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O frentista e a bomba

por Fernando Zocca, em 29.06.14

 

 

 

 

 

O sujeito era frentista e gostava também de bombas. E tanto era assim que, para fazer bonito para a galera reunida, se propôs a um desafio: seguraria um petardo na mão para provar que era valente.

Depois da explosão ele percebeu que era sim um valente. Sem, no entanto, os quatro dedos da mão direita. 

Àqueles que diziam ser ele um burro, respondia que não esperava por uma detonação tão forte. 

"É que podemos ser surpreendidos quando não divisamos as consequências do ato", explicava ele, uma semana depois, com o toco enfaixado. 

De certa forma concordo com o valente acidentado. Por exemplo: a gente tem experiência de que o ufanismo no futebol não pode resultar em sucesso. 

Mesmo assim a gente, pra fazer bonito, canta a vitória, antes do tempo, do mesmo jeito que o granjeiro conta com o ovo na cloaca da galinha, antes da postura.  

Assim, da mesma forma, seria o desmerecedor, o desrespeitador e o caluniador, atrasando a vida dos invejados, achando-se eles todos imunes ao próprio veneno.

Em defesa dos "simplinhos" surgem os complicadinhos que fazem tudo, menos levá-los para casa, dando-lhes os ensinamentos de civilidade. 

Seria difícil orientar os refratários a comportarem-se bem na vizinhança? Seria fácil se a morfologia cerebral dos histéricos fosse semelhante à da  maioria das pessoas. 

A percepção, os conceitos e o raciocínio do excepcional são peculiares e não interessa aos parentes, à escola, à igreja ou às autoridades botar a mão em cumbuca tão enraizada, em coisa tão complicada. 

É mais fácil sair de perto. 

Mas como os ventos que ventam cá, ventam também lá, o melhor a fazer seria mostrar as barbaridades que fazem. Com alguma sorte desmascaram-se algumas calúnias. 

Não seriam as características próprias dos deficientes infratores capazes de embasarem absolvições no judiciário. Mas isso não é o que temos visto atualmente em alguns casos. 

Não desejo mencionar a corrupção ou o tráfico de influência nas dependências da linda Temis. Entretanto, por não haver a crença nas bruxas, não significa isso que elas não existam. 

A quem interessa tanta aporrinhação? Certamente aos poderes constituídos hoje, por homens há uma vintena, ou mais de anos, incrustados nos tecidos públicos. Eles se negam a largar as mamatas das sinecuras. 

Não duvide que quando o sujeito lê a Bíblia na Câmara Municipal o faz pensando na destruição daqueles todos que pensam diferente deles.

Bagunça pode existir em qualquer lugar da cidade. Mas quando essa complacência se acerca da instituição, ocorrem prisões, expulsões do recinto e a defecação de regras homéricas aparecidas assim, num piscar de olhos, da noite para o dia. 

Em clima de copa do mundo seria imprudente crer que o sucesso do time deva-se mais àqueles que estão fora do campo do que aos verdadeiros atores do circo.

É lógico que a sinergia entre o selecionado e a torcida faz maior sucesso do que qualquer outra fórmula. Mas é indispensável que os arruaceiros, débeis de entendimento, possam impunemente, emporcalhar ou obscurecer a alegria do povo.

Ao contrário do que aconteceu ao frentista cuja bomba explodiu na sua mão, esperamos que as explosões no futebol sejam só de alegria e júbilo. 

 

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publicado às 01:53

Meu querido velho

por Fernando Zocca, em 27.06.14

 

 

Quando era moleque, meu pai não teria sido de trato muito fácil. 

O objetivo paterno de proporcionar-lhe uma boa educação fez com que ele participasse ainda bem criança, de algumas aulas de violino.

Nascido aos 12 de outubro de 1927, talvez por incompatibilidade com as irmãs mais velhas, ou inexistência de vaga nas escolas de Piracicaba, Fúlvio, também conhecido como Zico, foi levado a um colégio interno em Campinas, onde cursou o ginasial.

As visitas semanais que recebia traziam-lhe, dentre outras coisas, as famosas linguiças de porco feitas no açougue do meu avô, pai dele.

O aroma que evolava do alimento, guardado no armário particular do seminário, aguçava o paladar dos demais garotos desejosos de experimentar o sabor. 

