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Fazer ou não fazer? Eis a questão

por Fernando Zocca, em 30.05.09

 

                          - Ah, mas para com isso! Então você pretende corromper as estruturas, que o criador lhe concedeu, com as tais próteses? Você não é desdentada nem perneta! Ora, veja que colocando essas coisas você terá inclusive dores nas costas, falta de ar, por compressão do diafragma e, esticamento da pele do tórax. Isso sem falar no enorme perigo de contrair diabetes decorrente da cirurgia. Haverá inclusive desproporção com as demais partes do seu corpo. Você passará por momentos semelhantes aos do Ronaldo Fenômeno que se submeteu a tratamentos intensivos para o desenvolvimento do tronco. Em consequência disso seus joelhos sofreram pressões que os levaram a rompimentos. Não quero assustar, mas veja também o que se passou com o Michael Jackson: o cara fez e desfez, virou e mexeu, e agora? Problemas graves na pele. Com você está tudo perfeito, isto é, pelo que vejo, não deixa de estar "tudo em cima". Devido ao aumento do peso frontal, você terá que fazer exercícios para fortalecer mais as pernas, sob pena de perder o equilíbrio com frequencia. Já se imaginou caindo de bumbum, na rua, toda vez que for caminhar? Você pode imaginar o que sente uma pessoa que carrega a mochila sobre o peito? E depois tem mais: esse problema de infecção hospitalar é mesmo muito sério. É terrível. E olha que os antibióticos usados por alguém acometido por infecções podem manchar os dentes tornando-os amarelados. Então pense naquele seu sorriso com todos os dentes brancos e, só um amarelo no meio. Você está louca? Não é brinquedo não!
                                   - Que exagero titia. Todo mundo está colocando prótese de silicone, por que eu não o faria? - Elza demonstrava alguma indignação.
                                   - Porque você é lindinha do jeito que Deus a fez, minha filha! Deixa de história e trate logo de ganhar um pouco de peso. Você não está anoréxica, pois não? - Ambrosina, com as mãos fechadas, apoiadas nos quadris inquiria a sobrinha usando alguma veemência. Os transeuntes passavam rapidamente pelas duas mulheres paradas defronte ao restaurante do invocado Jonny Alff Netti, sem lhes dar muita atenção.
                                   - Mas que chato isso, tia. Estão flácidos, murchos. - Elza um pouco constrangida, ainda buscava a aprovação da parente mais velha.
                                   - Você corrige isso exercitando os músculos do tórax e ganhando um pouco mais de peso, neném. Será o Benedito? - Ambrosina estava irredutivel.
                                   - Agora a senhora confundiu mesmo a minha cabeça. Estou na dúvida. Devo ou não devo fazer implante de próteses de silicone?
                                   - Olha, na minha opinião você não deve mexer nesse patrimônio com que foi agraciada. Poderão surgir nódulos perigosos. E depois tem mais: você viverá correndo o risco de rompimento da unidade, quando nadar. A dispersão da substânciia por outras partes do seu corpo produzirá inflamações horríveis. Já imaginou as cicatrizes e as deformações que podem ficar por causa das cirurgias? Tudo é muito perigoso.
                                   Elzinha que já sentia o cansaço intenso por permanecer tanto tempo em pé ali na calçada, resolveu despedir-se da velha tia chata. Com os usuais beijinhos no rosto elas então se separaram.
                                   Ao parar numa esquina à espera da oportunidade para atravessar a Rua, Elza pensava: "Mas quanto será que custa esse tal de implante?".
 
 
Fernando Zocca.
 

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publicado às 16:41

Opressão invisível

por Fernando Zocca, em 27.05.09

 

