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Falando dez vezes mais

por Fernando Zocca, em 17.05.09

 

                            Gabrielzinho “o boca de porco” não era locutor esportivo, mas claro, falava dez vezes mais.
                            Diziam do possesso, amante das “casas de luzes vermelhas”, que ele não era carranca do rio São Francisco, mas que também não deixava de ser bem feio.
                            Ele tivera a quem puxar. Seu pai um pinguço banguela e tabagista era mais horroroso do que bater na mãe por falta de mistura. Da genitora então, nem se fala. Era bunduda, barriguda e seus pés chatos, tinham os calcanhares rachados.
                            Gabrielzinho o assombro da vizinhança, era esguio, tinha 1,64m de altura, pálido, magérrimo e, o seu encasquetamento com alguém ou alguma coisa, significava o mesmo que a ferrugem para os metais ou as manchas para os trajes de gala.  
                            Gabrielzinho amasiou-se com uma catadora de papelão e latinhas, tendo com ela três filhas. Ele mostrou-se muito irado, quando descobriu que a menina, a quem convidara para residir com ele e seus pais, não era mais virgem, tendo perdido essa condição, num motel de beira de estrada, onde farreava com um metalúrgico aposentado.
                            Alguns psiquiatras dos centros de reabilitação onde seus filhos eram atendidos, diziam que Gabrielzinho era portador da esquizofrenia paranoide e, que quando estava sob os surtos da afecção, punha-se a falar coisas sem nexo por longas horas durante as madrugadas, fazendo comentários depreciativos inclusive, sobre as roupas que as pessoas repetiam.  
                            Não havia constrangimento dos demais parentes e nem eles mesmos se incomodavam com as lengas-lengas do demente, pois acreditavam que, quando ele “o boca de porco” agia assim, estava sob influência dos maus espíritos.
                            Gabrielzinho simulava trabalhar num posto de gasolina, mas na verdade, nunca saia de casa. Ele justificava essa atitude dizendo que as crianças, sob sua guarda, tinham que manter-se entretidas para não atrapalharem os descansos da velhota de calcanhar rachado.
                             Um dos tios do Gabrielzinho era gay assumido, e já não causava tanto espanto nos demais familiares, as aparições que ele, a gazela, fazia trajando as vestes da mãe, há dezenas de anos falecida.
                            Alguns parentes, mais experientes, podiam garantir que ao Gabrielzinho não haveria outro destino do que o manicômio, a cadeia, ou mesmo o cemitério da cidade. 
                              

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publicado às 19:42



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