Formado no ginasial Fúlvio, de volta à Piracicaba, trabalhando como caixa no Banco Moreira Salles, ingressou no curso Normal, do Colégio Piracicabano, onde se formou professor de artes. 

Durante o curso, no decorrer de uma festa junina, lá no Colégio, ele conheceu a minha mãe, que cursava o madureza. 

Depois de casados meu pai foi designado para lecionar numa comunidade japonesa (Bunka) de uma cidade bem distante. Minha mãe e eu ficávamos sozinhos na casa da Rua Benjamin Constant, que ocuparam, no início da década de 1950.

Admitido por concurso no IAPI (instituto de aposentadoria e pensão dos industriários), predecessor do INPS e depois INSS, Fúlvio Zocca ajudou a instalar a agência da entidade em Santa Barbara D Oeste, SP.

Com o dinheiro da venda de um dos imóveis do espólio de seu pai José Carlos Zocca, ao invés de adquirir a casa própria, comprou maquinário - máquinas de costura - para a confecção de camisetas. Com o tal empreendimento pretendia empregar a mulher e os filhos.   

Em 1973, durante o expediente, na agência da Rua XV de Novembro 790, ele sofreu um infarto.

Hospitalizado em São Paulo passou por sua primeira cirurgia cardíaca feita pelo famoso doutor Zerbini. 

Retornando e bem recuperado, foi aprovado em concurso, no INSS, para o cargo de fiscal previdenciário. 

Mesmo assim, por ser portador de cardiopatia grave, aposentou-se precocemente. 

Por determinações médicas devia fazer exercícios físicos com regularidade. Levando os conselhos ao pé da letra, ele associou-se ao Clube Cristóvão Colombo, onde algum tempo depois, ajudou a criar o departamento de tênis.

Além do tênis, que jogava com regularidade, meu pai gostava de fotografar e pretendia aprender a tocar violão. 

Em 1983 submeteu-se novamente a outra cirurgia do tórax na Beneficência Portuguesa, em São Paulo.  

Fúlvio Zocca faleceu no dia 23 de agosto de 1990, na cidade de São Paulo, aos 63 anos de idade, poucas horas depois da sua terceira cirurgia cardíaca. 

Saudades. 

 

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publicado às 18:47

Rose, a gueixa de coturnos

por Fernando Zocca, em 11.06.14

 

 

 

- Mas... E aquele voo de ontem a noite? Me conta, como foi? - indagava Dina Mitt ao atordoado Silly Kone.

- Eu já disse. Foi rápido, mas foi bom.

- Entre a decolagem e o pouso demorou quanto? Tipo 10 minutos?

- Imagina! Nem isso. Foi assim vupt.

- Mas e o preço da passagem? - indagava a curiosa Dina.

- Olha... Não é barato, não. Foi Caro, muito caro.

- Valeu a pena? Quis saber Dina.

- Você sabe... Quem não tem seus momentos de fraqueza?

- De otário, você quis dizer... - abusou a mulher.

- É... De otário. Fazer o quê?

- O pessoal anda comentando que até o Jarbas fez a viagem - arriscou Dina.

- Segundo o comentário lá no aeroporto, era o próprio prefeito que pagava os salários do pessoal de bordo. Sabe aquelas arrumações antigas quando o pai, um tio ou um outro parente qualquer, amigo do dono da empresa, combinava com ele a oferta de vaga de trabalho pro protegido, pagando todos os encargos?

- Sei. O dono do negócio tinha só que aguentar a figura por um determinado tempo lá no empreendimento - entendeu a Dina.

- Então... Por ter o Jarbas perdido a reeleição, não pode mais financiar o projeto. Então houve a dispensa. Mas o Tendes Trame se incumbiu dele mesmo arcar com todas as despesas trabalhistas desde que houvesse a continuação dos serviços de gueixa.

- Mas me conta mais. E os trabalhos de bordo? - Dina estava curiosíssima.

- Olha tem muita maquiagem, luzes coloridas, música ambiente, incensos indianos e uma certa ingenuidade - contou Silly.

- E bebida, rola? 

- Você acredita que não? - disse o aventureiro - Mas uma coisa me chamou muito a atenção. Sabe coturnos? Há certa fixação por esse tipo de bota.