                                 Se no Brasil, agora nesse princípio de século XXI a manifestação do pensamento expressa em publicações nos blogs, gera reações furibundas, das chamadas forças de controle social difuso, imagine então o que não ocorre em Cuba, na China e na Coréia do Norte.
                            Se você estivesse lá em Havana, não poderia publicar num blog, suas ideias diversas do pensamento vigente no bairro.
                            Entendemos por “controle social difuso” a expressão de contrariedade e censura manifestada por vizinhos, parentes, amigos e autoridades.  Num lugar onde contar piada sobre o prefeito pode gerar prisão e até fuzilamento, imagine como deve ser sofrida a vida das pessoas.
                            Pra você ter uma idéia do que seja a proibição da manifestação dos sentimentos, imagine-se no Maracanã durante a partida cujo vencedor será o campeão. Você não poderá xingar o árbitro, os bandeirinhas e, nem meter o pau na organização do campeonato, sob pena de ter voltado contra si os olhares condenadores das autoridades. É mole?
                            É o que acontece em Cuba. Lá meu amigo, se souberem que você não aprova os governantes, podem lhe arrumar problemas sérios tais como prisão e até fuzilamento.
                            A centralização do poder nas mãos de uma pessoa só leva ao arbítrio e cometimento de injustiças muito graves. Veja o que acontece hoje em dia na Venezuela, onde Hugo Chaves tira o controle particular das indústrias que produzem as riquezas do pais.
                            Chaves fecha canais de televisão, jornais, rádios, coloca agentes seus na direção das grandes empresas produtoras dos bens de consumo, manipula o Legislativo, o Judiciário e,  arma-se com material bélico importado da Rússia. Pode ter bom senso uma política dessas?
                            Hugo Chaves é daqueles que numa reunião fala sozinho, não admitindo a manifestação do outro; ele tem dificuldades para ouvir; ele manda e está mandado. Isso não deixa de ser uma característica de quem seja injusto, cultive preconceitos e tenha mentalidade pétrea.
                            O Brasil já passou por isso, especialmente durante a vigência do regime militar que durou 21 anos (1964/1985), tempo suficiente para criar maneiras de pensar opressoras que ainda resistem até hoje.
 
 
Fernando Zocca.
                           
 
                           

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publicado às 15:35

O círculo vicioso

por Fernando Zocca, em 26.05.09

 

                                    A imprensa retrata a realidade que presencia e ninguém bem informado, pode negar a existência de uma terrível crise econômica que se instalou na indústria automobilística e nos bancos de todas as partes do mundo.                       
                           Tudo isso teria começado nos Estados Unidos onde os financiamentos, das casas próprias, deixaram de ser pagos por absoluta impossibilidade.
                            Relembrando o princípio de tudo, chegamos àquela situação em que o sistema financeiro norte-americano, aplicando juros insuportáveis, não conseguiu outra coisa do que a inadimplência dos seus clientes.
                            Então, como numa fila de pedras de dominó, tudo o que estava ligado a esses organismos financiadores, foi também caindo e tomado pela imobilidade.
                            As pessoas que adquiriram os imóveis não podiam pagar as prestações, por causa da usura, levando a escassez da moeda às instituições, que por sua vez não pagaram os salários de milhares de funcionários, e as demais contas corriqueiras tais como as de água, luz, telefone e impostos.
                            Por sua vez os credores das financiadoras e bancos, deixando de receber pelos serviços prestados, também não pagaram a quem deviam.
                            Formou-se uma corrente negativa enorme que parou a circulação de bens e prestação de serviços.
                            Bom, aqui em Piracicaba, parece que a Câmara de Vereadores anda na contramão. Pelo menos demonstra estar estacionada na contramão, semelhante àquele automóvel utilitário que mantém a porta traseira aberta à espera de algo.
                            Tanto é assim que o jornal A Tribuna, publicando matéria ontem, informou à sociedade piracicabana que as despesas do gabinete do presidente da casa, o Sr. José Aparecido Longatto (PSDB) passa dos R$ 95 mil, só nos quatro primeiros meses do ano.
                            É ou não é um contrasenso, uma condução em direção diversa da que ocorre no resto do planeta? Alguém poderia objetar que não são atitudes excêntricas, alopradas, desconectadas da realidade coletiva?
                            Você meu amigo leitor, pode imaginar onde e como cada um dos demais 16 gabinetes da Câmara utilizou os R$ 74 mil que relataram ter gasto, nesses mesmos quatro primeiros meses do corrente ano?
                            Se especialistas da área econômica garantem haver “alta” dessa “patologia” financeira instalada, na indústria e no comércio, somente em 2010, parece-nos que a Câmara Municipal demora ainda em promover a redução dos gastos.
                             Cremos que as verbas recebidas pelo município, tanto do governo do estado quanto da federação, deveriam ser melhor empregadas nas áreas da saúde e escolar.
                            Recentemente o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo reprovou o relatório de aplicação do numerário, apresentado pela atual administração. Constatou-se não ter ocorrido o uso adequado do dinheiro, na educação das crianças piracicabanas.
                           
