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O Peixe Vermelho

por Fernando Zocca, em 23.03.11

 

 

 

                         Depois de caminhar muito pelas ruas da cidade Van Grogue, bastante cansado, entrou no Magestic Bar, situado na Rua Governador Peter King, propriedade de Claudinho Quati.


                        Van Grogue sentou-se a uma das mesas, perto da porta e pedindo, com um gesto ao barman, a cerveja “esperta”, ouviu a conversa do casal que, postado na mesa contígua, trocava ideias mansamente.


                        O homem era bem alto, já passara dos cinquenta anos, tinha os cabelos embranquecidos e no tom da sua voz transparecia certo cansaço.


                          Seu terno impecável, azul pavão, indicava ser a figura, alguém que prezava a meticulosidade, os detalhes de tudo, fenômeno observável também na articulação cuidadosa das palavras.


                        A mulher tinha menos de trinta anos, seus cabelos louros estavam curtos e a minissaia preta, contrastava com a blusa estampada, na qual predominava a cor branca.


                        - O sujeito era deficiente físico, morava na casa existente no fundo da loja de armarinhos, e passava a maior parte do dia na cama, onde lia as matérias do curso colegial que fazia – disse sereno o homenzarrão, ingerindo um gole de vinho branco.


                        - Ele não trabalhava? – quis saber a loura.


                        - Não. Ele usava botas ortopédicas pretas e se não estudasse as matérias do curso que fazia, lia outras coisas. Bom, no imóvel vizinho, havia um boteco pequeno onde uma família japonesa trabalhava. A mulher era viúva e tinha dois filhos adolescentes. Eles também estudavam e um deles o Yukió pretendia ser médico.


                        - Nossa! Que interessante! – exclamou a jovem. Ela servia-se da salada precedente do almoço.


                         - Bom, depois que me mudei de lá, e passados muitos anos, soube que o tal Yukió matou-se com um tiro nos cornos.


                           Na mesa ao lado Grogue quase engasgou com a notícia. Mas uma coisa acendeu-se na sua lembrança e assim, como que num passe de mágica, pôde ver o dia em que, quando criança, brincava num local chamado por ele, seus colegas e irmãos de “mataréu”.


                          O local era propriedade da família da professora catedrática doutora Mirthôa, que também tinha algum direito sobre os imóveis deixados pelo avô do Grogue.


                         Numa tarde, Van de Oliveira, estando sozinho no meio da mata, descobriu um corregozinho que a certa distância do seu nascedouro, depois de despencar de uma pequena altura, formava uma lagoazinha.


                          O menino estava entretido com o achado e, desejando aumentar o volume da água, construiu uma pequena parede de barro que circundava as margens.

 

                          Mas, no exato momento em que o menino voltava-se, depois de pegar um graveto, apareceu-lhe na frente um japonês adulto, bem vestido que, sorridente perguntou ao garoto o que ele fazia ali.


                          O rapaz respondeu que brincava, quando ouviu o homem pedir-lhe que pegasse uma vareta caída atrás dele - do guri.


                           O menino obedeceu, mas quando se voltou, viu que havia na pequena lagoa, um peixe ornamental vermelho.


                           O moleque embasbacado notou um sorriso maroto, no rosto do japonês.


                          - Nossa, um peixe! De onde veio isso? – indagou perplexo o menino.


                           - Veio lá de cima – respondeu o homem apontando a cabeceira do córrego.

Incrédulo o rapaz olhou novamente para o estranho.


                             - Vamos pegá-lo? – propôs o sujeito que tinha vestes de quem trabalhava em algum escritório administrativo.


                               Diante dos esforços em vão, para capturar o peixe com as mãos, o menino anunciou uma ideia:


                             - Se a gente tivesse uma peneira, a gente pegava ele.


                           - Mas nós não temos peneira – respondeu o aparecido com um sorriso sarcástico nos lábios.


                             - Vamos fazer uma então – retrucou o menino, iniciando a coleta do material que pretendia usar.


                                Van Grogue pegou uma forquilha de cabo bem grande e amarrando verticalmente, com os cipós, três pequenas hastes, nos vértices do triângulo, iniciou a tecelagem da geringonça.


                                   O homem agachado, retirando o barro que havia no pé esquerdo do seu sapato de cromo alemão, mostrava interesse pela ação do garoto.


                                 Quando o trabalho já estava quase concluído e o objeto aparentava uma peneira rústica de forma estranha, o menino tentou capturar o peixe usando-a.


                                    Mas não teve sucesso. O bichinho escapava e o pior de tudo aconteceu: numa das tentativas desconjuntou-se o engenho com o peso das águas.

  

                                   Sob o olhar irônico do homenzarrão, o menino bem constrangido, tentava consertar a coisa. Entretanto, num certo momento, tomado por um surto de ódio, levantou-se e atingindo com violência o chão, destruiu o equipamento.


                                   Bastante chateado o moleque desapareceu do mato.


                                    Van Grogue na mesa do boteco, já atordoado ouvia com menor exatidão as palavras ditas pelo casal ao lado.


                                     Esperando por outra garrafa de cerveja Grogue recordou-se que na casa vizinha a que ele morava, logo depois do incidente com o Yukió, mudou-se a empregada da professora catedrática, a doutora Mirthôa.


                                    Grogue lembrou-se de que daquele momento em diante, seus dias não foram mais os mesmos.

 

23/03/11

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publicado às 17:35


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