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Irritando Luisa Fernanda

por Fernando Zocca, em 10.11.09

 

                      Luisa Fernanda experienciava momentos difíceis naquele já distante princípio de janeiro. Diziam as más línguas que o banco em que ela trabalhava demitiria muita gente e que ela, considerada funcionária inábil, seria uma das que estavam na lista das demissões.
 
                        O estado emocional disfórico predominante na Luisa Fernanda contaminava os que viviam ao seu redor e por isso mesmo, naquela manhã de segunda-feira, Célio Justinho, ao notar os resmungos da parceira, achou melhor não dar-lhe um bom dia com aquele entusiasmo característico de quem tivera uma boa noite de sono.
 
                        Justinho lembrou-se que Luisa Fernanda tentava descontar no filho do barbeiro vizinho, os dissabores sofridos com a figura maligna. Realmente na noite passada a mulher, com identidade falsa, passara algumas horas na Internet dialogando com o menino.
 
                        Célio Justinho achava que Luisa Fernanda procurava atormentar o garoto para que ele brigasse dentro de casa, punindo dessa forma, o barbeiro malvado.
 
                        - Não vai comprar o pão e o leite hoje? – perguntou bastante tensa Luisa Fernanda ao Célio que, depois de escovar os dentes, ligara a TV.
 
                        Por ser o Célio dependente da Luísa Fernanda, fazia ele tudo o que ela mandava. E mal pudera acomodar-se para ver os telejornais matutinos, quando sentira os maus humores da mulher que o faziam mexer-se.
 
                        - Vai, vagabundo, faça alguma coisa! Você pensa que minha vida lá no banco é fácil? Retardado mental! Faz dois mil anos que tenta tocar o hino do Corinthians e não consegue! Nem pra isso você presta!
 
                        Já passava das oito da manhã quando Célio entrou no bar do Maçarico. Num canto Virgulão, o homem que vendera de uma só vez, duzentas e sessenta e quatro máquinas de escrever pra Prefeitura de Tupinambicas da Linhas e que gostava de tocar cavaquinho pra periquito engaiolado ouvir, bebericava da sua segunda garrafa de cerveja.
 
                        Célio Justinho ao pegar os pães, embalando-os viu que também entrava no recinto o Van Grogue. Foi então que Virgulão disparou:
 
                        - Van Grogue carrapato de capivara tuberculosa; pó de bosta de urubu catinguento; coprofágico inaugural da maior cidade do estado de São Tupinambos. É verdade que você é adepto da coprofagia?
 
                        Van de Oliveira já estava atordoado e não pudera evitar o abalo maior que lhe produziu a detonação daquelas palavras.
 
                        Van Grogue aprumou-se, tirou um cigarro do maço e, com gesto exagerado, com a mão direita pediu o seu produto preferido. Então ele se voltou para Virgulão e se defendeu:
 

 

                        - Isso tudo não passa de brutalidade dessa gente incompetente. São pessoas paranóides; elas têm delírios de referência; são incapazes de fazer qualquer coisa. Essa turma só sabe falar mal de quem faz. Eles não conseguem produzir nada e por isso inventam essas grosserias pra desqualificar quem provoca a inveja neles. As indelicadezas são ditas pra desmerecer a quem sabe fazer.
 
                        Virgulão riu e convidou Grogue para sentar-se ao seu lado.
 
                        Célio Justinho pagando o pão e o leite que pegara, saiu apressado. Ele tinha que chegar rápido em casa, antes que esquecesse o que ouvira. Ele precisava contar logo pra Luisa Fernanda que Van Grogue era mesmo um besouro coprófago.
 
 
 
Fernando Zocca.  
                         
                         

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publicado às 12:59

Fazendo maldade

por Fernando Zocca, em 04.11.09

 

           Imagine o meu amigo leitor a cena em que o comerciante de máquinas de escrever ao vender o seu produto e não recebendo o seu crédito, intenta a cobrança de outra pessoa que não tem nada a ver com o assunto.
 
            No mesmo sentido, pode o meu nobre amigo considerar justa a punição feita pelo Estado a um sujeito que não cometeu qualquer delito?
 
            Tanto o comerciante quanto o Estado, nas hipóteses acima, ao agirem cobrando e punindo o sujeito alheio às questões, estarão cometendo injustiças gravíssimas, que por sua vez originarão outras, e mais outras, até o final dos tempos.
 
            É princípio básico do Direito Penal a individualização da pena. Dessa forma não pode o pai pagar por um crime cometido pelo filho e muito menos o filho ser condenado por um crime cometido pelo pai dele.
 
            Como posso exigir o pagamento de uma conta a alguém que não a fez se não estiver imbuído de muita má-fé e ódio?
 
            Ocorre que em determinados momentos da nossa vida podemos escolher entre o bem e o mal. E se a prática do mal a um ingênuo, nos trouxer as vantagens que necessitamos, por que então não fazê-lo?
 
            Quando se abraça a causa de alguém, deve-se ter em mente os princípios da justiça sob pena de, agindo equivocadamente, aumentarmos a proporção do problema. Então como podemos pagar por algo que não fizemos, sem sentir uma forte indignação, batalhando para desmontar os esquemas injustos?
 