 
 
 
 
Fernando Zocca.
                           

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publicado às 16:07

O selo

por Fernando Zocca, em 25.05.09

 

                            A tia Ambrosina naquela manhã de quarta-feira, 29 de julho, bastante calma sentou-se com delicadeza no sofá macio da sala de seu apartamento e, tomando o telefone, discou usando o polegar direito, o número do Zé Lagarto.
                            Quando ela percebeu que foi atendida disse:
                            - Zé, que falta de vergonha é essa? Saiu em todos os jornais da cidade que vocês vereadores estão gastando mais de R$ 4 mil por mês, cada um, só com telefonemas. Mas o que é isso?
                            Lagarto que chegara há pouco e tirara do cofre do seu gabinete o notebook, doado pela prefeitura, onde mantinha arquivados os seus projetos, depois de confirmar ser a tia Ambrosina que o procurava, atendeu o celular:
                            - Oi tia, como vai? E o Jarbas, tudo bem com ele? O baço melhorou? Han? Telefone? Ah, sim. As despesas passam dos R$ 4 mil mensais, mas olha, já mandei cortar tudo, pode ficar sossegada.
                            - José Lagarto, ponha a mão na consciência. Será que você não consegue passear, por uma hora diária, que seja, pela periferia da cidade e constatar o miserê dominante? Será que eu tenho que ficar puxando a orelha de vocês por essas barbaridades que cometem? Mas onde já se viu, criatura, gastar esse dinheirão com telefonemas? Até parece que todos os assuntos tratados são do interesse da cidade! Ah, faça-me o favor Zé, vê-se te emenda! – Ambrosina estava bastante irritada.
                             - Não se apoquente não tia. Não se deprima. Eu como presidente desta casa, tenho a honra de lhe informar, em primeira mão, que criamos um selo de qualidade e aproveitamento, que distinguirá nos finais de ano, todo vereador que não ultrapassar uma cota, cujo valor ainda estabeleceremos. Vai ficar jóia. O dinheiro economizado irá para uma caixa comum e será dividido entre as entidades carentes dos bairros.
                            - Zé Lagarto, olha, estou de olho em você! Essas importâncias que vocês gastam com telefonemas são maiores do que o salário de muita gente junta. – o tom de voz da Ambrosina era daqueles característicos de quem reprime a raiva. - Você e o Jarbas me conhecem muito bem. Não será preciso eu aparecer pessoalmente no gabinete de vocês para que ajam corretamente, não é?
                            - Não é preciso a senhora baixar por aqui... Quero dizer: não é necessária a sua presença. Já tomei todas as providências. As despesas serão reduzidas. Haverá publicação mensal de todos os gastos e tudo ficará bem.
                            - Eu acho muito bom isso tudo. E olha, vê se para de mandar perseguir a Elza. Ela não merece isso que vocês estão fazendo. Podem parar com a zoação. – Ambrosina desligou o telefone, levantou-se lentamente do sofá e caminhando em direção à cozinha onde tomaria um café bem doce e forte, murmurou:
                             - Se nem para a garantia dos direitos essenciais, que são visíveis, a população de baixa renda pode contar com esse poder instalado, imagine então o que não aconteceria, com a incolumidade dos cofres públicos que são invisíveis.  
 
 
Fernando Zocca.  
 

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publicado às 19:22

MM o movimento marrom

por Fernando Zocca, em 22.05.09

 

Falando aos dormentes com objetivo de influenciar suas mentes, atitudes, comportamentos e decisões, Klic Vigarista tinha por paradigma a vida ilibada do grande mestre Leon Devi, o chefe indiscutível do condado, que abrigava a seita do pavão louco.

Essa seita, se você ainda não sabe, nasceu logo depois que a S.M.D.V. - Seita Maligna do Doutor Val - viu-se impossibilitada de dar cabo do carrapato estrela que há muito vinha abusando da mansuetude e bondade desmedidas com que o tratavam. Era notório que Val o Terrível, aliado histórico da Bim Latem, perdido no emaranhado das inferências mediúnicas, apresentava-se inabilitado para planejar qualquer estratégia de combate. Por isso pedindo arrego confessou sua impotência e indisposição para tramas de batalha. Exorou, então sua dispensa, saindo de campo para não mais retornar.

