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A FALECIDA ABELHUDA

por Fernando Zocca, em 27.05.11


 

Vocês já devem me conhecer. Sou pessoa de destaque em nossa sociedade. Trabalhei um tempão no sistema econômico-financeiro e depois de valorizar cada centavo recebido, em troca do trabalho praticamente mole que ofertava, aposentei-me honradamente. Nasci numa fazenda, onde se criavam galinhas, galos, porcos, cabras, vacas e tudo o mais que se pode produzir em locais saudáveis, inclusive a plantação de cana.


Quando vim para a cidade, formei-me professora e casando-me muito bem, não encontrei obstáculo intransponível que me fizesse desanimar da minha gloriosa carreira.


Obedecendo as ordens do meu coração, senti que deveria devolver para a sociedade em que vivia, as mesmas benesses com que fora agraciada. É a chamada ética da reciprocidade. Assim retribui-se em muitas vezes tudo aquilo que a sobredita sociedade te deu. Bem para não me alongar muito nesses entretantos cacetes, considerei juntamente com meu maridão portentoso que deveria candidatar-me a uma vaga na Câmara Municipal.


Quando todos em casa mostraram-se concordes, tratei de procurar por um partido que se coadunasse com as minhas ideias de mamãe já quarentona. E foi assim que depois de uma luta terrível consegui vaga para a disputa no pleito próximo.

 

Fui eleita por arrasadora maioria dos votos. O segundo colocado distanciava-se de mim assim como o sol distanciava-se da terra. Em termos mais simples, eu na verdade "arrebentei a boca do balão".


Bem, fui eleita também, na legislatura seguinte, ao cargo de vice-prefeita, tendo como titular uma colega nossa que fora militante sindical.


Uma das minhas obrigações como vice era a de frequentar escolas, saber das necessidades, fazer média, "colocar panos quentes", e enrolar ao máximo a petizada.


Numa dessas incursões, estando o colégio todo reunido no pátio, sob o sol forte das onze horas e ao som tenebroso do diretor apoquentado, deu-me uma súbita vontade de fazer xixi.

 


Disfarçando ao máximo meus movimentos, procurei sair do centro dos acontecimentos, sem chamar para mim, a atenção das pessoas.


Quando cheguei ao banheiro destinado aos alunos da escola, notei que poderia ficar a vontade, eis que não havia perigo de importunação.


Ao me ver aliviada, e recompondo as vestes para deixar o local, notei que o ferrolho da porta havia enguiçado.


Fiquei nervosa. Bati na porta, e ninguém me ouviu. Peguei na parte de baixo daquela peça toda manchada e escrita com garranchos incríveis, e tentando derrubá-la, notei que meus esforços eram em vão.


Notei que havia somente uma forma de sair daquele local nojento. Seria ligando para o diretor, espanhol louco, e informando a ele os fatos que estavam acontecendo.


Mas antes, tratei de puxar novamente a descarga. Considerei que o cheiro não provocaria boa impressão no pessoal que viria salvar-me. Arrumei minhas vestes de modo que não pensassem que era uma desleixada e negligente, e munindo-me de coragem acionei o dispositivo do celular.


A cessação daquele burburinho que vinha do pátio lotado me fez pensar que o telefone do diretor, espanhol louco, estava tocando dentro do seu bolso, durante um discurso importantíssimo. E meu pensamento estava correto. Quando o homenzarrão atendeu com um grosseiro "alô", gelei-me toda. E como explicaria a ele que estava presa no banheiro da escola? Bem, eu tinha que contar, de uma forma ou de outra.


E contei.


Minutos depois um solícito inspetor de alunos embrenhava-se no recinto mal cheiroso perguntando por mim. Em ato contínuo, aos pontapés, botou a porta abaixo.


Bem, resumindo a história toda devo dizer que nunca mais entrarei em banheiros que desconheço, mesmo que isso importe em suportar o desconforto das necessidades insatisfeitas.


O fato inspirou-me a criar um projeto de lei que visava cobrar da população usuária dos banheiros públicos, uma taxa que serviria para a manutenção dos locais.


Afinal, aqui se faz, aqui se deve pagar.


Publicado originalmente em 01/10/2002 no site usinadeletras.com.br

27/05/11

 

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publicado às 19:49


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