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A Viagem

por Fernando Zocca, em 09.06.12

 

 

 

A menina aproximando--se lentamente do leito de morte, da velhinha querida e, vendo inserido, numa das narinas dela, aquele longo tubo fino de borracha, que saia de um orifício da parede, acima da cabeceira da cama, sentiu um forte desejo de saber o que era.

- Olha, não mexa nessa cânula, que é oxigênio, ouviu?  E não faça barulho se não você vai acordá-la. - decretou a enfermeira, que acabava de chegar, depois de saber que a paciente, sob seus cuidados, recebia a visita de uma criança.

A guria, com a experiência que lhe proporcionava os nove anos de vida, nada respondeu.

Quando ficou só, a neta percebeu que a avó abriu os olhos dirigindo-lhe em seguida, o olhar que expressava serenidade.

- Oi vó. - disse timidamente a garota, cujas mãos estavam geladas.

- Oi, bem. Você por aqui? Cadê sua mãe?

- Ela está lá na portaria do hospital, conversando com a mulher do escritório. A senhora melhorou?

- Estou bem. Eu me preparo agora para o fim da viagem, a grande viagem.

- Como assim vó? A senhora vai viajar?  Pra onde? - quis saber a jovem sentindo alguma alegria.

- A vida da gente é quase igual a uma viagem, às vezes, longa, outras vezes, bem curta. Sabe... Tem o ponto de partida, o transcurso e depois o fim, a chegada.

Sem poder compreender o que dizia a avó, a menina calou-se entristecida.

- Você sabia que quando nascemos todos os nossos entes queridos riem de satisfação, e só a gente chora?

Espantada, a jovenzinha fixou o olhar, na face tranquila da idosa.

- Olha meu bem... Viva a vida de um jeito que, quando você morrer, todos os que te amam chorem, e só você sorria. Entende?

Percebendo que a avó fechou novamente os olhos e, ouvindo a sororoca que principiava a menina com medo, deu um passo pra trás.

A mocinha sentiu e voltou-se assustada, quando alguém lhe tocou, levemente, o ombro direito.

- Vamos embora. Não podemos fazer mais nada. - disse-lhe a mãe, com a voz num tom baixo e bem triste.

Depois de fecharem, com muito cuidado, a porta do quarto, mãe e filha caminharam, devagar e juntas, pelos gélidos corredores vazios do hospital, em direção à saída ensolarada.

Ao trafegarem pelo pátio, passaram por um chafariz, ornado com dois peixes brancos de mármore, e donde jorrava também, para cima, alguns fiozinhos de água.

No tanque, a transparência da água deixava ver os três pequenos peixes vermelhos, que serpenteavam submersos.

 

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publicado às 20:11



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