Klic Vigarista foi escolhido em substituição. Ele era bastante competente para influenciar os sonhos dos que dormiam. Achegava-se perto donde a vítima inconsciente se entregava aos braços de Morfeu e falando como quem fala aos em vigília, provocava imagens, cenas, pensamentos e disposições de vontade que seriam detonadas, quando na presença dos estímulos a que se referiam. Esse demoníaco ser, era movido a ressentimentos nefastos. 

Ele era casado com Anermínica uma sujeita cinqüentona, cujas canelas finas, indicavam vida sob controle dos redutores de apetite. Klic Vigarista tinha por objetivo produzir a desunião, causar discórdia e bagunçar realmente o coreto dos desafetos. Seus discursos às vítimas dormentes suscitavam indignação, irando-as.

Sob a denominação de Movimento Marrom, os asseclas e caudatários reuniam-se se informando uns aos outros sobre as medidas de sabotagem e contratempos que provocavam ou provocariam nos adversários. As intrigas eram urdidas nessas reuniões que transcorriam com hilaridade e descontração.

Os habitantes da cidade, não conseguiriam nunca imaginar ou apreender o sentido da frase "vocês estão fodidos", pronunciada por um jornalista, no dia em que noticiava a fundação do MM Movimento Marrom.

Klic Vigarista tinha ojeriza por aqueles que afirmavam ser a causa da existência das forças ocultas, a timidez das autoridades. Ele condenava esse tipo de brincadeira e achava que descontração e pilhéria só se faziam contra os adversários. Uma das suas armas favoritas, que havia aprendido com Anermínica, era a contaminação da caixa d´água da vítima logo que se concluísse ser ela a ladroa em potencial ou que não desejava, de forma alguma satisfazer as necessidades sexuais dos chefes do MM Movimento Marrom. 

Anermínica nascera pobre. No sertão donde viera a escassez de alimentos provocava subnutrição grave que comprometia a formação normal dos tecidos corpóreos. Assim se comparássemos seu cérebro com o de outra mulher da mesma idade, nascida, porém num solo mais fértil, ver-se-ia a diferença de peso e composição química. E isso influenciava seu comportamento. Suas reações diferenciavam-na das demais mulheres. Os fatos que para a maioria causava riso, nela o assombro, susto e sobressaltos tinham a constância doentia.

Eram também inquietantes as cenas de ciúmes que vivenciava, quando desconfiada de que alguma donzela ou balzaquiana estariam assediando ao Klic o Vagau.

Mas, sua técnica para destruir devedores, desalojar inquilinos inadimplentes, favorecer mudança de vizinhos ruins, induzir jovens ao uso de tóxicos, interferir nos casos passionais, promovendo vingança, intrigar parentes, pais contra filhos, mães contra filhas, induzir ao suicídio e parricídio, era a de postar-se à janela do quarto onde dormia a vítima e aí discorrer normalmente o assunto como se falasse ao telefone ou com suposto interlocutor presente. Era peroração normal como se faz comumente dela havendo parte os pedidos que se diz às pessoas em vigília.

Klic Vigarista lembrava-se de uma ocasião em que, estando um comerciante rico e influente na cidade, proprietário da famosa casa "Quadrângulo" de materiais para construção, enrolado com um inquilino da sua prima, que tinha o marido condenado e preso por aborto criminoso, resolveu instalar na garagem do imóvel um escritório de contabilidade em que o "contador" falava o dia todo ao filho dormente do devedor. O sentido dos discursos era de fazer apologia ao crime,uso de drogas, e suicídio. E você sabe: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Vai daí que as palavras do pedinte foram atendidas. O moço acabou sendo internado numa clínica psiquiátrica, para o gáudio dos inimigos do seu pai. 

Klic Vigarista narrava com entusiasmo aos que pretendiam contratar seus serviços outra façanha inesquecível: para desalojar um vizinho chato, passava horas, feito um louco, durante semanas, falando ao quintal vazio da vítima, depois que ela se deitava. O despejando tinha a janela do seu quarto no caminho das ondas sonoras discursivas e destruidoras de Klic Vigarista e seus seguidores. 

