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Projetos

por Fernando Zocca, em 04.03.14

 

O vereador Ely Chir, também conhecido como "boquinha de chupar ovo", alçou o dedinho indicador da mão direita acima da cabeça e disse com voz aguda, naquela noite de segunda-feira, no plenário da câmara municipal:

- Pela ordem, senhor presidente!

Fuinho Bigodudo, que presidia a sessão, levantou os olhos da maçaroca de papeis que manuseava e, olhando por cima do aro dos óculos, consentiu:

- Pois não vereador boquinha... Digo, doutor Ely Chir. Vossa excelência tem a palavra.

- Senhor presidente... Nobres pares componentes desta honrada casa de leis: gostaria de consignar os meus protestos contra a rejeição do meu projeto de lei que revogava essa tal da gravidade. Todos sabemos que a nossa cidade carece, há muito, das modernidades. Nós já adentramos ao século XXI e, segundo tenho ouvido, pelos lugares por mim frequentados, que a nossa querida urbe não passa mesmo de uma simples e mera província. Em decorrência deste gravame venho propondo a modificação das leis, pois sei que é uma forma de mudarmos a ordem das coisas e com isso trazer, se possível, o progresso para nossa cidade e nossa gente. 

- Um aparte, nobre vereador! - interrompeu Zé Cíliodemorais o mais antigo proprietário do Diário de Tupinambicas das Linhas, também promovido, pelo voto popular, a vereador.

- Pois não, vereador. Tem o aparte - respondeu Ely Chir ajeitando os microfones da sua tribuna.

- Particularmente sou testemunha do seu empenho em trazer a modernidade para a nossa terra. Tenho visto a sua luta incansável em prol dos cachorros e cadelas abandonados nas ruas da nossa cidade. Soubemos que Vossa Excelência cuida também dos gatos e isso nos honra muito. Entretanto considero essa questão da revogação da lei tão antiga como um equívoco. Não sei se isso seria possível. Talvez não seja da nossa competência...

- Questão de ordem senhor presidente! - manifestou-se a vereadora Dina Mitt Pacheco - Senhor presidente, temos informações do nosso departamento jurídico que essa matéria só pode ser legislada pela assembleia estadual. Nós enquanto município, não dispomos da legitimidade para ordenar esse tipo de matéria. 

- Perfeitamente... - concordou o presidente Fuinho Bigodudo - Mas queira prosseguir com a sua manifestação o nobre vereador Ely Chir.

- Muito obrigado, senhor presidente.  Mas como dizia eu... Realmente, creio que essas leis antigas e já ultrapassadas deveriam ser revogadas e erigidas outras em substituição. Com isso, é inegável, que a nossa cidade e o nosso querido povo se inseririam no mundo moderno. 

- Um aparte, nobre vereador! - pediu Billy Rubina erguendo o braço direito.

- Pois não, nobre colega.

- Não creio que seja sensato esse projeto de revogar a lei da gravidade. Entretanto, se é para o bem de nossa cidade e para a melhoria do nosso povo, apesar de o nosso jurídico informar que a competência não seja nossa, vossa excelência tem o meu apoio. 

- Muito obrigado, nobre edil. São com essas atitudes que a nossa casa de leis se engrandece. Mas, conforme eu dizia a rejeição, deste meu projeto, com certeza, resultará na manutenção do atraso da nossa querida terra. Mesmo assim gostaria de agradecer a todos os que nos deram o seu apoio. Muito obrigado senhor presidente.

- Pois não. Passemos agora à discussão do projeto de lei número 01081767 de autoria também do vereador doutor Ely Chir que trata da substituição de todas as subidas da cidade, e da manutenção somente das descidas. Projeto em discussão.

- Pela ordem senhor presidente - levantou-se Charles Brochon o funileiro marreta de ouro, mais importante da cidade.

- Pois não vereador. Com a palavra o professor Charles Brochon - sentenciou o Fuinho, pensando já nos momentos de chateação.

- Senhor presidente, nobres vereadores, vereadoras, senhores eleitores aqui presentes e também os que nos acompanham pela rádio e televisão Tupinambiquense: em que pese a relevante importância deste projeto inusitado do nobre colega Ely Chir temos para conosco que seria de grande desfavor para a nossa cidade a supressão de todas as subidas das ruas da nossa terra. Vejam que se mantivermos somente as descidas, como nossos velhinhos e velhinhas praticarão seus exercícios físicos eficientes tendo como opção somente a moleza das decidas? Percebam que a aprovação deste projeto porá em risco, inclusive, os planos terapêuticos dos nossos ilustres cardiologistas e seus consultórios especializados.

- Questão de ordem, senhor presidente - manifestou-se a vereadora Dina Mitt Pacheco - Não vejo porque a supressão das subidas da cidade comprometeria a terapêutica dos nossos cardiologistas, uma vez que há aparelhos que simulam essa condição geográfica. Entretanto seria bastante equivocada a aprovação deste projeto uma vez que sem subida não haveria também as descidas. Ora, como o nosso executivo manteria somente as descidas se suprimidas forem todas as subidas? Elas são inerentes. Sem uma não há a outra. Não sei se fui bem compreendida. 

- Perfeitamente, nobre vereadora - completou o Fuinho Bigodudo - Como ficariam as nossas enxurradas, não é verdade?  Mas prossiga nobre vereador Charles Brochon.

- Sim, meus queridos pares. Há também a questão dos carrinhos de rolimã. Já imaginaram as nossas crianças sem a possibilidade de praticarem as corridas com os carrinhos de rolimã? Encerro por aqui a minha manifestação. Muito obrigado.

- Com a palavra o autor do projeto, o doutor Ely Chir - disse o Fuinho.

- Senhor presidente, senhoras vereadoras e vereadores aqui presentes, povo que nos acompanha pela rádio e TV desta nossa querida cidade: só tenho a dizer que me sinto insuficiente para, por meio das leis, trazer o progresso a nossa urbe. Procuro formas de proporcionar a inserção da nossa gente no mundo civilizado, mas por mais que eu faça vejo que não consigo. Sem a aprovação percebo que meus esforços tornam-se inúteis para a condução do nosso povo a um mundo melhor. Tenho feito isso tudo, mais em resposta a todos aqueles que dizem que nós vereadores recebemos fortunas mensais para não fazer praticamente nada durante todo o tempo da nossa gestão. Vejo que a rejeição destes meus projetos confirma a tese de que nós fomos eleitos para não fazermos nada. Devemos permanecer silentes e imóveis. Nada do que possamos fazer mudará a situação do nosso povo. Por isso peço que em votação rejeitem esse nosso projeto 01081767. 

- Em votação o projeto de autoria do vereador Ely Chir que suprime todas as subidas da cidade. Sentados rejeitam. Em pé aprovam. Rejeitado o projeto.

Encerrada a sessão, no saguão da câmara municipal, com o semblante cansado, mas feliz, Ely Chir comentava os acontecimentos com Van Grogue que aparecera para cumprimentá-lo:

- A gente fazemos o que podemos, não é verdade?

- É sim, meu amigo. Quem faz o que pode, a mais não é obrigado. Vamos tomar uma gelada no bar do Bafão? - perguntou serenamente Van de Oliveira Grogue. 

 

 

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publicado às 09:35



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