao boteco. Temia ser visto. Ele devia mais de R$ 500 só de pinga e a oficina de conserto de sapatos não rendia nada. O pessoal vinha, trazia o serviço, mas não voltava para pegar os calcantes.
 
Em volta da garrafa, que Servino mandou abrir, procuravam os parceiros desenvolver a prosa boa. Mas um sacripanta abusado, com estardalhaço, manejava uma furadeira na casa ao lado, tentando abrir rombo no batente de peroba. O zunido abafava a conversa dos mortais desejosos de momentos descontraídos.
 
Van Grogue acendeu outro pito e percebeu que o falar alto tirava o gosto da palestra. O zumbido prosseguia. Um motor elétrico possante, logo em seguida lançava um jorro d´água na calçada da casa defronte ao botequim. Aquilo virou um inferno.
 
Dizendo: "Vou viajar pro Espírito Santo" Servino Pires saiu deixando Van Grogue só. A barulheira prosseguia. Em cima do balcão um embrulho, aberto depois por Bafão, indicava ter o Pires esquecido a sunga.
 
 
Fernando Zocca.

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publicado às 13:01


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