Para causar separação dos casais e dar vazão à inveja postava-se, pelas manhãs, nas adjacências da janela da família visada e com diálogos brincalhões provocava sonhos nos dormentes, que inconscientes e incrédulos na existência de tanta maldade viam suas vidas ruírem com os acontecimentos danosos. As cenas que viviam nos seus sonhos se realizavam durante o dia nas encenações de Klic e seus adeptos. Ele era mesmo terrível. 

Os efeitos colaterais das teorias psicógenas eram bem maiores do que os supostos benefícios que poderia produzir. Então faziam parte do repertório das maldades de Klic Vigarista, vovó Bim Latem, Kol da Mumunha, integrantes da Seita Maligna do Doutor Val, da Seita do pavão louco e do MM Movimento Marrom: a) O envenenamento d`água, outras bebidas e alimentos. (cf. o golpe "Boa Noite Cinderela"); b) enredamento e difamação; c) indução ao suicídio, parricídio, uso de drogas e outros crimes fazendo-se discursos e falas às vítimas dormentes; d) inquietação e desassossego com o uso da fumaça, ruídos e latidos durante as refeições e nos períodos destinados ao sono.

Todas essas maldades dissimuladas com palavras que advogavam o pretenso amor ao próximo, à Cristo e a vida Cristã, punham a perder milhares de vítimas indefesas que se entregavam ao controle dessas forças danosas. Que Deus nos livrasse de tamanha danação. Que Deus nos protegesse e guardasse contra tamanha malignidade.
 
 
Fernando Zocca.

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publicado às 14:33

Quando a transigência pode complicar

por Fernando Zocca, em 20.05.09

 

                          É preciso algum cuidado com o que dizem certas pessoas. Elas sempre expressam o que crêem; e tais crenças se baseiam no que as constitui. Ou seja, se alguém possui tendência ao alcoolismo, crerá que todos os demais não sabem o que estão perdendo.
                            No mesmo sentido, se elas gostam muito de música sertaneja, tenderão a julgar que o mundo inteiro gostará desse gênero musical.
                            Se a tal pessoa ama os cães Poodle, poderá achar que todos aqueles que não gostam desses animais, sejam esquisitos, ou loucos.
                            O sujeito que insiste em fazer a vizinhança que o cerca, a ouvir as músicas que ele gosta, sinaliza ter um espírito fraco para a tolerância da diversidade e, por outro lado, demonstra sua tendência a pensar somente em si mesmo.
                            Então essa mentalidade egoísta, cúpida, levará, com certeza, à conhecida exclusão. Excluir é uma forma de demonstrar o poder, o controle. É esse é um dos grandes males que se observa hoje.
                            Essa mesma cupidez pode se apresentar como preconceito contra os pobres, pode surgir tentando segregar os judeus, as mulheres, criando esquizofrênicos, prostitutas, gays. E se a tal mentalidade se disseminar por uma cidade, haverá a formação de castas, tal como vemos na Índia.
                            Essa mentalidade que privilegia o ego em detrimento do outro é o contraponto do cristianismo, do que nos ensinou o próprio Jesus. Cristo é o lado diverso da moeda, o oposto, onde o que conta é o outro e não a si próprio.
                            O sujeito que deprecia o seu semelhante deprecia a si mesmo antes. Ele odeia ao próximo como se odeia a si. Então para obtermos a paz, antes de tudo é preciso valorizar-se, amar a si mesmo, aprender a se respeitar para poder depois respeitar o vizinho.
                            O sujeito maldoso usa o temor e o desconhecimento, que a maioria das pessoas tem sobre determinados assuntos religiosos, para disseminar preconceitos, boatos, falsidades, calúnias e difamar a quem antipatizam.
                            Conheço uma pessoa que estava sendo processada, por ter cometido muitas contravenções e até crimes contra um vizinho. Mesmo depois de ser agraciado com a desistência do processo, movido contra ele, continuou disseminando difamação pelos bares e rodas de bebedores, nos finais de semana.
                            É muito comum vivenciarmos um conflito entre as regras religiosas e as normas feitas pela sociedade. Devemos aprender especialmente nos casos como desse caráter complicado, que quando isso ocorre, deve-se priorizar a aplicação do Direito.
 
 
Fernando Zocca.  