            A justiça é coisa séria. É muito mais do que pode imaginar a nossa filosofia frívola. A prática da injustiça causa um sentido de revolta tão intenso, fervilha tanto que induz aos desejos cegos de violência, podendo porém, produzir o contrário: a chamada depressão reativa.
 
            As vítimas das maldades agindo sob o descontrole são um prato cheio para os vingadores, os cruéis.
 
            O comerciante de máquinas de escrever, ao se apropriar de parte do pagamento de um dos seus vendedores, como forma de fustigação, agiria de má-fé se tivesse a consciência de que possivelmente aquela sua vítima não merecesse o castigo.
 
            Mas agiria tomado por muita ignorância se considerasse que o ódio brotado da frustração, fosse descontado em qualquer um, no primeiro que aparecesse, independente de mérito ou culpa.
 
            Do rol de maldades que se faz contra alguém está o bullying nas escolas. Imagine o estrago que uma professora  poderia fazer num aluno, se o pai ou a mãe da criança lhe devesse alguma coisa ou lhe tivesse causado algum prejuízo.
 
            Imagine a crueldade do patrão contra um empregado se o pai daquele trabalhador pudesse ter originado algum dano a qualquer parente, mesmo que distante, do tal proprietário comerciante.
 
            Essas fustigações, antes das denúncias feitas pela imprensa, batizadas de Assédio Moral, eram praticadas há muito tempo, levando suas vítimas ao crime, às doenças psicossomáticas e à morte.
 
            Os procedimentos condenáveis desonram não só a quem os pratica como também a empresa onde o desmerecedor trabalha.
 
            Ainda que tenhamos o cocoruto fervente com tanta maldade recebida, não percamos a paciência, façamos o bem.
 
Fernando Zocca.  

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publicado às 15:08

O Cru e o Cozido

por Fernando Zocca, em 03.11.09

 

Com muita alegria no coração e bastante desprezo na alma, era assim que o titio malvado e o priminho do Van Grogue o trataram quando se viram a sós com ele, na sala mal arejada do pequeno apartamento no Centro de Tupinambicas das Linhas.
 
                        O ódio todo que compunha aquelas estruturas do adulto agressor, impossibilitado de se dissolver nas agressões contra o pai do menino ingênuo, voltava-se contra o fofinho, retardado mental, que a tudo suportava, sem conhecer a etiologia da insensatez dos prejudicados.
 
                        Eles estavam no apartamento modesto situado numa das ruas centrais mais movimentadas da cidade, no final da década de 1960. O marmanjo frustrado, agressor de criança, vivera um passado em que, na gandaia permanente, perambulava de bar em bar buscando a felicidade. Encontrara no jogo de baralho um lenitivo para sua angústia, loucura e violência.
 
                        Diziam que durante um momento da vida errante que tivera, o tio do Grogue perdera, no carteado, parte da fortuna deixada por seu pai, - avô do menino -. E que numa tentativa vã de se estabelecer por contra própria, iniciara uma empresa comerciante do mais puro café tupinambiquence.
 
                        Mas por ser necessário muito juízo e bom senso, a quem quisesse se firmar no comércio, falhou logo a empreitada do tio perverso. De derrocada em derrocada, não tinha como explicar sua impotência se não a atribuísse à incúria do pai do Grogue.
 
                        E como não conseguia atingir o próprio irmão, valia-se do menino tonto,  descarregando nele as tensões das frustrações. Groguinho, por sua vez, ante as constantes situações em que se via humilhado, buscou aprender novas habilidades que pudesse demonstrar, obtendo respeito.
 
                        Foi nessa época que Groguinho comprou e leu “O Cru e o Cozido” do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss.
 
                        O tio do Van, quando viu a obra, que o menino lhe mostrava, ali naquela sala mal ventilada, pensou tratar-se de um livro de culinária e lhe perguntou se faria o cozido no forno do seu fogão quatro bocas. E percebendo o vacilo do menino, o tio feroz disse:
 
                        - Se você não souber cozinhar chame logo a Claudete. Você conhece a Claudete?
 
                        Quanta maldade! Os covardes, sem dúvida nenhuma, seriam capazes de, em atos puros de vingança, se aproximar do leito do paciente de recente cirurgia cardíaca, provocando-lhe a morte ainda na UTI.
 
                        A questão que não queria calar na mente do menino retardado era: estariam certos os herdeiros prejudicados, em praticar maldades às ocultas, contra seus primos e sobrinhos, diante dos prejuízos que sofreram?
 
                        É claro, nobre leitor, que os cruéis julgavam agir de forma correta diante das injustiças que padeceram. E foi assim, com essa convicção, que disseminaram durante dezenas de anos, os venenos mortais contra Groguinho, seus irmãos e tios, na cidade, matando-lhes a alma.
 
                         As ações praticadas pelos ruins poderiam ser traduzidas assim: “Quero o que me pertence, mesmo que isso implique na morte ou na doença de quem o possua”.
 
                        Muito macho isso, não?
 
 
Fernando Zocca.
                          

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publicado às 20:44

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