- Será que é fetiche? - Dina estava interessada.

- Sei lá pode até ser pé chato. Sabe bota ortopédica?

 

A bordo do carro oficial do poder legislativo, Tendes Trame, a caminho de Tupinambicas das Linhas, vindo de S. Tupinambos falava ao telefone.

- E aí, amansaram a fera? Como assim? Ele apareceu? Foi lá falar com a aeromoça? Não? Você sabe né Fuinho que neste caso, teremos mesmo problemas nas reeleições. O Jarbas já caiu fora. Você e o Zé Lagartto podem preparar a aposentadoria. Não existe competência nossa nem em divertir os descontentes. Assim, meu amigo, assim não dá, assim, não pode.

Ao desligar o celular Tendes Trame percebeu que estava no meio de um engarrafamento quilométrico e que perderia muito tempo parado.

 

No bar do Bafão Dina Mitt e Silly Kone prosseguiam a conversa.

- Eu saí de lá era bem tarde da noite. Não dormi nada. Muita tensão. Na portaria o zelador me chamou de rato pelas costas. Eu nem liguei. Vou fazer o quê? - choramingava Silly Kone.

- Mas você é um banana mesmo. Onde já se viu gastar uma fortuna daquelas em troca de melar a cara com maquiagem. Você é uma besta mesmo - sentenciou a Dina.

- Ih, por falar em besta, lá vem o Van Grogue.

Van de Oliveira entrou no boteco e foi logo pedindo uma cerveja.

- Mas, olha me dá daquelas que não têm a tampinha enferrujada, por favor, viu seu Bafão?

Indo à mesa onde estavam os colegas Van acomodou-se e foi logo dizendo:

- Vocês sabiam que o Jarbas está com AIDS? 

- Hã? Como assim? - quis saber a Dina.

- É verdade. O comentário na rádio e no Diário de Tupinambicas das Linhas é que o ex-prefeito andava com uma sirigaita lá em S. Tupinambos, quando era prefeito e ela estava doente.

Dina Mitt olhando com expressão de compaixão para o Silly Kone disse suspirando.

- É meu amigo, parece que além de gastar o dinheiro, num voo ruim, você vai ter muitos outros problemas com que se preocupar, por muitos e muitos anos.

 

 

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publicado às 23:08

A Luz do Mundo

por Fernando Zocca, em 02.06.14



kol da Mumunha já bastante embriagado, perguntou ao Donizete Pimenta, que saía do banheiro, do boteco do Bafão, -  naquela tarde de segunda-feira - depois da ingesta da terceira cerveja, conhecida por suas tampinhas enferrujadas:



- É verdade que o seu aviãozinho já não sobe mais?

- Subir, ele sobe, mas precisa de uma declaração de amor. Você me ama? - quis saber Donizete Pimenta. 

- Nem com toda a luz deste mundo - rebateu Kol da Mumunha.

Enquanto isso, Fuinho Bigodudo, o presidente da Câmara Municipal de Tupinambicas das Linhas, inconformado com o nível cultural dos vereadores da cidade, caminhava preocupado, pelos corredores da casa, perguntando quantos dólares - hoje em dia - seriam necessários para a compra da vaga de vereador nas próximas eleições.

- Nestas alturas do campeonato, depois de 6 legislaturas seguidas não sei se continuo ou não. O pessoal se queixa da minha permanência por tanto tempo nesta casa. Mas o que é que vou fazer? O nível está tão baixo que o resultado não pode favorecer a ninguém que não seja a mim mesmo. Por cansaço - e mesmo se não puder concorrer novamente - penso em fazer uma espécie de madureza para os novatos. As dúvidas são muitas -  murmurava o edil preocupado.

No bar do Bafão, Van Grogue era mais um que não se conformava com a reeleição seguida, dos elementos medíocres da cidade, para o exercício dos papéis de vereador.

- Não esquente a cabeça e nem se preocupe com isso. Não é o nível cultural que elege ou deixa de eleger um cidadão. Ele pode ser o mais idiota da comunidade, mas se puder pagar, ou tiver quem pague, a contagem dos votos dele, no dia das apurações, ele estará eleito - respondeu Kol da Mumunha ajeitando a braguilha. Tudo é corrupção: desde a violação de cartas nos correios, e-mails, ou contagem de votos.  Quem tem o dinheiro paga o preço obtendo as vantagens.