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publicado às 19:47

A festa de aniversário

por Fernando Zocca, em 20.05.09

 

                                    - Van Grogue, meu lindinho, conta uma historiazinha pra titia? Ah, conta vá!
                            Aquelas palavras ouriçaram os pêlos dos braços do Van, pois foram bafejadas no seu cangote, justamente no momento em que ele se preparava para levar à boca, o primeiro copo, da sexta garrafa de cerveja, daquela tarde, ali no bar do Billy Rubina.
                            - Mas será o Benedito? Ô Ema, vê se te limita um pouco, caramba! Quanta aporrinhação garota! Assim não dá pra beber sossegado, pô!
                            Apesar do protesto do cachaceiro mais amado de Tupinambicas das Linhas, as demais pessoas que formavam o grupo, resolveram arremedar a Ema Thoma e, em tom de falsete pediram em coro:
                            - Ah, conta vá!
                            - Bom, já que todo mundo está mesmo pedindo, eu vou lhes contar uma história sobre a infância do atual presidente da Câmara de Vereadores de Tupinambicas das Linhas. É uma passagem que presenciei, quando a cidade ainda não estava sob o poder da corriola do espevitado, que todo mundo conhece como Jarbas, o enrustidor do cacau alheio. – Grogue pigarreou, tirou um lenço do bolso, limpou os lábios, mandou abaixar o som do rádio, que noticiava uma comemoração no Flamengo do Rio e começou:
                            - Ele era ainda um menino, deveria ter uns seis anos, talvez sete, não sei precisar; mas o que importa é que estávamos no final dos anos cinqüenta; mais ou menos cinqüenta e seis ou sete. Bom, sei que o vi saindo sozinho de casa, num domingo à tarde. O garoto apareceu bem arrumado, tinha acabado de tomar banho; seus cabelos, bem penteados, eram pretos e encaracolados. Ele então começou a caminhar pela calçada, olhando as coisas ao redor, como se familiarizasse com elas.
                            - Quer um cigarro Van? – perguntou Ema ao colocar um prato de azeitonas sobre a mesa.
                             - Não, não quero. Você sabe muito bem que eu parei com isso e outras porcarias faz bastante tempo. – Contrariado Van prosseguiu – Naquela época não havia esse movimento que existe hoje na cidade. Os finais de semana eram tão silenciosos que se podia ouvir o zumbido do voo dos insetos. O guri foi então andando, atravessou uma rua, andou mais e mais e, ao chegar num ponto, onde já sentia medo, por estar só e desconhecer a região, pôde ouvir um burburinho de crianças que brincavam. Bom, eu acho que a curiosidade foi muito mais forte do que o medo, porque ele ao ver aquela molecada toda correndo pra lá e pra cá, parou defronte ao portão da casa. Ora, quando os demais meninos o viram, vieram até ele e lhe perguntaram quem era. Ele respondeu dizendo seu nome e o lugar onde morava. Foi então que um dos garotos, se não me engano o irmão do aniversariante, o convidou para entrar. Acontece que a zoeira toda que a molecada fazia, cessou quando notaram a presença do visitante. Bom, numa casa onde há crianças, há bastante barulho. Ainda mais em dia de festa. E por isso mesmo o silêncio significa algo diferente, estranho. E foi essa estranheza que chamou a atenção da mãe do aniversariante. Ela veio saber o que estava acontecendo quando então, um dos seus filhos apresentou o menino que aparecera. A mamãe tornou a perguntar o nome do ilustre recém chegado, bem como sobre o local de onde viera. Ao ser informada que a avó do guri morava na casa da esquina, do mesmo quarteirão onde estavam, ela se acalmou. A jovem mamãe falou às suas irmãs, que era o neto da viúva do açougueiro. Bom, puseram o penetra sentado numa poltrona verde, plastificada, que ficava adiante e ao lado da TV.
                            Van Grogue parou, tossiu, pigarreou e ingerindo mais um gole de cerveja continuou:
                            - Naquele tempo a TV era em preto e branco. Não havia transmissões durante as 24 horas, que temos hoje em dia. Por isso, a explicação dada para os chiados e chuviscos trêmulos, que surgiram quando ligaram o aparelho, foi de que ainda não estava na hora dos desenhos.
                            - Nossa Van, mas que história mais comprida essa! – Billy Rubina já apresentava sinais de cansaço.
                            - Vocês não pediram? Então, agora escuta, ora! – Grogue bebeu outro gole de cerveja, pegou com um palito a azeitona do prato e, saboreando-a prosseguiu:
                            - Hum que delícia essa verde, hein? Vá vendo... Bom, quando chegou a hora de cantar o parabéns vieram chamar o visitante que brincava com os meninos ali no tapete da sala. Todo mundo foi então pra cozinha. Na mesa havia um bolo branco, muitos pratos de doces, refrigerantes e salgadinhos.
                            Billy Rubina saiu lá de trás do balcão, aproximou-se e espetou uma azeitona. Grogue protestou:
                            - Opa! Dá licença? Será o impossível? – Van então continuou - Muito bem, antes de cantarem o parabéns a você, uma das tias do aniversariante disse pra todo mundo ouvir: “Olha gente, esse menino ai é o fulano, que mora ali em cima. Ele veio participar da festa. Fala alguma coisa menino!” Rapaz, eu nem te conto. O penetrinha ficou tão vermelho que parecia uma melancia. Como ele não dizia nada, uma garota aproximou-se dele e perguntou: “Você não fala?” O pobre infeliz só pensava em sair correndo. E aquela multidão toda olhando para ele... Bom, depois que o puseram sentado, num banquinho perto da mesa, começaram a cantoria. Horas depois, terminada a festa o menino foi embora satisfeito mas, ao chegar em casa levou a maior bronca por ter sumido, sem ter avisado onde fora.
                            - Só isso? – perguntou Ema Thoma. – Mas que história mais chata essa!
                            - Ah, se eu soubesse que era isso, eu não tinha nem pedido pra você contar. – Afirmou Billy Rubina passando um pano sobre o balcão.
                            - É isso ai. Essa é parte da história do garoto que hoje é o presidente da Câmara de Vereadores de Tupinambicas das Linhas. E vocês, bando de pingaiada, cadê as suas histórias?
                            Dizendo isso Van Grogue levantou-se e determinando ser a despesa do dia, por conta da casa, saiu sem pronunciar mais nenhuma palavra.
 
