Naquela sessão ordinária da câmara municipal de Tupinambicas das Linhas não cuidavam, os nobres edis, de outra coisa que não fosse a concessão de nova moção de aplauso aos apaniguados de sempre.
Uma fofinha, que tinha os cabelos louros, curtos e, em franja, comandava os trabalhos, daquela noite de quinta-feira, com muito zelo. Ela vestia um traje branco com listras azuis. (ou seria azul com listras brancas?)
A mulher sabia que viviam os dias precedentes do jogo decisivo entre Corinthians e Santos, e que muitos santistas fanáticos distribuíam brindes na mesma quantidade de gols que o time precisava para tornar-se o campeão estadual.
Nas cadeiras, onde permanecia o público, ela podia distinguir, da mesa diretora onde estava, os três bonés brancos, as três camisetas vermelhas, e as três calças jeans desbotadas, que vestiam algumas pessoas diversas.
Apesar de estar convicta que mantinha o peso ideal, a balofa notava o excesso de banha que lhe adornava os braços, naquela parte de trás, causando-lhe certo desconforto.
Quando a leitosa pegava no microfone tentava reprimir ideias furtivas que lhe assomavam a consciência e por caminhos desconhecidos, sua memória revivia o que lhe dissera o médico com quem se tratara por longos e infindáveis anos: “Um tratamento está terminado, pouco importando o diagnóstico do caso, quando há completo desaparecimento do quadro psicopatológico e evidentes sinais de possível reajuste no meio social...”
Apesar de tudo ela não conseguia deixar de lembrar do falo e-nor-me que lhe acorria sempre que tocava naqueles microfones.
Quem poderia imaginar que alguém, enquanto ela discursava, passaria com o carro verde-mosca-varejeira em alta velocidade, defronte a câmara municipal e gritasse a plenos pulmões: “Era só pena de gavião que avoava”?
Pois foi o que aconteceu. Quem pôde olhar o bólido conduzido pelo louco alucinado avistou a publicidade afixada no vidro traseiro do veículo: “Breve em Tupinambicas das Linhas a mais nova sensação da música sertaneja, seu Correia & Couro, para as melhores famílias da cidade.”
- Are Biba! Are Biba, - esgoelava o vigia encarregado de manter íntegros os carros parados no estacionamento da instituição. – Como é que pode uma coisa dessas? – perguntava ele.
No plenário prosseguiria sua arenga sonífera a nobre vereadora balofa, também conhecida como A pata choca, se não fossem as reivindicações de um chato querelante que insistia em aparteá-la.
Em sinal de protesto a mulher pôs o microfone sobre a mesa e, apanhando seus papéis que colocou debaixo do braço esquerdo, saiu em direção à rua, caminhando com passos tranqüilos.
- Usam e abusam, mas dindim mesmo que é bom, nada! – murmurava a mulher ao entrar no seu Gol alvinegro.
Fernando Zocca (mais gripado que porco mexicano).