- Sim, mas como conseguir tanto grana se nem emprego a gente tem? - questionou Van de Oliveira.

- É questão do capital inicial. Dois ou três assaltos bem sucedidos, a bancos, podem lhe render o necessário para a aquisição daquela vagazinha esperta, nas tetas públicas, que lhe garantirá bons anos de vida mansa.

- Os caras não querem nem saber se o dinheiro vem de assaltos, tráfico de drogas, de armas, fraudes nas licitações ou violação de correspondência. Uma coisa é certa: pagando o preço você terá o número de votos necessários para 4, 8, dezesseis ou mais anos da boa vida das sinecuras - asseverou Dina Mitt reforçando as palavras do Kol da Mumunha ao desalentado Van Grogue.

No gabinete do vereador Fuinho, Jarbas, o caquético testudo, depois de anunciado pela secretária, entrou esbaforido:

- A polícia federal quer saber sobre a licitação da ponte que fizemos e entregaremos agora neste ano de eleições. Tem um inquérito imenso que vai ser mandado ao ministério público.

- Não dá em nada. Todos tem um preço. De metrô, de trem, pontes ou viadutos, violação de correspondência, tudo pode se arranjar - garantiu o Fuinho calejado pelos anos de vida burocrática.

Enquanto os dirigentes da cidade confabulavam mais sobre seus interesses, do que os dos próprios eleitores, a conversa corria solta no bar do Bafão.

- Você acredita que os caras acham ruim quando a gente fala que eles são dispensáveis, ou que recebem muito dinheiro, pra não fazer nada em troca? - questionou Donizete Pimenta a Van Grogue, Dina Mitt, Kol da Mununha e ao Bafão que lavava os copos.      

- Eles me perguntaram um dia, porque eu não me candidatava - contou Kol. 

- Você tem que ser bem lazarento. Com o devido respeito, é claro - emendou Van de Oliveira. 

- Nem tanto. Nem tanto - corrigiu Donizete  - mas tem de ter certa maleabilidade com a corrupção alheia; é preciso vocação - ensinou. 

- Não acho errado o sujeito levar algum por fora quando isso não prejudica o povo - disse Dina Mitt.

- Pode até ser. Geralmente quase ninguém acha falta - reforçou Donizete Pimenta - Mas segundo eu soube o eterno vereador Fuinho Bigodudo voltará pra sua terra natal. Ele está com os bolsos cheios. 

- Vocês querem mesmo saber da verdade? Eu acho que o que falta é vergonha na cara dessa gente. Falta coragem pra enfrentar esses canalhas nas urnas - desafiou Van Grogue.

- Os caras compram, eles pagam preços altíssimos. Não tem como ganhar deles - garantiu Dina Mitt.

- Dizem que quem nasceu pra couve não chega nunca a sibipiruna - filosofou Bafão.

No gabinete Fuinho Bigodudo e Jarbas recebiam o deputado Tendes Trame que vinha falando sobre a tia Ambrozina.

Depois de muita lengalenga e combinados sobre os próximos lances do jogo que lhes mantinha o poder e a fortuna, os membros do grupo de senhores coronéis dominantes resolveram sair. 

A bordo do carro oficial, distinguido com as placas do poder legislativo e, dirigido pelo motorista oficial da casa, eles  rumariam para a capital onde se encontrariam com o governador do Estado. 

Ao passarem defronte ao bar do Bafão, Tendes Trame, que seguia sentado no banco do carona, ao lado do motoista, pediu para que ele parasse. 

- Quero comprar um Holls Mentho Lyptus - afirmou o deputado com a voz suave, quase feminina.

No boteco a conversa prosseguia mas o pessoal estranhou quando aquele carro preto, com placas oficiais, estacionou defronte ao estabelecimento. 

Tendes Trame assutou-se quando ao pisar na soleira do bar todos os que estavam presentes abandonaram rápidos,  os locais em que se encontravam. 

- Estranho... - conluiu  o deputado, enfiando a mão no bolso,  fazendo em seguida o seu pedido. 

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publicado às 18:24


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