 
Fernando Zocca.
                             
 

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publicado às 01:10

Falando dez vezes mais

por Fernando Zocca, em 17.05.09

 

                            Gabrielzinho “o boca de porco” não era locutor esportivo, mas claro, falava dez vezes mais.
                            Diziam do possesso, amante das “casas de luzes vermelhas”, que ele não era carranca do rio São Francisco, mas que também não deixava de ser bem feio.
                            Ele tivera a quem puxar. Seu pai um pinguço banguela e tabagista era mais horroroso do que bater na mãe por falta de mistura. Da genitora então, nem se fala. Era bunduda, barriguda e seus pés chatos, tinham os calcanhares rachados.
                            Gabrielzinho o assombro da vizinhança, era esguio, tinha 1,64m de altura, pálido, magérrimo e, o seu encasquetamento com alguém ou alguma coisa, significava o mesmo que a ferrugem para os metais ou as manchas para os trajes de gala.  
                            Gabrielzinho amasiou-se com uma catadora de papelão e latinhas, tendo com ela três filhas. Ele mostrou-se muito irado, quando descobriu que a menina, a quem convidara para residir com ele e seus pais, não era mais virgem, tendo perdido essa condição, num motel de beira de estrada, onde farreava com um metalúrgico aposentado.
                            Alguns psiquiatras dos centros de reabilitação onde seus filhos eram atendidos, diziam que Gabrielzinho era portador da esquizofrenia paranoide e, que quando estava sob os surtos da afecção, punha-se a falar coisas sem nexo por longas horas durante as madrugadas, fazendo comentários depreciativos inclusive, sobre as roupas que as pessoas repetiam.  
                            Não havia constrangimento dos demais parentes e nem eles mesmos se incomodavam com as lengas-lengas do demente, pois acreditavam que, quando ele “o boca de porco” agia assim, estava sob influência dos maus espíritos.
                            Gabrielzinho simulava trabalhar num posto de gasolina, mas na verdade, nunca saia de casa. Ele justificava essa atitude dizendo que as crianças, sob sua guarda, tinham que manter-se entretidas para não atrapalharem os descansos da velhota de calcanhar rachado.
                             Um dos tios do Gabrielzinho era gay assumido, e já não causava tanto espanto nos demais familiares, as aparições que ele, a gazela, fazia trajando as vestes da mãe, há dezenas de anos falecida.
                            Alguns parentes, mais experientes, podiam garantir que ao Gabrielzinho não haveria outro destino do que o manicômio, a cadeia, ou mesmo o cemitério da cidade. 
                              

