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Enrique

por Fernando Zocca, em 08.02.17

 

 

Luisa Fernanda, a gazela tímida, não se manifestava a não ser por codinomes. E isso quando não estava invariavelmente bêbada.

Um dos seus apelidos era: a Gazelinha Corinthiana. 
Sua história era bem triste: o marido, cansado de sentir o bafo de cachaça que emanava daquela bocarra, não teve alternativa do que a de encontrar afago nos braços duma outra qualquer.

Cornuda, Luisa Fernanda Demorais não via mais nenhuma satisfação a não ser na pinga que, aliás, foi o líquido muito usado também por sua mãe.

A velhota, baixinha, gorduchinha, e que sempre gostou de fazer fézinhas no jogo do bicho nutria certa desconfiança das atitudes do seu marido, o pai da Luisa, flagrado inúmeras vezes usando cuecas e meias cor-de-rosa.

Dona Lurdosa relevou os disparates do maridão até o momento em que descobriu um fato imperdoável: o sujeito usava, às ocultas, calcinhas vermelhas esvaídas.

O velho que gostava de churrasco não parou de consumir a carne nem mesmo quando descobriu ser portador do câncer.

Luisa não se esquecia dos conselhos que sua mãe sempre lhe dava antes de sofrer um piripaque mortal:

- Enrique, minha filha, enrique. Se não enricar você se complica sem solução.

Diziam que quando vivenciava aqueles frequentes momentos "pra lá de Bagdá" Luisa Fernanda Demorais, chorosa, abraçava e beijava a boca da cadela Magna dizendo:

- Minha filha, que mundo cruel: eles não sabem o que fazem. Acabaram comigo. Levaram muito a sério quando eu lhes pedia um motivo. Se você fosse gente, minha neném peluda, latideira e mal-cheirosa, eu lhe pagaria um curso na universidade. Seria uma advogada e nós processaríamos os desalmados.

Para sentir-se compensada, por ter perdido o parceiro, Luisa fez um juramento: tornar-se-ia um verdadeiro cupido.  Veria nas uniões que arranjaria, o consolo para aquela tão funesta frustração.

- Oh céus – chorava a melindrosa, andando descalça em torno da piscina - Vou dar um churrasco inesquecível. Convidarei mil gentes. Se não emparceirar pelo menos 10 convivas não me chamarei mais Luísa Fernanda Demorais, a que mordisca chuletas e maminhas.  

 

 

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publicado às 02:05

O Clube da Bruta

por Fernando Zocca, em 21.07.12

 

Quando Luísa Fernanda completou 47 anos achou que deveria promover uma tremenda festa de arromba. Na verdade o evento serviria apenas de pretexto para uma reunião da diretoria onde se discutiriam os estratagemas de "fecha-beiço", a serem empregados contra os desafetos linguarudos e ordinários. Por isso, pelo Telefone, convidou a vovó Bim Latem, Kol da Mumunha, Val da Seita Maligna, Allan Brado o veadinho, Allan Bik a esponja e Klic Douglas.


Na sua mente, completamente encharcada, com os fluídos cervejosos, traçava os planos detalhadamente; deveria expô-los ao grupo de forma clara e firme para que não suscitassem qualquer dúvida ou vacilação.


Determinou que aquela sua empregada, gorda e galhofeira, parasse por algumas horas, com os encontros defronte ao portão, onde fofocava sobre a vida dos vizinhos, e que limpasse imediatamente o quintal onde receberiam os convivas.


À noite, logo depois do Jornal Nacional, encostou ao meio-fio, a vovó Bim Latem. Vinha num carro novo cinza reluzente, mas já não era o importado que sempre usara. Ao descer, mostrou que tinha uma certa assimetria nos olhos. O direito, não se sabe se por força da gravidade, ou problemas neurológicos, estava mais fechado que o esquerdo. Por teimosia negava-se a usar os óculos recomentados, e por isso, forçava o olhar quando botou os pés no chão. A luminosidade escassa, porém, impediu que ela desviasse os pezinhos dos montículos de cocô, antes deixados ali pela poodle branca. O encontro, então foi inevitável.


Bim Latem, irada com o grude que lhe travava os passos, amaldiçoou Luísa Fernanda; convenceu-se de que ela não passava dum formidável traveco zombeirão descendente dos Luíses da França. E que essa frutinha supimpa, originara-se mesmo do Luís XXIV, o dragão mocréico.


A vovó premeu a campainha; esperando ouviu os ladridos perfuro contundentes da bicha branca e peluda que se assanhava lá dentro. Luísa surgiu num short preto com o busto semi-desnudo. Tinha nos pés um par de chinelos azuis e largos que não impediam o vazamento dos artelhos pelas bordas frontais. Na mão direita trazia o molho das chaves e um cigarrinho entre os dedos indicador e médio. Com os dedos longos da mão esquerda, tentava manter alinhados alguns fios dos cabelo curtos e negros que teimavam em cobrir-lhe a orelha.


Ao vê-la vovó bateu três vezes os pés no chão. Antes de entrar foi logo dizendo: "É melhor cancelar essa reunião, que não vai dar certo".


Luísa, a fodida, pensou em interpelá-la, mas já conhecendo a personalidade despótica da velhota baixota e balofa, inibiu-se. E vovó continuou: "E atenção! Você tem só até amanhã para dar um destino pra essa cadela safada. Só até amanhã! Vá ao magazine Druida e converse com o Jacó, o rei da farofada".


Luísa abriu o portão; estava envolvida num banzé terrível formado por aquele coletivo de pulgas. Vovó permanecia empertigada e ciente de que tinha muito mais valor do que podia crer aquela filosofia vã, perdida naqueles miolos moles, de projeto frustro de mulher. A velha entrou com seu pé-de-anjo direito na casa engradada.


Com voz imperativa, de quem estava acostumada ao mando, determinou que fossem feitos os telefonemas para todos os que antes haviam sido convocados.


Depois que Luísa, a escalafobética, cumpriu as ordens, vovó mandou que ela sentasse naquele sofá marrom, já velho e esgarçado. Com suas pernas alvas e tremulas a esquisita, de origem "francesa", acomodou a bundinha flácida nas almofadas pútridas.


Bim Latem então falou: "Você, com essa idade que tem, já deveria saber que para as mesmas causas ocorrem os mesmos efeitos. E que mais vale um péssimo acordo do que uma ótima demanda. Por isso para calar a boca dos catinguentos, dê a eles um dinheirinho. Eu creio que uns 30 mil reais sejam suficientes. Com certeza fecharão aqueles bicos feios de tucanos sem terra."


Luísa Fernanda, cabisbaixa, pensativa, e esfregando as mãos mantinha-se calada. A cachorra, estrupício degenerativo, punha sempre em polvorosa sua colônia de pulgas, quando com as patinhas traseiras, alternadas, coçava o cangote.


O conflito realmente findaria. E não era isso mesmo muito bom?

 

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publicado às 14:51


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