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A tia Ambrosina

por Fernando Zocca, em 26.03.09

 

                       Jarbas o prefeito mais astuto que a cidade de Tupinambicas das Linhas conseguiu reeleger, teria naquela manhã de segunda-feita, outra reunião com o deputado estadual Tendes Trame.
                        Quando o alcaide saiu logo cedo defronte sua casa, depois de ser avisado que o motorista da prefeitura, já estava à sua espera, notou que o homem mantivera o carro na contramão.
                        Despedindo-se da empregada Jarbas disse:
                        - Sandra, avisa a tchutchuca que já fui pra prefeitura. Que voltarei logo mais para o almoço.
                        A doméstica Sandra, que trabalhava para a família há mais de trinta anos, notou que a gola da camisa do patrão estava amassada, tentando por isso avisá-lo. Jarbas, no entanto, esquivou-se saindo logo e fechando a porta atrás de si.
                        - Bom dia. – disse o prefeito ao motorista, funcionário da prefeitura.
                        - Bom dia. – o homem respondeu expressando também o seu mal humorado estado de espírito. Ele sabia que tinha de parar com o cigarro. As fábricas avisavam, com as figuras impressas nos maços, sobre os malefícios que o produto poderia trazer.
                        - Pra prefeitura, senhor?
                        - É claro, sua besta. Onde você pensa que eu, o prefeito reeleito com a maior quantidade de votos jamais vista nesta cidade, poderia ir nessa hora?
                        O motorista que já estava acostumado com as humilhações, nem pensou em revidar ou responder às grosserias. Ele tinha três filhos ainda em idade escolar e, não sabendo fazer nada mais do que conduzir carros pelas ruas da cidade, não podia mesmo reagir igual a alguém independente.
                        Jarbas como de costume, sentou-se no banco do carona e, sem dizer mais nenhuma palavra, mas com um estalido nos dedos, mandou que o homem começasse a trabalhar.
                        Notando que o funcionário mostrava-se embaraçado, provavelmente constrangido, pela rudeza das palavras que ouvira,  Jarbas não aliviou:
                        - Vai múmia! Esqueceu de tomar seu chá hoje?
                        O pobre funcionário sentindo o rosto avermelhar-se inseriu a chave na ignição dando partida no motor.
                        - Estamos com pressa. Tenho outra reunião com aquele palhaço do Tendes Trame. O sujeito parece que tem duzentos anos, mas mesmo assim, não aprende a fazer as coisas certas. Onde já se viu, outra conta da prefeitura rejeitada. E tudo por causa das orientações dele. Pisa nessa merda, ô imbecil!
                        Depois de algum tempo de trajeto tenso, quando a dupla já se aproximava do prédio da prefeitura, tocou o telefone celular do Jarbas.
                        - Alô! Quem? Ambrosina? É você minha nega? Nossa, há quanto tempo! Pensei que tivesse morrido! Mas onde esteve durante todo esse tempo? Mas que voz macabra é essa? Parece que sai da tumba!
                        Enquanto Jarbas conversava com Ambrosina o motorista manobrava o carro parando-o defronte a entrada da prefeitura. O homem desceu e, para ser gentil, deu a volta, indo abrir a porta do chefe. Quando o funcionário tocou na maçaneta, foi interrompido pelo chefe.
                        - Sai fora, ô pobre do inferno! Será que não se pode nem ao menos conversar em paz, com os amigos que há muito não se falam?
                        O motorista tirou do bolso traseiro um lenço, com o qual enxugou a testa, de onde escorriam incontáveis gotas de suor. Tenso ele ainda manteve-se a disposição da chefia.
                        Jarbas terminou de conversar e saindo do carro caminhou em direção ao elevador que o conduziria ao gabinete. Durante o trajeto ele murmurava:
                        - Nossa! Tia Ambrosina! Quem diria? Mas não tem nada não, a senhora ainda vai me trazer vantagens. – dizendo isso o prefeito secou o suor que lhe escorria pelo cangote com o lenço rosa que sacara do bolso, subindo em seguida ao gabinete, onde certamente Tendes Trame, o funâmbulo, o esperava.
 
 
 
(Fernando Zocca)
                       
                       

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publicado às 18:32



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