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publicado às 19:42

Decidindo sobre a vida futura

por Fernando Zocca, em 17.05.09

 

 
 
                         “Agora ou vai, ou racha”, disse-me, por telefone uma amiga, que encontrava alguma dificuldade, vacilação, no seu relacionamento pessoal. Esperamos todos, que tudo dê certo. Torcemos pra que seja conforme o desejo mais sublime e acalentado nos corações amorosos.
                            Derivando um pouco a conversa, é salutar dizer também que a reconciliação torna-se muito importante, tanto para a nossa própria paz espiritual, como para a saúde corpórea.
                            Sabe quando, num dado momento impensado, fazemos algo que magoa alguém? Apesar de não ser nada fácil, é salutar que nos reconciliemos. É muito complicado, bastante embaraçoso mesmo; temos que suplantar nossas próprias barreiras internas, podendo ser quase impossível.
                            Mas a partir do momento em que estendemos a mão àquela pessoa com quem tivemos algumas rusgas, parece que tudo se torna mais claro, mais leve, mais suave, e o alívio vem a nós, nos fazendo muito bem.
                            Quando nos dirigimos à uma celebração religiosa é aconselhável estarmos em paz com todos. Se não for assim precisamos, apesar de ser muito desconfortável, nos desculpar com quem se acha ofendido com nossas ações ou palavras.
                            Então, da mesma forma que perdoamos a quem nos fez algo de ruim, Deus haverá de nos perdoar os erros, os pecados, compreende?
                            Nunca é demais repetir aquela regra chamada de ouro: façamos aos outros o que desejamos que façam a nós. Ou: não façamos aos demais, o que não desejamos que façam a nós. Não é difícil de entender, não é?
                            Que você seja mesmo muito feliz e que possa depois então, transmitir isso tudo, aos que te querem tanto bem.
 
 
                            Estevão Araújo.  

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publicado às 01:38

O gavião e a pintainha

por Fernando Zocca, em 15.05.09

 

        Um vôo rasante do gavião faminto fez com que a pintainha se assustasse, desaparecendo dentre as aberturas das pedras. A fuga ativara nela a produção de tanto calor que ao chegar à gruta escura e fria, sentiu-se sufocada por alguns momentos.
         “Ô vida cruel” – pensou ela – “Não se pode, nem ao menos, sair um pouco da toca pra observar a redondeza, que logo surgem esses bicudos plumados querendo unhar a gente. Assim, não dá!”
                            Enquanto alisava as penas amarrotadas, ela pensava em sua liberdade que estava mesmo tolhida. “Ainda bem que não são urubus” – conformou-se a pintinha.
                            Depois de certificar-se da lisura das plumas antes arrepiadas, ela notou que adentrara ao recinto o mandante do trecho: era o galináceo Gera que “dando uma dura” na recém chegada se expressara:
                            - De novo zanzando pelo terreiro? E sozinha, ainda por cima? Pode uma coisa dessas? Você não percebe que os gaviões estão a fim de te levar? E depois como é que ficamos? Nunca mais, babau, tchau, morou? Dá pra se tocar Mary?
                            Bastante sentida Mary resmungou:
                            - Estou cansada desse chove-não-molha, dessa indecisão. Quero mudar esse estado de coisas. Não podemos mais ficar assim. Aqui não posso ser eu mesma. Será que você não entende? Como vamos afastar esse perigo constante, vivendo desse jeito? Temos que mudar logo.
                            - Para com isso Mary! – Com essas coisas não se brinca. Aqui onde estamos está muito bom. Pra não piorar, deixa do jeito que está!
                             Ao expressar sua opinião, que considerava imutável, Gera afastava-se deixando a avezinha desprotegida. Porém ao sair ele não pôde deixar de ouvir o farfalhar das asas do gavião faminto, que sobrevoava a vizinhança.
 

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publicado às 17:44

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