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Os Genéricos

por Fernando Zocca, em 14.03.11

 

                                                   Do alto e segurança de toda aquela sua ciência a doutora Ana Menese foi informada pela secretária, que Tendes Trame, o deputado mais corrupto do estado de São Tupinambos, faria-lhe uma consulta.

 

                        - Mas ele já pagou os honorários? – perguntou a psiquiatra, agora casada com o ilustre e também alienista doutor Silly Kone.

 

                        - Não pagou ainda, mas ele sempre deixa um cheque na saída – respondeu a moça loura, fechando atrás de si a porta do gabinete.

 

                        Ana Menese buscou no fundo da gaveta superior esquerda, daquela sua mesa antiga do consultório, o último relatório, enviado pelo laboratório fabricante dos neurolépticos, que ela mais receitava.

 

                        Apesar dos números apontarem para um expressivo aumento dos lucros no semestre, a psiquiatra achava que a sua meta daquele mês, deveria ainda ser expandida. As contas se avolumavam e as comissões recebidas, tanto dos antidepressivos, quanto dos demais psicotrópicos, deveriam também recrudescer.

 

                        Depois de ter guardado os papéis, Ana Menese buscou na agenda a confirmação da data do próximo simpósio sobre antipsicóticos, que a levaria a Paris.

 

                        A viagem e a estadia seriam financiadas também pelo laboratório, fabricante dos medicamentos, que ela mais receitava no tratamento dos seus pacientes.

 

                        Seu devaneio sobre a torre Eiffel foi interrompido pela secretária que lhe informava, via interfone, que o doutor Eugênio Chiptovski estava ao telefone, desejando falar-lhe.

 

                        - Mais essa ainda! E a essa hora? – queixou-se consigo mesma, a preclara Menese. Depois, com mais segurança na voz, ela arrematou: - Diga ao meu nobre colega que tenho uma consulta marcada, nesse exato momento, com o mestre Rogerio Abdelho Nascifhoda, e que esta consulta é inadiável.

 

                        Ao depor o interfone no gancho, Ana Menese buscou o guia turístico mais recente, comprado momentos antes de vir ao consultório, naquela segunda-feira.

 

                        Observando o mapa da cidade Luz e ante o temor de se perder por aquelas ruas, ela acalmou-se dizendo:

 

                        - Com o advento desse aparelhinho supimpa, auxiliar dos motoristas, conhecido como GPS, a gente se orienta fácil, em qualquer lugar.

 

                        - Doutora! O Tendes Trame acaba de chegar – informou a secretária pelo interfone. Logo em seguida o paciente adentrou a sala aboletando-se na cadeira fixada defronte à médica.

 

                        - E ai, como está esse poder? – perguntou a doutora, observando o ar cansado e envelhecido do deputado.

 

                        - Ando muito chateado. O Zé Cílio Demorais, você conhece, não é? Pois esse cara vive publicando matérias sobre licitações fraudulentas e eu me sinto atingido por isso. Você compreende? Tudo o que sai no jornal dele, parece que é pra mim.

 

                        Tomada por muita compaixão a doutora respondeu:

 

                        - Olha, nem tudo o que é dito ou publicado pode se referir a você. Mas acho que no seu caso, creio que estamos diante de um distúrbio conhecido como delírio de referência e precisamos tratar isso. Vou lhe passar uma medicação importante. É de uso contínuo. Você deve tomá-la por toda a vida. E, olha, não serve genérico. Você me entende?

 

                        Buscando então o receituário guardado na gaveta, a médica prescreveu os comprimidos, cujas comissões de vendas, pagas pelo laboratório fabricante, a levariam a mais um passeio inesquecível pela Europa.

 

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publicado às 18:46


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