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As feijoadas

por Fernando Zocca, em 31.10.10
 

                      Charles Bronchon chegava em casa cansado todas as tardes. Depois que tomava banho ele saia pra rua e ficava na calçada observando o movimento.

 

                   Sentado num pedaço de pau ele observava os calcanhares que estavam rachados, a barriga enorme que o impedia de ver as unhas encravadas e os tornozelos inchados.

 

                   Charles perdera os pêlos das pernas e dos braços há muito tempo. Apesar de manter tufos de cabelos na testa, ele percebia que, no alto do cocoruto, eles escasseavam.

 

                   Por ser tabagista inveterado ele se alimentava muito bem. Seu prato favorito era a feijoada. Diziam os fofoqueiros de plantão, que Charles regozijava deglutindo latas e latas do tal alimento durante a semana.

 

                   A quem dissesse ser ele um glutão, respondia que precisava estar sempre forte para enfrentar as dificuldades da vida. Então Charles mandava goela adentro, usando colheres, porções imensas das massas nutritivas.

 

                   Se alguém reclamasse por ele comer tudo sozinho, não deixando nem um pouquinho pra ninguém, Charles mandava caçar sapos; e que fosse pra esquina ver se ele se encontrava lá.

 

                   - Vá ver se eu estou na esquina. – dizia ele com a cabeça quase enfiada na lata, na qual introduzia colheradas rápidas, sacando-as cheias.

 

                   E depois então, de saciada a fome, Charles arrotando, tirava um cigarro do maço, que deixava sobre a TV e, arrancando dele o filtro, acendia-o aspirando profundamente a fumaça quente.

 

                   De vez em quando Charles punha na boca o palito de fósforo que usara pra acender o pito. Ele não o mastigava, por não ter os dentes, mas aliviava-o a sensação que lhe causava o cavaco nas gengivas; era triste ver que delas emergiam os cacos podres, que um dia, há muito tempo, foram seus dentes.

 

                   Depois que coçava o saco, soltando-o dos apertos, olhava pra patroa barriguda e silencioso igual a um felino, saia pra calçada por onde caminhava até o boteco.

 

                   Por não gostar de água e só beber cerveja, Charles tinha mais prejuízos do que lucros no seu negócio. Chegaria o dia em que ele, muito cansado, desejaria parar com aquilo tudo.

 

                   Charles queria descansar. Descansar em paz.

 

 

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publicado às 16:53



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